Amor – a mais eficaz arma contra a violência
 
Caras amigas, caros amigos, que a paz do Altíssimo esteja com todos vocês!

Sem dúvida alguma, os ensinamentos de Jesus em seu Sermão da Montanha é uma das principais partes do evangelho, podendo se dizer que é um verdadeiro resumo deste. Várias tradições religiosas, direta ou indiretamente, fazem referência a ele e algumas chegam a dar a sua interpretação própria ao grande conjunto de ensinamentos existentes nesse sermão.

Vamos nos ater, em nossa reflexão de hoje, ao trecho em que Jesus aponta o amor como o grade remédio, aquele que é capaz de combater o mal, o ódio e a violência entre os seres.

Vejamos o trecho bíblico sobre o qual refletiremos:

Ouvistes o que foi dito aos antigos: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Dá-a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado. Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste. (Mt 5:38-48)

A bondade que conhecemos, decorrente de nossa condição humana, limita-se às ações amorosas a quem nos é caro e, quando muito, ao nos reconhecermos como muito caridosos, direcionamo-nos compassivamente àqueles que nos são neutros, ou seja, aos necessitados desconhecidos. Tais atos vem sendo apontados como importantes práticas de civilidade desde os tempos antigos, inclusive defendidos pelos homens da Lei, na época de Jesus.

Entretanto, a nossa condição humana nos diz que ao termos algum contratempo com alguém, caso sejamos agredidos de alguma forma, devemos reagir à altura, pois o nosso amor próprio nos leva a amarmo-nos acima de qualquer coisa e agir, no que for necessário, para nos defender de agressões alheias. Até a lei nos protege se empregarmos atos mais violentos, como a retirada da vida de outro, no caso de legítima defesa – matá-lo antes que ele nos mate. Pois bem, tais princípios de civilidade regem as relações entre os seres, num equilíbrio harmônico de forças para a manutenção da “paz” entre as pessoas.

Eis a “loucura” aparente dos ensinamentos de Jesus. Não basta apenas agir dentro dos princípios morais e legais na relação com o outro, não basta, somente, atos caridosos com as pessoas queridas ou mesmo com as desconhecidas, faz-se necessário ir além. Além do socialmente prescrito, do humanamente esperado, do legalmente estabelecido, além da justiça harmônica dos homens. Deve-se chegar ao “absurdo” de amar os inimigos, de compreende-los e orar por eles, de não reagir às agressões recebidas, físicas ou verbais, como disse Jesus, de não se opor ao mal, revidando-o com a forca do mal.

É claro que não devemos ver a imagem de “dar a outra face” como uma determinação literal, pois muitos que assim o fazem chegam a ironizar tal ensinamento. A sua lógica está ligada a não violência recíproca, a não revidar a qualquer tipo de agressão, a não lidarmos de forma violenta com a violência. Atear foco, por mais intenso que seja, à madeira que já está em chamas, somente aumentará o fogo já existente. Retribuir com ódio, mesmo que em defesa própria, ao ódio recebido, somente intensificará o ódio recíproco existente. E é essa a lógica de Jesus em seu sermão do amor.

Como disse o escritor Augusto Cury, dar a outra face é um símbolo de maturidade e força interior, não se referindo, obviamente, à face física, mas à psíquica. Tal imagem está ligada a procurar fazer o bem a quem nos decepciona, a quem nos agride, é o estímulo para elogiarmos a quem nos difama, a sermos gentis com quem nos aborrece. Exorta-nos a, silenciosamente, abandonarmos o “campo de batalhada” estabelecido por aqueles que nos agridem.

Fugir das contendas, evitar a discórdia, não acolher as agressões, são atitudes “insanas” aos olhos sociais, mas são básicas para quem busca seguir as palavras do Mestre. E mais, amar a quem lhe agride. Não um amor superficial, obrigatório pelo cumprimento das orientações (obrigações) religiosas, mas como fruto da sincera e madura compreensão das limitações do outro que o impossibilita de agir de forma diferente.

Pode-se até dizer que é impossível agirmos dessa forma em nosso cotidiano, e o é, se dependermos somente de nossa vontade, de nossa condição humana, tão limitadas quanto às do nosso agressor. Em nada há de diferente entre os seres, tanto na limitada condição humana, quanto na infinita capacidade de perdoar e amar, decorrente da essência divina existente em todos. A grande diferença está na opção que fazem, na escolha entre a força raivosa humana e a luz compassiva divina, entre a justiça dos homens e a harmonia amorosa de Deus. Dessa escolha é que resulta as ações socialmente aceitas, de acordo com a justiça dos homens, ou as ações aparentemente insanas, que chegam à acolhida dos que nos agridem, à retribuição do amor ao ódio recebido.

