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Que saibamos ser, de fato, apóstolos de Deus.
 
Queridos irmãos e irmãs, que a divina paz esteja sempre com vocês!

Já vimos que o trecho evangélico de Mateus compreendido entre o versículo 36 do nono capítulo até o primeiro versículo do capítulo 11 é considerado como o “discurso da missão”, ou seja, um “manual missionário” apresentado a todas as pessoas de todas as épocas que se propõem a ir além do discipulado divino, com vistas ao anúncio da presença do Reino de Deus em nosso meio, associado à corresponsabilidade de sua contínua construção cotidiana.

Neste décimo terceiro domingo do Tempo Comum, de acordo com o calendário litúrgico do cristianismo ocidental (28/6/2020), continuamos com às reflexões a respeito do trecho evangélico narrado por Mateus que se refere à missão de cada um, como vimos acima, que vai além do mero aprendizado, tendo em vista, independente da tradição religiosa que seguimos, ou qualquer outra característica individual que nos distinga, sermos, todos nós, enviados apostolicamente para, inicialmente, construirmos o “Reino” em nosso interior e, como consequência, anunciá-lo ao mundo por meio de nosso testemunho, em decorrência do extravasamento de suas verdades de dentro de nós aos seres que nos rodeiam. Todos nós somos convidados para essa missão que busca a transformação de vida de todos os envolvidos por meio da contínua evolução espiritual.

Dessa forma, após a leitura do trecho evangélico de hoje,
convido todas e todos vocês a refletirmos juntos sobre tal convite e a forma que a ele respondemos o qual, de alguma forma, é destinada a todos os seres.
 
Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim não é digno de mim. Quem não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim. Aquele que tentar salvar a sua vida irá perdê-la. Aquele que a perder, por minha causa, irá reencontrá-la. Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe recebe aquele que me enviou. Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de justo, receberá uma recompensa de justo. Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa. (Mt 10,37-42)
 
É importante termos sempre em mente que ser discípulo do Altíssimo não se refere apenas a um aprendizado específico, estático e passivo, voltado ao acúmulo de conhecimento pessoal sobre adequadas condutas e verdades transcendentais. Tal discipulado está ligado à opção de vida e envolve, acima de tudo, ações cotidianas. É nesse contexto que somos levados à utilização da lógica do apostolado, indo muito além do mero aprendizado discipular.
 
Mais uma vez, somos chamados à reflexão de nosso papel apostólico no que concerne às verdades divinas, requerendo o adequado e concreto aprendizado das mesmas (discipulado), em uma evolução espiritual contínua, para que elas sejam vivenciadas e transmitidas por meio de nossas ações. O testemunho de uma vida amorosa, compassiva, pacífica e harmoniosa com os seres leva a um processo construtivo permanente do Reino de Deus em nosso meio. Pouca valia têm belos discursos, estudos com ricos conteúdos, longas e empolgantes orações e comoventes celebrações, se não vivenciarmos, a cada dia, tais verdades no nosso relacionamento com as pessoas que nos cercam. O problema é que, também de forma ilusória, acreditamos em nossas próprias forças e na nossa capacidade humana para o efetivo crescimento espiritual, bem como para a concretude do testemunho apostólico que somos convidados a realizar. Nossa condição humana é limitada e insuficiente para garantir nossa evolução espiritual, razão precípua de nossa encarnação. Lembremo-nos da fala de Paulo aos coríntios, ao destacar a mensagem recebida de Deus em oração: “Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força”. Assim, continua a afirmar: “Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo” (2Cor 12,9).

Somos envolvidos de forma ilusória pelo que há neste mundo, levando-nos ao apego, em uma cresça ilógica de sua eterna permanência. Eis a grande distinção entre desejo/amor e apego. O desejo e o amor relacionam-se às nossas ligações sentimentais e sensoriais com pessoas e coisas, alegrando-nos com sua proximidade e a felicidade dos seres amados. Qual o problema de desejarmos um alimento de nossa preferência, de optarmos por usar uma determinada vestimenta ou de assistirmos uma filme específico? Que mal tem amarmos as pessoas de nossa família, desejando sua plena felicidade? No entanto, normalmente vamos além, mesmo que de forma inconsciente, e somos levados pelo desejo de possuir tais objetos e até mesmo as pessoas que acreditamos amar, nutrindo o apego que em nós existe, tão peculiar nos seres humanos. Pode-se dizer, então, que o apego é a tentativa de aprisionamento do objeto desejado, da pessoa amada, ou da situação prazerosamente vivida, o que, independente de nossa consciência, é algo impossível, ilusório, pois tudo passa, tudo muda, tudo acaba. O apego que nutrimos em nosso viver acaba nos levando à infelicidade, à insatisfatoriedade permanente, obstaculizando nosso crescimento espiritual e, consequentemente, as nossas ações apostólicas relacionadas às verdades divinas. Não é sem razão que algumas tradições religiosas orientais têm como principal sustentáculo o necessário desapego das coisas, situações e afetos relacionados a este mundo em que vivemos. Isso não quer dizer que devamos, necessariamente, deixar de desejar as alegres e agradáveis situações, tampouco os sentimentos humanos, mas sim impedir que eles nos possuam.

Eis o caminho inicial para a compreensão da fala de Jesus no trecho evangélico de hoje, voltada não apenas aos seus diretos seguidores, aos seus discípulos mais próximos, mas sim a todas as pessoas de sua época e de todos os tempos. Ele aponta para a imprescindível opção que devemos fazer com vistas à centralidade de Deus em nossa vida, caso desejemos, de fato, caminhar ao seu lado em busca de nossa plena realização e do cumprimento de nosso papel apostólico neste mundo.

