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O caipira e o executivo

Conta-se que Barnabé, um pacato caipira, e seu cão Buscapé viviam serenamente pastoreando seu rebanho de caprinos pelas pastagens ao pé das serras quartzíticas de Minas Gerais. Uma manhã de verão, sentado num cepo à sombra de uma árvore mascando um talo de capim, Barnabé percebe ao longe na estrada de terra um poeirão que se aproximava. Sem se mexer do lugar, com os olhos foi observando o poeirão aproximar-se. Era uma moderníssima e imponente camionete preta com frisos prateados, tração nas quatro rodas, pneus enormes, vidros escuros, uma antena estranha que não parecia ser de um rádio comum.

A camionete aproximou-se, parou poucos metros à frente de Barnabé, que impassível continuava a mascar seu talo. O motorista era uma figura incomum naquelas paragens: um homem de menos de trinta anos, camisa social branca de mangas curtas, relógio de pulso dourado, óculos de sol, cabelo bem aparado, impecavelmente barbeado, cheirando a loção importada, calças de linho marrom escuro, sapatos de verniz brilhante na mesma cor. E um crachá, que parecia totalmente desnecessário, enfiado no bolso da camisa e atado a uma fita negra que dava a volta pelo colarinho. Apeou da camionete com um tablet de última geração nas mãos, e dirigiu-se a Barnabé:

- Boa tarde, compadre!

- Boa tarde...

- Como vai seu rebanho? As cabras estão procriando como deveriam?

- Tão sim!

- Olhe, vou lhe fazer uma proposta. Se eu lhe disser em três minutos quantos animais existem em seu rebanho, posso levar um?

Barnabé franziu a testa, hesitou um pouco, mas respondeu:

- Uai, pode né...

O jovem executivo abriu o tablet, acessou um aplicativo conectado em tempo real a um satélite, obteve a imagem do rebanho ali à frente, utilizou outro aplicativo de classificação e, em menos de três minutos, encarou Barnabé com ar triunfante:

- São setecentos e trinta e oito animais.

- Óia que quase acerta, sô! Mas são setecentos e trinta e sete.

O executivo revê os cálculos no tablet, e insiste:

- Não! São setecentos e trinta e oito, com certeza. Vai ver nasceu algum esta noite, você ainda nem contou.

E, sob o boquiaberto olhar de Barnabé, o executivo pegou um animal e o colocou na caçamba da camionete. Nesse instante Barnabé o interpela:

- Moço, se eu disser sua profissão você devolve o meu bicho?

Desta vez foi o executivo que hesitou, mas concordou:

- Diga lá...

- Você é um consultor de uma empresa de consultoria internacional!

O executivo espantou-se:

- É bem isso mesmo! Mas como descobriu? Meu crachá está dentro do bolso...

- Fácil moço. Você aparece por aqui sem ser chamado. Me faz uma pergunta que eu já sei a resposta. E não entende nada do meu negócio. Me devolva aqui meu cachorro Buscapé!


Piada ouvida no meio acadêmico da USP em 2003.
Autor desconhecido
Enviado por Mário Sérgio de Melo em 28/08/2019
Reeditado em 29/08/2019
Código do texto: T6731550
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mário Sérgio de Melo
Ponta Grossa - Paraná - Brasil, 67 anos
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Mário Sérgio de Melo