LOUCURA SAUDÁVEL

Todos conheciam aquele homem calmo, de palavras serenas e amigo de todos. Como costumavam dizer por ali, uma pessoa do bem.

Estranhamente seu comportamento e suas atitudes nos últimos dias tem chamado à atenção das pessoas e sido motivo de comentários a seu respeito.

---- Tudo bem Anísio, como tem passado? Perguntou um amigo.

Anísio, com um aceno de mão, respondeu que estava tudo bem.

Ninguém entendia suas atitudes. Ele que costumava parar as pessoas na rua, cumprimenta-los com um forte aperto de mão e sempre tomava iniciativa pra longas conversas. Agora já quase não falava nada.

Na frente do hospital algumas pessoas conversavam, outras sentadas na emergência esperavam pelo médico. Anísio com a camisa aberta ao peito – já não usava todos os botões da camisa - chegou e entrou sem pedir licença. No centro da sala de espera, quase que gritando, perguntou: Tem médico de plantão aqui?

Uma enfermeira aproximou-se dele e disse-lhe algumas palavras baixinho. Anísio olhou pra todos os presentes e se retirou.

Agora caminhava apressado pelas ruas recolhendo sacos de salgadinhos, sacolas plásticas e outros objetos jogados peloo meio fio. Juntava tudo, fazia tipo um pacote e esperava encontrar o primeiro tambor de lixo e deixava tudo lá. E os comentários a seu respeito cada vez mais eloquentes.

---- Enlouqueceu. Precisa de internação. Tadinho, era uma pessoa tão boa...

Anísio ainda passou pela praça central da cidade e viu uma torneira aberta derramando água pela calçada. Ajoelhou-se próximo a torneiro, lavou as mãos e o rosto e fechou-a. Olhou em direção ao lindo pôr-do-sol e seguiu pra casa.

No outro lado da rua, dois amigos seus observaram toda a cena e um deles comentou:

---- É preciso mesmo que exista um louco em cada rua para chamar o povo à atenção.

Henrique Rodrigues Inhuma PI
Enviado por Henrique Rodrigues Inhuma PI em 21/04/2020
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