Na segunda metade do século passado, na cidade de Farias Brito, a obesa Maria do Piquiá mantinha um café bastante frequentado. Naquela época, no interior do Ceará, estabelecimentos como esse ofereciam aos clientes os serviços semelhantes aos das atuais lanchonetes. E o concorrido café servia os melhores bolos, pães-de-ló e doces da pequena cidade do cariri cearense.

     Tudo transcorria bem com o comércio, até que um dia Maria do Piquiá apresentou um quadro grave de doença e foi levada às pressas para um hospital do Crato. A cidade de Farias Brito ficou ansiosa por informações. Em menos de quarenta e oito horas chegou da cidade vizinha a notícia que muitos temiam. A dona do café morrera.

     As providências para o velório e o enterro foram rapidamente tomadas pelos amigos e fregueses da falecida. As coroas de flores e velas, encomendadas. As carpideiras, com véus e vestidos pretos, chegaram cedo à casa da comerciante para chorar sua morte e puxar rezas e cânticos. 


     Quando, no final da tarde, o carro trazendo o corpo chegou a Farias Brito já havia uma multidão em frente à casa de Maria do Piquiá. Em sinal de sentimento e pesar, os homens tiraram o chapéu de palha da cabeça para receber o defunto. A porta do veículo foi aberta e de dentro saiu uma gorda senhora. Espantada, a mulher não entendia a razão de tanta gente em frente à sua residência. O povo ali presente se surpreendeu mais ainda. O alvoroço foi grande. As crianças saíram correndo. No meio delas, uma pequena garota gritava repetidamente:


     - Maria do Piquiá enviviceu. Maria do Piquiá enviviceu...

 

Colaboração: Vilani Alencar
(imagem Google)