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O grito

— Amor, por que você falou de mim daquele jeito no conto passado?

— Desculpa Lee. Às vezes me perco em meus próprios pensamentos.

— Eu sei que você não faz por mal, mas... às vezes eu também não sei o que fazer.

Acordo do pesadelo da discussão de relacionamento e a encaro com sinceridade. Não há mulher mais bonita. Elogios não ganharão seu coração novamente. Sem mais defesas, faço um pedido final.

— Pelo menos um beijo de despedida? Sou viciado em seu gosto...

— Quem sabe outro dia... Vai Hank, não faça um drama sobre isso.

Caminho suando sob o sol de meio dia. A porta se fechara atrás de mim. Desgostoso, pego o ônibus no ponto da marginal sem nem dar boa tarde ao cobrador. As pessoas tem um semblante cinza e sem vida. Nem mesmo as belas moças que me acompanham no bólido me fazem esquecer de Lee. No ponto final, desço e quase dou de cara com o asfalto tropeçando no último degrau. Dona Fátima, minha vizinha desde que eu me entendo por gente, me salva.

— Calma meu filho. O que aconteceu?

— Coisas da vida tia... Tá foda enfrentar a realidade. Os poderosos são sempre mais sagazes e cruéis que um pobre escritor de coração partido.

— Quer ir lá em casa tomar um café? Não fica jururu assim não. Tudo passa, to fazendo um bolo de cenoura com cobertura de chocolate...

— Obrigado, prefiro ir pra casa e escrever. Quem sabe mais tarde... Guarda um pedaço pra mim por favor.

— Vai com Deus. Qualquer coisa me liga ou chama no zap.

— Tudo bem.

Passo o resto do dia conjeturando formas de me redimir com Lee. A mulher não se dobra. Acho que a tenacidade e o caráter dela foi o que me fizeram perder a cabeça. A beleza e a sensualidade imanentes são indescritíveis em parcas palavras. Escuto um disco de jazz, faço almoço e leio algumas páginas de um livro sem sucesso. Era preciso resolver aquele trauma.

Com uma tela antiga que já fora usada, desenho seu rosto com giz. O resultado não me agrada. Planejo ligar para ela, mandar uma foto e pedir sua opinião, mas não tenho a coragem necessária. Ligo a televisão na hora do jornal e me deprimo. Se fosse possível torcer uma televisão, sairia sangue.

Fora o folhetim, o que é ofertado pela velha tela plana é apenas mais do mesmo: novelas, documentários, cultos evangélicos e saldões. Não existe um canal pornô público para o público adulto esquecer sua miséria diária. Reviso os artigos destinados à academia e, sem achar valor algum nos mesmos, dou o dia por encerrado.
Rodrigo Margini
Enviado por Rodrigo Margini em 02/12/2019
Código do texto: T6809090
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Sobre o autor
Rodrigo Margini
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 28 anos
180 textos (2391 leituras)
1 e-livros (11 leituras)
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Rodrigo Margini