PARA O MEU AMIGO... THIAGO CARMONA...!

Receba “isso” (como isso é singelo e despretensioso tratarei isso de “isso" mesmo) como uma homenagem e também como uma mensagem, pois as duas coisas se confundem em meu reconhecimento pelo seu talento autocrítico e verdadeiro divulgador do “humor negro”.

Você se intitula, sem demonstrar timidez, vergonha ou preconceito (e dá um tapa de luva nas fuças de muitos), de ter nascido, como é óbvio e ululante: Preto, Pobre, Feio, Nariz Achatado, Beiçola, Cabelo Ruim e outras “desvirtudes escondidas”... (Ah! se todos fossem brancos assim, quero dizer, francos assim... o mundo seria uma maravilha... viveríamos em Paz...).

Porém, preste atenção:

- “Ô Thiago, ... fala assim não”... nem fique triste não... eu mesmo conheço piores... ÉÉÉÉÉÉéééééé... e depois isso logo passa (se já não passou). Garanto que, em breve, com o sucesso que está fazendo, você vai se sentir: Branco, Rico, Bonito, Nariz Pontiagudo, Lábios Carnudos e Cabelo “Lizin-Lizin”... ÉÉÉÉÉÉéééééé... Até a brisa do ar-condicionado vai desmanchar seu penteado... você vai saber, pela primeira vez na vida, o que é sentir cócegas na testa... e como é: cabelo preso cair nos olhos... atrapalhar a visão... No seu show, em vez de “Mina, teu cabelo é da hora”... Vai começar com “Cabelo na testa, sou o dono da festa”... Mas se isso lhe perturbar... não ligue não... é só você dar um sopro pra cima, com seus "Lábios Carnudos”, que seus cabelos voltam para o lugar de onde nunca deveriam ter saído.

Isso porque, pelo que você confessa, vai ocorrer um fato triste em sua vida... Você estará separado de sua amada esposa... ÉÉÉÉÉÉéééééé... Caro Thiago... tudo tem seu preço... Queria o quê?... Ô branquelo...!?... Ela se casou com um Negão... Lembra?... Ela lhe chamava de Urubu, de Macaco... E agora você parece um Papagaio metido a Besta... Viu! Só mudaram os animais... a ofensa continua a mesma...! Você vai ficar deprimido por alguns dias, semanas... Chorando por alguns meses... talvez anos... Brincadeirinha...!...

Até parece que o dinheiro, a fama, as mulheres, as câmeras, os carrões, os iates, as noitadas vão conseguir mudar o seu interior... (eu não boto a minha mão no fogo) ... Quem nasceu com a índole de “ser humano” não vira bicho nem quando está perdido numa floresta sem água, sem comida, sem camisa, sem mulher, sem bússola, de cueca, suado, faminto, com sede, sono e cheio de picadas de mosquito... ÉÉÉÉÉÉéééééé... você vencerá o seu instinto, Animal...! Continuará sendo o mesmo... (Mané)...

Thiago, vou lhe contar um segredo (isso é verdade): durante muitos anos de minha adolescência, eu queria ser preto, negro, moreno, qualquer coisa “obscura”, menos branquelo... Sabe por quê?... Eu tinha uns amigos negros, mas para mim eles não eram negros... eu os via como: “possuidores de uma cor melhor do que a minha”. E sabe por quê?... Porque eles podiam ficar na praia depois do meio-dia... Eu, teimoso, também ficava, mas saía feito pimenta madura: vermelho e com o corpo ardendo.

Falando sério: você manipula e verbaliza seus dotes nativos de feiura (feiura agora não tem mais acento – ficou até mais bonitinha) com muita sutileza, inteligência, sagacidade e ironia... Claro, convenhamos que bem longe do fabuloso e loiríssimo Grande Otelo, que está se divertindo pacas e ficando vermelho (dentro do possível) com alguns de seus textos à la Dercy Gonçalves.

Mas agora, falando mais sério ainda: para você se afirmar, definitivamente, como um humorista perfeito, só falta uma coisa: você ser branco... Calma!... Não perca as esperanças...! Quem sabe?... Ainda dá tempo... pelo menos de... morrer branco... ÉÉÉÉÉÉéééééé.... Ah!... Cuidado com o seu médico.

Um forte abraço a todos os árduos humoristas da raça humana, que se empenham; juntam ideias, suplantam vaidades, sufocam emoções, esquartejam revoltas, esmagam sentimentos, suicidam paixões, escondem disfunções orgânicas, problemas financeiros, frustrações amorosas... sacrificam a própria família e batalham, seriamente, nas fabriquetas improvisadas de humor. Apesar de todo o esforço só conseguem arrancar alguns poucos risos retraídos das mal-humoradas marionetes, atarefadas nesse mundo injusto, preocupante e, realmente, quase sem graça.

Faço aqui, deliberadamente, apenas uma única e rara exceção entre esses exemplares ranzinzas – claro que me refiro ao entusiasmadíssimo e intrépido... internauta leitor. Isso mesmo: SORRIA, VOCÊ É UMA EXCEÇÃO.

Lembrem-se: nós pertencemos à mesma CAIXA e somos todos LÁPIS, independente da cor do grafite.