O último olhar
Dizem que quem parte sem olhar para trás é quem mais olhou antes de ir. E eu olhei. Olhei até as paredes contarem segredos que eu não queria saber. Olhei até os ventos soprados naquele espaço me dizerem que já não me pertenciam.
No começo, meus olhos procuravam razões para ficar. Vasculhei frestas, percorri memórias, tentei encontrar vestígios de que aquele lugar ainda poderia ser meu. Mas, aos poucos, o que vi não foram motivos para permanecer, e sim sinais gritantes de que já era hora de ir.
Eu vi o chão que antes me sustentava começar a trincar sob meus pés. Vi rostos familiares tornarem-se meras silhuetas distantes, e palavras que antes aqueciam meu coração tornarem-se frias como pedras no inverno.
E então, quando os olhos já estavam cansados de tanto ver, eu entendi. Não era que eu não pertencia mais ali. Era que talvez eu nunca tivesse pertencido.
Quando enfim atravessei aquela porta, muitos disseram que saí sem olhar para trás. Mal sabem que olhei tanto que aprendi cada detalhe. Olhei tanto que a despedida já havia acontecido muito antes dos meus passos tomarem outro rumo.
E hoje, quando alguém me pergunta se sinto falta, eu apenas sorrio. Porque quem vê de fora acha que eu fui embora de repente. Mas eu sei que, antes de partir, já tinha ido há muito tempo.