Cabe a ressalva das distintas visões e narrativas dos evangelistas sobre o mesmo assunto, o que não quer dizer pensamentos diferentes, apenas formas díspares de apresentar o mesmo ensinamento. Diferente do mesmo trecho narrado por Lucas, onde aponta a necessidade de odiar o próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida para que seja possível ser discípulo de Jesus, Mateus nos apresenta uma fala mais amena e contextualizada, isto é, o estabelecimento de prioridades na vida das pessoas. Lembremo-nos sempre que Jesus nos traz a amorosidade entre os seres como ponto básico do relacionamento humano, mas sua fala de hoje aponta, não para o sentimento que se contrapõe ao amor, mas sim ao apego entre as pessoas e a priorização de tais relacionamentos quando embasadas em princípios humanos, em detrimento do nosso vínculo com Deus.

Não nos esqueçamos que em outra parte evangélica o mesmo Jesus, respondendo à pergunta de qual seria o principal mandamento, refere-se ao amor a Deus sobre todas as coisas, seguido pelo amor ao demais seres. Traz-nos o ensinamento sobre o amor entre as pessoas que, necessariamente, deve ser precedido pelo amor à Deus, pois o sentimento amoroso não está no objeto amado, mas sim no interior de cada um, radical divino em nossa existência, que é estimulado e nutrido na nossa relação com a pessoa amada. Ela tem o mérito de propiciar o encontro de tal divino sentimento em nosso interior e mantê-lo vivo e presente em nosso meio. Quando amamos alguém, exercitamos o amor implantado em nós por Deus, permitindo que ele seja extravasado para outras pessoas e, de uma forma geral, que “irrigue” o solo mundano, possibilitando o crescimento do amor universal, imprescindível para a existência do “Reino” em nossa existência.

Podemos perceber, então, que a fala de Jesus nos evidencia a impossibilidade de cumprirmos adequadamente nossas relações amorosas, quer seja com os pais, os filhos, ou demais pessoas amadas sem que tenhamos a correta percepção do dom do amor, dádiva divina à humanidade. Tenhamos cuidado com a lógica do apego às pessoas amadas, mais difícil de ser percebida do que aquele relacionado às coisas materiais e muito mais difícil de ser trabalhada, pois frequentemente confundimos amor com apego.

Pelo texto ora em tela, Jesus apresenta-nos três exigências para que sigamos o “caminho do apostolado”.

A primeira delas refere-se ao nosso relacionamento com as pessoas que amamos (v. 37), dando primazia à nossa evolução espiritual, às bases divinas que devem sustentar nossas ações diárias. Assim, as relações amorosas, por mais importantes que sejam em nossa vida, não devem obstaculizar a nossa adesão ao “Reino” e, mesmo elas, devem ser esvaziadas de egoísmo, de interesses pessoais, sustentando-se no verdadeiro amor essencial.

A segunda requer a renúncia da própria vida (vv. 38-39). Não é permitido ao apóstolo de Deus, aquele que opta por seguir os passos da fraternidade, da paz, da harmonia e do servir sem intencionalidade, viver de forma egoísta, priorizando os seus interesses pessoais, colocando em primeiro plano o que lhe atrai e lhe dá aparente felicidade. O conforto material, os temporários prazeres deste mundo e os relacionamentos obsessivos, quando não evidenciados claramente como ilusórios, dificultam, sobremaneira, nossa evolução espiritual, pois funcionam como âncoras de fixação neste mundo, prendendo-nos exclusivamente à matéria de forma poderosa.

Já a terceira está ligada ao nosso relacionamento com o próximo (vv. 40-42), requerendo que coloquemos a nossa própria existência ao serviço da construção do “Reino” ainda neste mundo, fazendo da vida um dom de amor e compaixão com os irmãos. Aponta-nos Jesus nesse trecho a importância de encontrarmos no outro a essência divina igualmente existente em nós, ou seja, Deus está igualmente presente em todos os seres, o que jamais devemos nos esquecer ao nos relacionarmos com quem quer que seja: familiares, pessoas que amamos, amigos, desconhecidos e até mesmo nosso desafetos. É fácil, por exemplo, amarmos piedosamente uma pessoa agredida, mas, normalmente, odiamos o agressor! Lembremo-nos que Deus também está nele, mesmo que ainda não o tenha encontrado.

Não podemos nos esquecer que, para sermos apóstolos do divino temos de “carregar nossa cruz”, jamais reduzindo o seu verdadeiro significado a momentos pontuais, limitando-nos a pequenas renúncias, privando-nos de satisfações ou prazeres momentâneas, em que pese o respeito que temos a tais opções. Os sacrifícios pontuais (sacrifício = sagrado ofício), mesmo que louváveis, não podemos representar a “cruz” de cada um. Recordemo-nos da vida de Jesus que nunca foi um exemplo de ascetismo ou de alguém em constante busca de mortificações, mas sim de desapego e partilha, de amor compassivo para com todos os seres, acolhendo-os e, com eles, comungando o que tinha. Assim, quando ele fala de assumirmos nossa cruz, não está nos chamando para uma “vida mortificada”, ou uma existência com a permanente  busca de sofrimentos, apenas que aceitemos as adversidades do dia-a-dia, enfrentando-as com entrega, com retidão, com amor e, acima de tudo, com a confiança do aprendizado possível diante de tais dificuldades. Tudo acontece para o nosso aprendizado e crescimento, tudo deve ser abraçado como oportunidade de evolução espiritual.

Um fraterno abraço e fiquem na paz!
 
Milton Menezes
Enviado por Milton Menezes em 29/06/2020
Código do texto: T6991252
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Sobre o autor
Milton Menezes
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