O navio que nunca zarpou
Havia um navio ancorado no porto, imenso e belo, sonhando com o mar. Seu casco fora construído para desafiar as ondas, suas velas costuradas para dançar com o vento, seu leme preparado para encontrar novos horizontes. Mas ele hesitou.
Por medo das tempestades, nunca partiu. Por receio de se perder, permaneceu. Guardou dentro de si todos os destinos que poderia ter conhecido, todas as histórias que poderia ter vivido, todos os amores que poderia ter encontrado.
O tempo passou. O salitre corroeu sua madeira, o vento desgastou suas velas, e ele, que deveria ter sido um viajante, virou apenas uma lembrança estática na paisagem. Até que um dia, quando a maré subiu pela última vez, o navio afundou sem nunca ter partido.
Assim é quem cala o que deveria dizer, quem retém o amor que deveria entregar, quem teme os riscos e morre sem jamais ter zarpado. A vida, como o mar, pertence aos que navegam.