-ENFERMEIRA,SOCORRO,ME TIRA DOS PROTOCOLOS!

Era um final de semana e ele, recém chegado duma viagem aérea e já na sétima década de vida, sentiu um mal estar na mama direita.

Algo estranho, não sabia referir muito bem o que sentia…

Ele ,sempre muito educado e todo protocolar, usava esse termo técnico: ”mama direita”.

Parecia sentir algo picando, que crescia bem grande naquela metade anterior do seu tórax.

“crescia e diminuía, diminuía e crescia…” assim relatava ele. Vez ou outra o mal estar ia para a as “costas”, bem daquele lado.

Pensou consigo: “mas, e os homê tem lá problema na mama…nessas alturas da vida e tão de repente?” "teria sido a friagem do avião?" "

Achou estranho, se preocupou, mas não ligou para o seu médico, dizia ele que não queria incomodar aos finas de semana, então, passou no pronto socorro mais perto e da sua confiança.

-Onde dói, seu `Zé? Como é a dor?

-É dor não doutor, parece um crescimento, à vezes pontada, picada, já tô bem inchado, veja aqui!

Mas o doutor, ali não tinha tempo para olhar, só estava atento aos protocolos de salvamento da vida…relatava seu Zé.

-Enfermeira, esse paciente está no protocolo de infarto do miocárdio. Rodar um eletro.

E lá foi seu Zé, de peito crescido e de “eletro normal” para todos os exames de protocolo de vida.

-E aí doutor, o que deu?

-Ainda não deu nada, seu Zé!

-Mas me dá uma olhada doutor, minha mama está muito inchada, enorme,olha isso!

E sem olhar, afinal o doutor era um “emergencista da vida”, e dos bons!-assim continuou nas perguntas cruciais cabíveis aos casos letais:

- O senhor viajou recentemente?

-Sim doutor, voltei hoje do nordeste, fiz trilhas nas matas de lá, depois só três horinhas de voo de volta, andei na aeronave, usei meias elásticas o tempo todo…

-Enfermeira, segue para o protocolo de embolia pulmonar!

-Mas doutor, pelo amor de Deus, meu problema é na mama inchada, que cresce, sinto que é por fora, não é no pulmão! Olha aqui, doutor, como está crescida!

Mas…não teve conversa, lá foi seu Zé para o devido protocolo de salvamento.

Prontos os exames bioquímicos e a tomografia helicoidal com CONTRASTE,ele logo perguntou:

-E aí doutor, o que deu?

-Ainda não deu nada, calma seu Zé. Vamos continuar a pesquisa.

Desesperado e assustado com essa coisa de tomar contraste, afinal o povo lá da rede fala tantas coisas sobre, seu Zé , nada calmo e já aos berros no PS, tomou uma decisão:

-Enfermeira, socorro! Me tira dos protocolos e só me olha aqui pelo amor de Deus, minha mama está picando muito, cresce e vai explodir!

A enfermeira, sempre calma e acolhedora, resolveu então dar uma olhadinha de soslaio, algo protocolar dos bons cuidados. Bem rapidinho, então levantou e baixou a camisa do seu Zé e de olho arregalado exclamou:

-Senhor José, mas isso é um baita dum HERPES ZOOSTER.

-O que é isso enfermeira, é muito grave, mata, pega nos outros?

-Senhor José, calma que o médico vai lhe explicar direitinho. Só sei que o povo chama isso de “cobreiro”.

Seu Zé, numa alegria incontida mas ainda preocupada, prontamente chamou o doutor em alto som e comemorou: ”doutor, já descobri o que tenho, acho que foi cobra na trilha que fiz, minha mama foi picada e está com cobreiro!

O médico (e o PS inteiro!), também assustado como os gritos, com o diagnóstico extasiante e com o tamanho da lesão que agora já se via abraçar o tórax do seu paciente, prontamente explicou o que era, lhe prescreveu o medicamento e as orientações…tudo isso depois daquele picante, brilhante, nada protocolar, mas bem preciso diagnóstico clínico.

-Doutor, então era isso, certo? Já posso ir embora, então?

-Não sei se era só isso, seu Zé. Vamos ver o que era. Enfermeira, por favor, sigamos nos demais protocolos…