O ceifador de sonhos

JORNAL “O IMPARCIAL – ARARAQUARA/SP”

COLUNA “O CONTADOR DE HISTÓRIAS”

COLUNA 8 (TEXTO 3 JANEIRO DE 2005)

LEONARDO DANIEL RIBEIRO BORGES

O ceifador de sonhos

Saudações a todos! Sejam bem vindos a mais uma coluna “O contador de histórias” para quem está chegando pela primeira vez, meu nome é Leonardo e escrevo sobre a arte de se contar histórias, hoje contarei uma história imaginada por mim e existente de forma latente no fundo anímico de indivíduos que ainda ousam sonhar, essa história é portanto inventada, porém como já vimos em outros artigos é fundamentada com dados da realidade, foi uma lembrança da infância que a trouxe novamente, então agora peço as musas que eu seja eloqüente e possa narrar do ponto de vista de quem pôde amar essas lembranças...

Era uma tarde de janeiro ainda era muito pequeno para ir à escola, ficava o tempo todo brincando, meus pensamentos voavam em sons levados pelo vento, não éramos ricos, a família era grande, grande também era a casa, com quartos, salas e a televisão em preto e branco, os sonhos eram coloridos e vivíamos os assistindo.

O tempo passava de forma mágica, as refeições que diziam que hora era, e assim o passar das horas era biológico e degustado com todo o cuidado de quem lancha as delícias da feitas pela mãe. O mais enigmático de tudo é que às vezes íamos, eu e meus irmãos, comprar pão, leite, doces, com a minha mãe, ou com uma irmã mais velha, a praça de onde eu morava era uma delícia de diversões e liberdade, ela se estendia por alguns quilômetros e separava os dois blocos de quadras, onde formava o conjunto Itatiaia, já era bom lanchar, e brincar então era melhor ainda.

Nessa praça, havia muitos brinquedos, quebra-cabeça, escorregador, balanço, plataformas com desafios variados, e brincar ali era me sentir feliz, me sentir querido e amado por minha família e pela humanidade, pois, sabia que eram os “homens adultos e desconhecidos” que tinham construído aquelas maravilhas, minha gratidão de criança era enorme. Um dia comecei a notar a falta de alguns brinquedos, não sabia se os tinham levado para consertar, pois alguns precisavam de reparos, ou se alguma outra coisa estava acontecendo. Em casa a notícia era terrível, na mesa do jantar meu pai falou que um ferreiro estava roubando os brinquedos para aproveitar o ferro...

Que crime brutal! Pensei com meu pequeno coração aflito, tínhamos que chamar a polícia... Os dias se passaram e os brinquedos iam acabando, os sonhos de criança estavam sendo ceifados pela cobiça e frieza humana.

Um dia o inusitado encontro ocorreu! Vimos o homem com suas ferramentas ceifando os sonhos! Ele era alto, meio gordo, branco, com um boné branco e vermelho e não se preocupava se estávamos o vendo ele simplesmente ceifava os brinquedos como quem corta o tronco de uma árvore morta, como quem abre espaço para o tráfego de pedestres.

Tive raiva! Vontade de gritar! Tentamos repreendê-lo, mas só conseguimos que ele adiasse sua destruição, já havia feito planos para todo aquele metal, valioso para um ferreiro e incalculável para uma criança, o sonho estava sendo apagado junto com as marcas do envelhecimento. Tivemos outras aventuras, mas aquela mácula se mantinha desde os anos 80 e se mantém até hoje na praça do conjunto Itatiaia em Goiânia, o que o ceifador levou foi mais do que essa história pôde contar...

O Brasil quer o desenvolvimento econômico, mas impede as crianças de sonhar, de brincar e sem isso não há ministro que resista ao fracasso na educação, não há presidente que por mais decente, possa lutar contra maldição de ceifar os sonhos dos pequenos, vamos plantar um jardim em cada praça, vamos enchê-la de brinquedos, que o parque infantil se multiplique por todo o Brasil!

Destruir uma praça é trocar a ágora da democracia por tiros e narcóticos que tanto matam e destroem vidas e esperanças. Conte esta história para seus queridos e descubram na sua magia outras formas de sentido...

Leonardo Daniel Ribeiro Borges*

leodanielrb@yahoo.com.br

Leonardo é poeta, professor, contador de histórias e escreve esta coluna para o nosso jornal.