Calados

Não canta porque não pode ou porque desistiu, mas o importante é esse calar, que ninguém sabe definir se é tristonho ou conformado, pior é quem olha ele lá parado, na parte de baixo, onde mais dá eco, e se ofende da presença despresente, como julgam todos, injusta palavra, mas a maioria é assim, assim segue a vida com barulhos desagradáveis a todo lugar, inclusive naquele, onde se multiplicam, daí todos se irritam exponencialmente, maldizendo ele, lá, no cantinho privilegiado para os cantores, calado sempre, Mas é para você cantar, pomba! Uma peste, literalmente, dessas se encrava aqui e não faz o mínimo! O que foi?! Tá sufocado? Te faço sufocar de verdade já, xá ir na cozinha... e assim segue ele, no silêncio enigmático, ouvindo tudo, falando nada, porque a cantoria é uma forma de dizer algo que seja, porém não exprime tristeza nem injúria, a vida só segue injusta e nada diz não sei porquê, mas já conjecturo o motivo: segue ali sozinho, sem capacidade maior de subir os degraus, onde acesso dão, ao chegar no céu, à casa de fato, a qual, semana passada mesmo, juro, vi sua imagem e semelhança, um pouco menor, com a mesma pele que lembra jiboia, e tão muda quanto; meu Pai... que insensibilidade, minha também, censuro minhas lágrimas, talvez, em chorar por tamanha crueldade, vivem eles separados, razão maior para o lamento, que rima com silêncio, há?

Rodrigo Hontojita
Enviado por Rodrigo Hontojita em 15/12/2021
Código do texto: T7408199
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