ESCAPEI DA MORTE, POR SORTE ! . . .


Certa vez, estava no banco,
- fila do "atendimento preferencial" -
quando uma anciã, 
arrastando um ruidoso tamanco,
se pôs à minha frente justificando
que era mais velha do que eu. 

Acedi, sim, muito mais em respeito
aos seus repintados cabelos brancos,
mas não sem antes
lhe contar um sonho meu,
sonhado na noite que antecedeu:

"Sonhei, minha senhora, 
que estava numa fila,
na porta de um cemitério.
Aí, quando chegou a minha vez,
uma pessoa passou à minha frente,
apontando, com um pouco de rispidez,
pra sua data de nascimento
meio apagada,
num seu surrado batistério.

.  .  .
Felizmente, quando acordei,
senti que ainda estava vivo, talvez"...


Dito isto,
percebi o seu semblante,
bem diferente do de antes,
ora de desespero, ora compungitivo.
Parecia que ia desmaiar,
mas, na verdade, estava só tristonha,
por parecer que era a velhinha
do meu sonho.

Aí,
quando chegou o momento
em que ia ser atendida,
ela, que disse chamar-se dona Leonor,
logo deu um jeito:
"gentilmente",
mandou que eu passasse à sua frente,
reconhecendo que a vez era minha,
de fato e de direito. 

Também "gentilmente" e pra não entrar
no "cemitério" em seu lugar
(como no sonho),
saí da fila e fui lá para o final.
A vez continuava sendo dela!...
Esperar um pouquinho mais, 
sinceramente,
não me causaria nenhum mal.
Mas, ela ainda apela
e tenta trocar
o seu lugar com o do próximo cliente,
que não aceitou.

Nessa lenga-lenga,
os quase dez velhinhos da fila,
já sabedores da história,
recusaram-se também a avançar,
mesmo com o avanço da hora.

Como ninguém queria antecipar a morte
(mesmo em sonho),
cada um repetia, "gentilmente":
"a vez é sua, pode passar"...

E o outro respondia:
"não, não, esperarei um pouco mais"...
Nisso,
a fila começou a andar pra trás.
.  .  .
Por fim,
todos "morreram" de rir
quando eu lhes falei:

"O que mais atrapalha
a vida da gente é a morte
.
Até pra se morrer, hoje, tem fila.
Ser trocado de lugar,
na última hora,
pode ser uma questão de sorte
".
.  .  .
No dia seguinte, quando fui ao banco,
o Caixa me chamou:
"Sabe quem morreu ontem?"
Respondi que não sabia.
"Foi dona Leonor,
de um susto que aqui levou
".
.  .  .
Reagi como qualquer daqueles velhinhos
reagiria:
"AFI  MARIA !" . . .
COMO SAIR DESSA FILA?!...

.

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Para o texto: A cultura da fila (T5913908)
De: Damião Ramos Cavalcanti
Recantista e presidente da Academia Paraibana de Letras.

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Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 18/02/2017
Reeditado em 22/02/2017
Código do texto: T5916472
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