O fio da história
A história é um tecido frágil, tecido com fios de suor, sangue e sonho. Um fio rompido pode desfiar séculos de luta, pode transformar memória em esquecimento, pode enterrar a liberdade sob escombros de ódio.
O que se julgou não foi o vidro estilhaçado, nem a estátua manchada de batom, nem a tela rasgada ou o relógio destruído. Isso tudo é poeira, resquício de algo muito maior. O que se julgou foi a tentativa de arrancar o fio da democracia, de puxá-lo com força para que o tecido se desfizesse, para que o chão sumisse sob nossos pés e só restasse o abismo.
Não foi um protesto. Foi um ensaio de trevas.
A turba que avançou com ódio nos olhos não queria apenas quebrar paredes e objetos. Queria quebrar a ordem, desmontar o tempo, apagar o passado para reescrevê-lo com outras mãos. O vidro que se partiu era só um reflexo daquilo que queriam partir dentro de cada um de nós: o direito de pensar, de discordar, de existir sem medo.
A mulher, com seu batom, não só rabiscava uma parede. Rabiscava um desejo de apagar vozes. A senhora, com sua escatológica afronta, gritava que a justiça deveria ser pisoteada. O homem que ergueu a lâmina contra a tela de Di Cavalcante não atacava uma obra de arte, mas o que a arte significa: liberdade, identidade, civilização. O que destruiu o relógio não apenas feriu um objeto antigo, mas um símbolo do tempo – um tempo que queriam reverter, empurrando-nos de volta às sombras.
E se tivessem vencido?
A história não seria mais nossa. Os livros seriam queimados, as canções silenciadas, os corpos enfileirados nos porões. As vozes dissonantes não teriam tribunal, não teriam recurso, não teriam sequer um nome. Apenas desapareceriam.
Por isso, não há relativização possível. Não há justificativa, não há comparação. Não foi uma pichação. Não foi um simples dia de fúria. Foi a manifestação de um desejo obscuro de sepultar a liberdade.
E para esse crime, a história já ensinou: não pode haver anistia.