O "PASSA FORA DO "SÊO" EVANGILDO
O PASSA FORA DE “SÊO” EVANGILDO
“Seo” Evangildo era um homem decente.Trabalhador,bom chefe de família, meio turrão,mas,isto não é defeito e muito conservador.
O físico não o ajudava muito ,baixo,meio gordote , sempre de cara amarrada não fazia muitos amigos e nem influenciava pessoas.Era casado com D. Amélia simpática senhora,muito quieta e obediente,fazia jus ao nome que tinha.
No início do casório ,”Seo “ Evangildo cumpria seu papel de macho todas as quartas e sábados,mas,tudo feito sob lençóis com respeito e prudência,pois ,quem em sã consciência iria procurar sacanagem com a sagrada mãe de seus filhos,dois,neste caso?!
Com o passar do tempo reduziram de comum acordo esses deveres conjugais apenas para os sábados , antes do cineminha e depois da missa,como deve ser;e a vida andava no melhor dos mundos.
Mas,”Seu” Evangildo era macho e tinha suas necessidades que o levavam algumas vezes por semana a um inferninho onde podia bebericar um uísque , ver belas mulheres e se deixar levar pelo prazer da “terceira via” que ele tanto gostava.Tudo que seria impossível ter em casa.
Perto de fazer bodas de pérola – trinta anos de casado –o remorso começou a torturar “Seo” Evangildo.Afinal ,sua mulher,coitada de nada desconfiava,cuidava dele, dos filhos e do lar,sem nunca esboçar um sinal de cansaço.Depois do expediente no escritório ao chegar em casa mandou a mulher comprar uns trapos novos,ir ao cabeleleiro ,chamar Edilene,uma ótima manicure que atendia em casa e preparar-se para uma noitada de gala.Iriam ter uma noite diferente para comemorar os trinta anos de casamento.
A mulher quase não acreditava no que ouvia,pegou o touro nos chifres e foi se embelezar.Rumaram para um restaurante alinhado no Pelourinho,coisa pra turista endinheirado.O jantar foi bacana regado a champanhe e uísque importado.
-E,agora,o que você quer fazer?Hoje a noite é sua,disse ,gentilmente ,o marido.
Ela recusou as boites mais chics ,quem sabe ,por timidez até que passaram por um bate frege perto da Ladeira do Taboão,um desses lugares onde o diabo não entra com medo de ser assaltado.
A mulher olhou o gasto letreiro de neon e disse:
- Vamos dançar aqui?
- Aquiiii?!Mas,isto é um inferninho,querida.
-Tem nada não.Não estou com você?E,suspirando: -Sempre quis conhecer um lugar como este que vejo nas novelas...
Não adiantaram as considerações de Evangildo.A mulher argumentou que a noite era dela e era ali que queria dançar.
Desceram do táxi e na porta o “leão de chácara “ de dois metros de altura abriu um esgar que ele,modestamente,chamava de sorriso e falou:
- Boa noite,Dr. Evangildo.
Felizmente a mulher não ouviu,interessadíssima no cartaz que prometia os prazeres das mil e uma noites,mas,apenas oferecia as mil e uma moscas.
Lá dentro foi pior ;o mâitre abriu um largo sorriso e perguntou:
-A mesa de sempre,doutor? E,foi se encaminhando para uma mesa nos fundos,discreta e menos iluminada.
Evangildo parou nos peitos ,não se deu por rogado,crédulo na inexperiência da sua esposa;olhou discretamente para ela e não notou nenhuma perturbação.Respirou fundo,mas, lá dentro , um garçom solícito e cheio de trejeitos foi logo perguntando:
-A senhorita vai beber o quê?E,para o senhor,doutor,o mesmo uísque?
_Não,hoje vou querer um champanhe para dois.
_Perfeito,disse o garçom,mas,posso mandar vir o strogonoff ?
A esta altura,desolado e temendo o pior ,Evangildo parecia um condenado á morte.Apenas balançou a cabeça.
Sem fome e sentindo um frio desagradável na boca do estômago ,achou que nada podia piorar mais.Ledo engano!Logo chegou o pianista ,magro e verdinho como todo pianista de boite e perguntou “se o doutor não queria dançar um tango arrabalero com a bela moça novata?Depois disto só restava uma saída para um desolado Evangildo,a porta de saída do lugar que se transformara num holocausto.
Mas,a provação daquele marido que só queria acalmar a consciência e agradar a esposa ainda não havia acabado.
O porteiro,depois de mais um “boa noite,Doutor Evangildo, chamou um táxi que já estava parado a porta.Foram entrando no carro e o taxista,Cigano,com a delicadeza de quem sempre recebeu boas gorjetas,falou:
-Para a Rua Chile,doutor?
Ai, a senhora D. Amélia que parecia morta,ressuscitou,parecendo ter recebido um exu caveira:
- Moleque safado,vagabundo é assim que você se esforça fazendo hora extra,descarado? Responde,canalha!
“Seo” Evangildo quis recuperar a compostura quando o motorista que ainda não tinha andado cinquenta metros ,encostou o carro e bradou:
-Doutor,não se apoquente.o senhor querendo eu encho a cara desta puta de bolachas que ela logo vai se comportar.