Queridas amigas, queridos amigos, chego a sentir vergonha quando leio a passagem em questão. Vamos ler novamente: “Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.” Quem somos nós para julgarmos nossos semelhantes? Quem somos nós para retribuir uma agressão recebida, com a justificativa de um revide cabido e necessário?

Há pouco tempo, tive a oportunidade de refletir sobre o perigo de nos julgarmos essencialmente pecadores e indignos, sendo merecedores de condenações e castigos. Somos limitados, sim, mas essencialmente divinos. Somos à imagem e semelhança de um Deus infinitamente misericordioso, amor em essência, e igualmente temos a possibilidade de ser, basta rompermos os nossos limites, as nossas amarras, os nossos grilhões que nos prendem à pequenez da condição humana, com vistas a permitirmos ser conduzidos pelo Espírito que em nós habita e está sempre pronto a nos guiar. Todos merecemos o “sol e a chuva”, independentemente de como somos, pois o que normalmente aparentamos ser, não representa o que de fato somos, o que deixamos transparecer por intermédio de nossas atitudes, em grande parte das vezes, nada significa a nossa verdadeira essência. Se eu sou bom, em essência, meu agressor também é. Se eu mereço o “sol e a chuva”, o meu agressor também merece. Se no momento em que ele me agride, ele age em confronto às leis universais da harmonia entre os seres, certamente, agimos igualmente em outras ocasiões, e nem por isso, deixamos de ter nossa amorosa semente em condições de germinar, gerando a frondosa árvore da compaixão.

O trecho escolhido para nossa reflexão finda-se com a exortação de Jesus para que sejamos perfeitos como o nosso Pai celeste o é, vindo, com isso, o grande questionamento: Como? Não seria um absurdo pensarmos em perfeição, sendo humanos limitados, falíveis e aparentemente imperfeitos?

De fato, jamais o seríamos se apenas assim desejássemos. Em tempo algum conseguiríamos a perfeição divina de dependêssemos, somente, de nosso eu pobre e egoísta. Impossível seria a possibilidade de atingirmos perfeição no estado humano, baseando-nos em nosso ego. Seria, então, uma falácia de Jesus, ou apenas uma retórica, para nos estimular a avançar, o máximo possível, dentro de nossas limitações? Creio que não!

Acredito na possibilidade da divinização do ser humano, na sua transformação em perfeita condição divina, pois não creio que o Absoluto jamais criaria um ser imperfeito somente por capricho ou desejo de menor valia pelos seres humanos. Somos perfeitos, em potencial; somos divinos, em potencial.

Quando somos induzidos a sermos perfeitos assim como nosso Pai celeste o é, creio que estamos sendo convidados para nos conhecermos, verdadeiramente, para “entrarmos” em nós mesmos e encontrarmos a nossa real essência, a nossa raiz divina, para que, ao encontrá-la, possamos resgatar tal condição, a nossa condição divina e perfeita. Estamos falando de espírito, não de carne; de essência, não do físico, pois o físico é imperfeito, limitado e finito, mas a essência é perfeita, infinita e divina.

Busquemos o nosso verdadeiro “eu” e passemos, gradativamente, a olhar para os demais seres como tão divinos e perfeitos como potencialmente somos. Assim, a compaixão é imediata e não produzida; o amor entre as pessoas brota-se de nosso interior, não sendo artificialmente ou forçosamente construído.

Os seres humanos, quando guiados pelo bem essencial, são capazes de fazer o extraordinário, o considerado impossível: eles perdoam sem nada em troca, doam-se ilimitadamente, amam seus inimigos, oram pelos que os perseguem, desejam o bem a quem os agridem, e, acima de tudo, amam a todos, indiscriminadamente, inclusive aqueles que não demonstram amor por quem quer que seja, aqueles que, pelo menos aparentemente, desconhecem o sentimento do amor.

Jesus aponta-nos para o que é aparentemente impossível, para irmos além, superando a justiça dos fariseus, deixando que o amor divino, existente em cada um de nós, expanda-se, e por intermédio dele, consigamos formar uma grande teia de harmonia e compaixão entre os seres.
 
Que todas e todos vocês fiquem em paz!
Milton Menezes
Enviado por Milton Menezes em 02/03/2014
Código do texto: T4712667
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