A quem muito foi dado, muito será pedido.

No tempo da pregação pública de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Verbo de Deus vivo, que se encarnou através da santa Virgem Maria, sucedeu esta mensagem:

Ficai certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que arrombasse a sua casa. Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes. Então Pedro disse: Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos? E o Senhor respondeu: Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor vai colocar à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa? Feliz o empregado que o patrão, ao chegar, encontrar agindo assim! Em verdade eu vos digo: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. Porém, se aquele empregado pensar: Meu patrão está demorando, e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista, ele o partirá ao meio e o fará participar do destino dos infiéis. Aquele empregado que, conhecendo a vontade do senhor, nada preparou, nem agiu conforme a sua vontade, será chicoteado muitas vezes. Porém, o empregado que não conhecia essa vontade e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido! (Lc 12, 39-48)
 
Amadas irmãs, amados irmãos, muitos, ao lerem esta passagem do Evangelho, a interpretam na relação direta de seus bens materiais, ou seja, aos ricos, economicamente falando, muito será exigido, com doações e desprendimento, e aos pobres, como pouco dinheiro ou patrimônio têm, pouco será cobrado.

Ledo engano, ao nos limitamos a essa pobre reflexão!

É incrível como o ser humano, quando se refere à riqueza e à pobreza, somente aborda as questões materiais.

De fato, quando Nosso Senhor Jesus Cristo diz que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt 19,24), refere-se ao apego crescente que acontece com os homens e mulheres na proporção direta de seus bens materiais. Porém, a riqueza nociva, destruidora, não está ligada ao mero ter, está ligada ao apego com o que se tem, à dificuldade de compartilhar o que possui, a limitação de sair do conforto e ir ao encontro com o irmão necessitado, está ligada a dificuldade em receber ou até mesmo em identificar o próximo, como tão claramente Jesus nos explica por meio da parábola do samaritano, ao ser questionado por um doutor da Lei: “E quem é o meu próximo?”. (Lc 10,29)

Todos somos ricos e pobres.

Somos ricos na medida que somos filhos de Deus e, pelo Espírito Santo, somos inundados, cabendo a nós, apenas, perceber a sua divina presença e deixar que Ele conduza nossa vida, atitude essa que nos é tão difícil, e tão peculiar aos seres humanos por sua limitada natureza. Somos ricos porque sempre temos algo para oferecer ao irmão próximo, seja em matéria, em palavra, em conforto, em acolhida, em atenção. Somos ricos porque somos amados por Deus e seu amor, ao preencher-nos, transcende-nos, fazendo-nos plenos de graça e ricos de amor divino, podendo ser compartilhado com nossos irmãos.

Porém, ao mesmo tempo, a nossa limitação, a nossa dificuldade de perceber a presença viva de Cristo Jesus em nossa vida, em nós mesmos e em cada irmão que temos contato, faz-nos pobres, verdadeiramente miseráveis!

Na passagem da Sagrada Escritura, quando Jesus refere-se àqueles a quem muito é dado, está referindo-se muito mais às oportunidades que cada um tem de fazer o bem, do que aos bens que cada um possa vir a ter.

Temos, cotidianamente, a oportunidade de ajudarmos o próximo, de acolhe-lo, de compartilhar com ele o que temos e o que somos, com toda nossa riqueza espiritual que é, sempre, infinitamente maior que qualquer riqueza material. Por que não a compartilhamos com nossos irmãos?

Precisamos ver a chegada do Filho do Homem, não como um acontecimento finalístico, como um fato que ocorrerá em um instante futuro e único, numa hora em que menos esperamos, mas sim, a cada momento que chega até nós o próximo. Cristo Jesus está vivo no próximo, assim como em nós mesmos. O contado com o irmão é o contado direto com Jesus e deve ser visto como a própria chegada do Filho do Homem em nossa vida.

A limitação da riqueza ao bem material, a limitação da doação às coisas mundanas, a limitação do próximo àqueles fisicamente presentes ao nosso redor, faz-nos cada fez mais pobres e miseráveis, limitando-nos na capacidade de doar, de compartilhar, de nos enriquecer.

Reflitamos, minhas irmãs e meus irmãos, sobre a mensagem evangélica de hoje, não com os olhos humanos, mas com os olhos da fé, não na limitada visualização do mundo, mas com o coração repleto do Espírito de Deus, que já está presente em cada um, basta que o permitamos agir e conduzir nossa vida no caminho certo, em direção ao encontro com Deus, não apenas em um dia chamado de “final”, mas a cada momento de nossa vida.

Deixemos que o Espírito nos permita encontrar com Deus a cada encontro com o próximo?

Fiquem com Deus!
Milton Menezes
Enviado por Milton Menezes em 24/10/2012
Código do texto: T3949343
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