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Tique-taques

Sempre moramos bem próximo da casa de vovó. Ou próximos demais. E as comparações que se faziam, entre aquelas gerações que se interagiam, eram inescapáveis- e francamente, ai de nós, desfavoráveis.

Tomem-se aqueles dous despertadores de cabeceira oumesa, metálicos na cor, forma e estridência. Na certa haviam sido comprados juntos, ou em datas próximas. Circulares feito a face de u´a meia abóbora, duas campainhas no topo, movidos por acordoamento - que os fazia dar seus tique-taques por umas 46 horas, e da marca Invicta. Um consertador de despertadores, em suas horas vagas e malpagas, o João Banga, em mostra grátis de suas habilidades, lera JUVITA naquele mesmo mostrador.

E certamente que fora no nosso, enguiçado,e não no de vovó, semper invictus - além de limpinho e brilhante da silva. Mas que culpa tínhamos em gostar de manusear aquele intrincado aparelho que conosco vivia a fazer horas no seu tique-taque sonoro que quase dispensava a função despertadora das campainhas?

Papai é que não gostava nada daquelas brincadeiras mas não tinha muita alternativa para desviar a nossa  curiosidade. Dos brinquedos cansávamos-nos logo. E quem sabe estaria ali nas mãos de um traquinas da hora o objeto dum futuro relojoeiro? O maior desgosto de papai, contudo, era que apesar dabarulheira dos tique-taques, o seu sono era bem mais pesado. Mais pesado até do que a estridência indecente das campainhas quando soava a amarga hora.

Despertar em torno das cinco da madrugal escuridão para pegar serviço às seis, embora rotina, não era a mais cobiçada forma de se começar o dia. E no entanto, labutar era preciso - sem perder a hora, ou o siso.

 Daí foi que papai inventou forma engenhosa de unir o ruído da engenhoca,  à força de uma pororoca. Amarrou alguma fitinha no sonorizador daquelas campainhas de sorte que algum objeto logo se deslizaria pra cair,pesado, numa bacia, vazia, bem ao lado - da cama pradramatizar o drama.

Numa dessas, ou em várias, o próprio despertador levou tombo desesperador. Mas o Banga o recuperava a cada queda, ou a cada manuseio da macacada. Até chegar a sua hora marcada -bem antes do de vovó, que ainda tique-taqueia - para se transformar num monte de rodinhas dentadas, pinos, engrenagens, que ainda não soubemos juntar por absoluto respeito ao inefável Banga que, no céu,  com carta na manga, inda se zanga - quando não solta a franga.
Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 14/02/2015
Código do texto: T5137084
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Sobre o autor
Paulo Miranda
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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