Vovocabulário

E vovó Inhana, nascida lá nos Gaia, não teve escolaridade. E tampouco juventude. Foi casada aos 14 anos com um veterano e casadeiro seleiro, o Velusiano, que tivera a infelicidade de quatro viuvezes. E justamente, quando sobre Inhana pôs os olhos, na viuvez foi que viu vez.

Não precisou insistir muito para obter a aprovação à mão da menina, com o próprio pai, candidato a sogro, um tal Lourenço, língua-de-fogo. Para Lourenço, as filhas moças se estragavam se frequentassem a escola, pois aprenderiam a escrever cartas pros namorados.

E assim, sem escrever ou ler, tendo só o ventre a crescer, foi que vovó Inhana foi no matrimônio se meter. Seu aprendizado na cozinha foi facilitado por um tamburete que Velusiano lhe deu, que colado à beira do fogão lhe permitia alcançar, visualizar e mexer as panelas.

À noite eram as cadeiras que mexia. Teve onze filhos, dos quais sete chegaram à vida adulta. Seu contato com as letras foi como espiar desenhos minúsculos nos rótulos de embalagens, em que não conseguia por sentido. Mas gravou as cores da cédulas do cruzeiro antigo, reconhecendo-lhes o valor e a que correspondiam quando compras à porta apareciam, apeteciam e lhe alcançavam, do pão de cada dia, ao quiabo que em pratadas se vendia.

Enviuvada aos cinquenta anos, nunca sonhou ir à Turquia ou à Tailândia. Com os filhos empregados e solteiros ao seu derredor, investiu em saídas mais frequentes ao quintal para cuidar de suas galinhas, e à missa semanal pra treinar a alma no rumo celestial. Roupas graves, escuras, e o inefável piticó, compunham-lhe a figura. Piticó seria a forma aportuguesada do francês petit-coq?

Para açular o paladar, era pipoca que, ocasionamente se punha torrar, para a netaiada agradar. E nos advertia dizendo que piruá não se comia, ao estômago mal faria.

Não chegou a estrear o fogão a gás. As zelosas filhas tomaram-lhe essa dianteira. Mas não se desfez logo do fogão de lenha, que com a fuligem enchia o seu teto de picumãs.

Nos seus últimos anos, ainda passava a linha na agulha sem auxílio de óculos e, vez ou outra, ainda se valia da máquina de coser manual, que não era nenhuma Vigorelli, mas que lhe servira pra vestir tanta pele.

As raras folgas a que se permitia, na labuta de cada dia, sentava-se no banco da coberta da cisterna e contava uma ou outra travessura de seu tempo de criança que da memória não se esvai: pitar sem que soubesse o pai.

Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 20/02/2015
Reeditado em 24/01/2024
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