A CARRUAGEM DE ANA JANSEN
A CARRUAGEM DE ANA JANSEN** ( S Luiz- Maranhão)
Jorge Linhaça
Nas noites de lua cheia
Do cemitério do gavião
Parte a triste assombração
De Donana a danação
Por São Luiz serpenteia
Conta a lenda conhecida
Que Donana era cruel
Mais ruim que cascavel
Por isso fechou-se o céu
Pra sua alma ser punida
Se um escravo lhe fugisse
Saía na carruagem
E não havia paragem
Casa Grande ou estalagem
onde ela não bulisse
Não tinha dó nem piedade
Pra com o negro escapado
E logo que capturado
Sofria no tronco atado
De chicotes lacerado
E no cafundó* esquecido
Dizem, também, canoeiros
Que ao no Piranhenga passar
Os remoinhos a se formar
São dos que mandou afogar
O seu gesto derradeiro
Nas ruas de São Luiz
A carruagem o chão risca
Das pedras tira faíscas
E ninguém ali se arrisca
A encontrar a infeliz
Um escravo sem cabeça
E cavalos decapitados
O lamento de mil coitados
percorrem todos os lados
assim que a lua apareça
Se acaso algum vivente
Com Donana se encontrar
Dela terá de aceitar
Uma vela a queimar
Feita de sebo de gente
Mas o pior do assunto
É que quando raia o dia
Credo em Cruz! Ave Maria!
Se transforma por magia
Em um osso de defunto
Se uma mulher a vir
Um terço terá de rezar
Para espantar o azar
Não há que possa escapar
Só resta mesmo é fugir
Da presença de Donana
Todo mundo quer distância
Mija nas calças a criança
Valente corre de mudança
Fica longe uma semana.
****
Arandu, 8 de setembro de 2009
***
*cafundó (habitação miserável, quarto escuro sem a mínima higiene)
Contatos com o autor
anjo.loyro@gmail.com
***
Mid: retirantes- Dorival CaymiA CARRUAGEM DE ANA JANSEN** ( S Luiz- Maranhão)
Jorge Linhaça
Nas noites de lua cheia
Do cemitério do gavião
Parte a triste assombração
De Donana a danação
Por São Luiz serpenteia
Conta a lenda conhecida
Que Donana era cruel
Mais ruim que cascavel
Por isso fechou-se o céu
Pra sua alma ser punida
Se um escravo lhe fugisse
Saía na carruagem
E não havia paragem
Casa Grande ou estalagem
onde ela não bulisse
Não tinha dó nem piedade
Pra com o negro escapado
E logo que capturado
Sofria no tronco atado
De chicotes lacerado
E no cafundó* esquecido
Dizem, também, canoeiros
Que ao no Piranhenga passar
Os remoinhos a se formar
São dos que mandou afogar
O seu gesto derradeiro
Nas ruas de São Luiz
A carruagem o chão risca
Das pedras tira faíscas
E ninguém ali se arrisca
A encontrar a infeliz
Um escravo sem cabeça
E cavalos decapitados
O lamento de mil coitados
percorrem todos os lados
assim que a lua apareça
Se acaso algum vivente
Com Donana se encontrar
Dela terá de aceitar
Uma vela a queimar
Feita de sebo de gente
Mas o pior do assunto
É que quando raia o dia
Credo em Cruz! Ave Maria!
Se transforma por magia
Em um osso de defunto
Se uma mulher a vir
Um terço terá de rezar
Para espantar o azar
Não há que possa escapar
Só resta mesmo é fugir
Da presença de Donana
Todo mundo quer distância
Mija nas calças a criança
Valente corre de mudança
Fica longe uma semana.
****
Arandu, 8 de setembro de 2009
***
*cafundó (habitação miserável, quarto escuro sem a mínima higiene)
Contatos com o autor
anjo.loyro@gmail.com
***
****
** Quem foi Ana Jansen?
Embora descendente da nobreza européia, Ana Jansen tem uma juventude sofrida. Mãe solteira, luta para manter a mãe e o filho pequeno. Sua situação melhora aos poucos, depois que se torna amante do coronel Izidoro Rodrigues Pereira, o homem mais rico da província. Esse relacionamento escuso transforma Ana Jansen num alvo fácil para a sociedade moralista da época, personificada acima de tudo por sua maior inimiga: dona Rosalina Ribeiro.
Izidoro assume oficialmente a relação com Ana depois da morte de sua esposa, dona Vicência. O casal permanece junto por quinze anos até a morte de Izidoro, que deixa mais seis filhos para a heroína.
O principal motor psicológico da personagem Ana Jansen é o desejo de resgatar o nome e o prestígio de sua família, achincalhado depois da falência de seu avô, Cornélio Jansen Müller. Após a morte de Izidoro, Ana dá um largo passo em direção a este sonho, tornando-se rica, independente e poderosa. Ela assume a fazenda Santo Antônio, propriedade do falecido coronel e, logo, consegue triplicar a fortuna herdada.
Perseverante e ambiciosa, Ana transforma o dinheiro em poder, assumindo a liderança política da cidade e reativando o esfacelado partido liberal Bem-te-Vi.
Cada vez mais, Ana é mal falada pelas mulheres maranhenses e odiada pelos inimigos políticos (ressaltando-se sua rivalidade com o Comendador Meireles, líder do partido conservador). Mas seu temperamento forte e sua capacidade de liderança alcançam a corte de D. Pedro II e ela passa a ser chamada, informalmente, de “Rainha do Maranhão”.
Depois da morte de Izidoro, Ana se torna amante do Desembargador Francisco Vieira de Melo, com quem tem mais quatro filhos. Mais tarde, já aos sessenta anos, casa-se pela segunda vez com o comerciante paraense Antônio Xavier.
Depois de morta, Ana tem sua memória maculada pelos inimigos que a transformam em uma alma penada, em uma bruxa maldita que percorre as ruas de São Luís puxando um cortejo de escravos mutilados.