SERVIDOR PÚBLICO: UM ALTRUÍSTA INCURÁVEL
Se ser cristão é tornar-se imitador de Cristo, no que tange a sua recomendação e exemplo de renúncia própria e serviço desinteressado, o bom servidor público deve ser considerado, ao menos no aspecto moral, um autêntico cristão.
Muito ao contrário do que, infelizmente, ouvimos e vemos como regra em nosso país, o serviço público não é uma espécie de hospedaria ou habitat alternativo para quem se julga incapaz ou inabilitado para sobreviver à competitividade e a instabilidade do mundo privado, muito menos [o é] um trampolim para a autopromoção sem esforço próprio e, como complemento, um arrimo para familiares, parentes e agregados.
Muito longe disso, pela sua natureza original, os pressupostos legais que o definem e os princípios da virtude que o regem, o serviço público, a despeito de sua imensurável honra, é um ofício, senão sacrificante, restritivo, limitador, segregador, e, por que não dizer, despersonalizador.
Para não tornar-me prolixo, destaco apenas dois aspectos diretamente relacionados à função pública e aos que a exercem, ou seja, aos servidores públicos.
ORIGEM ETIMOLÓGICA:
SERVIDOR é sinônimo de SERVO, “aquele que não tem liberdade própria ou não pertence a si mesmo” (Michaelis, 1998).
A mesma fonte nos esclarece que “nos países feudais [servo era um], indivíduo em estado de escravidão moderada, que tinha de prestar certos serviços gratuitos a seu senhor; era adscrito à gleba deste e com ela alienável”.
Em outras palavras, no sistema feudal, o servo nada mais era do que uma extensão da terra – a propriedade do senhor feudal –, podendo, portanto, ser vendido com ela.
E conosco, servidores públicos, é muito diferente?
Nem tanto!
Optar profissionalmente pelo serviço público e, apesar, repito, da inestimável honra, acima de tudo, alienar-se (no mais epistemológico sentido do termo), segregar-se, restringir-se e, por que não dizer, sacrificar-se. Os [bons] militares que o digam!
PRINCÍPIO FUNDANTE:
Dos cinco princípios-base da Administração Pública (Legalidade, Impessoalidade Moralidade, Publicidade e Eficiência) (Constituição Federal do Brasil, 1988), nenhum outro define tão bem o que é ser servidor público quanto o segundo: a IMPESSOALIDADE.
Não seria, portanto, um crime, parafraseando Euclides da Cunha, afirmar que “o servidor público é, antes de tudo, um alienado... um despersonalizado... um sem-vontade-própria... um altruísta incurável”.
Lamentavelmente, por ser nossa cultura uma árvore cuja semente germinou e cresceu no solo das corrupções e, nosso pensamento, um manto tecido nos teares da injustiça, da impunidade e da comodidade, a concepção, tanto de serviço quanto de servidor público, que se tem em nosso país é exatamente o oposto de tudo isso.
Eu, porém, como quixotista assumido e contumaz, não desisto, não me rendo...
Como uma autêntica palmeira maranhense, morro em pé, mas não tombo... não me curvo... não me dobro... não capitulo ante a enxurrada de escândalos que inunda minha categorial geral e meu lócus de atuação (a esfera pública)...
Não perco, jamais, a esperança (do verbo esperançar, não do verbo esperar)!
E, como diz Eliza Lucinda:
(...) se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido,
então, agora, eu vou sacanear:
mais honesta ainda eu vou ficar
Só de sacanagem!
(...) Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambau
(...) minha esperança é imortal.
Eu repito, ouviram? Imortal!
Sei que não dá pra mudar o começo.
Mas,
se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
PARABÉNS
a todos os autênticos servidores públicos do Brasil!
PS:
Por favor, em respeito ao verdadeiro servidor público deste país, não se refira a agentes apenas eleitos ou indicados (como, por exemplo, parlamentares e ministros do STF) como tal. Isso chega a ser uma afronta aos que enfrentam as vicissitudes dessa carreira para, merecidamente, receberem esse honroso título.