UM LUGAR IDEAL

UM REPÓRTER DE TELEVISÃO ESTÁ PESQUISANDO OPINIÃO

PÚBLICA NAS RUAS. OUÇAM A ENTREVISTA.

Ainda bem que o Brasil é um país democrático. O povo é livre. Não existem preconceitos de raça e nem de cor. E tudo vai muito bem. Querem ver ?

Vai passando uma mulher. Ele corre chamando-a.

- A senhora aí, por favor!

- Ih... lá vem outro chato me perguntar se eu vi a menina-fenônemo chorando no Sílvio Santos... Pois não, moço!

- Diga para o telespectador. A senhora tem algum preconceito de raça?

- Sim. Detesto cachorro!

- Algum preconceito de cor?

- Eu detesto o vermelho. Me decepcionei com...

- É livre a mulher brasileira?

- Eu, pelo menos, sou casada.

- Já sofreu alguma discriminação?

- Já. Não recebo mensalão. Nunca fui subornada! Nunca fui convidada pra festinhas em castelos, mansões, nem me convidaram para a “farra aérea”. Se quero viajar, pego um ônibus caindo aos pedaços, que sai daqui sacolejando a gente nessas estradas esburacadas...

- O que acha da situação atual?

- Boa. Muito boa! Eu moro bem... mal, ganho bem... mal. Como bem... pouco. O dinheiro corre solto para o bolso dos mesmos. Tudo bem!

- Acha que a inflação está sob controle?

- Inflação? Que é inflação? É algum ataque terrorista?

- E o problema da moradia...

- Graças a Deus, esse problema eu não tenho. O meu barracão tem exatamente 14,88m2 de área. Construído pela Prefeitura, com aquela verba que sobrou do...

- E a criminalidade? Os pivetes que assaltam...

- Graças a Deus, nunca fui assaltada! Quando vejo uns 187 pivetes vindo na minha direção, entro correndo na primeira loja que estiver aberta.

- Por que “a primeira loja que estiver aberta?”

- Porque muitas já foram fechadas. Dizem que a crise econômica deu o toque de recolher nas lojas.

- E as longas filas do SUS?

- Disse o “homem” que vai acabar com as filas. Ele prometeu alargar as portas do SUS. Assim o povo pode entrar todo de uma só vez.

- Sobre as escolas, a educação...

- Lá no meu bairro os vândalos não deixam um vidro inteiro. Quebram tudo. A escola está em ruínas.

- E a juventude, a sra acha que os jovens de hoje são mais livres para...

- Moço, o meu netinho de 22 anos tá preso faz 3 anos. Dizem que é coisa de droga, tráfego...

- Tráfico...

- É isso, mas é tudo fofoca. Deve ter sido coisa da ex-namorada, aquela branquela despeitada que ainda gosta dele e ele não liga pra ela, que colocou droga na mochila dele. O menino é inocente, eu garanto pro senhor!

- Tô sabendo... Inocente, né?... É sempre assim... – fala o repórter, segurando o riso.

- Como? Não entendi!

- Esqueça. E sobre a vida do brasileiro comum, do homem que luta pela sobrevivência?

- A vida do brasileiro comum está de amargar para aqueles que sentem inveja da “felicidade” dos outros.