GALA A HC 2012
Boa noite clientes e amigos do MG.
Estamos aqui hoje para homenagear a mulher que um dia, por puro prazer e total liberdade, decidiu vestir-se de homem e expressar-se através de grandes vozes masculinas.
Como amiga e testemunha desse facto, afirmo que Helena Correia é a grande referência do transformismo no Feminino deste País.
Para que conheçam um pouco do trajecto de Helena Correia, peço que… Viagem por momentos até finais de 1968 e imaginem a Helena Correia a assumir-se como Lésbica perante a sociedade…Imaginem ela fazê-lo também, através do jornal o Público e Diário de Notícias.
Imaginem a coragem e a liberdade de mente que habitavam nesta mulher…
Imaginem também o reverso da medalha, a esta forma de estar na vida.
Pois é…De uma coisa poderá sempre gabar-se; Foi uma das lésbicas que mais homens teve atrás dela: a Pide de Lisboa.
Filha de um País fascista e ortodoxo declarou guerra ao Governo pela sua cédula pessoal e identidade ter sido assumida.
Para que conste, certa noite, estando em convívio numa casa particular, casa de um amigo onde faziam show como divertimento e por puro prazer, recebem a visita dos homens que a perseguiam. Foi presa, bem como todos os que estavam presentes.
Foi acusada e condenada.
Objecto de acusação: Ser lésbica e fazer transformismo
Condenação: Prisão
Enquanto decorria o processo, esteve detida nos calaboiços da PJ durante 3 dias. A PJ ao saber do gosto de Helena pelo mar, simpaticamente transferiram-na para Caxias que era uma prisão ligeiramente… menos apetecível.
Os Pais conseguem a sua libertação. Ao sair, sofre outras acusações, desta vez sem o carimbo Governamental. Foi acusada e condenada pelos amigos e a sua vida privada profissional foi devassada.
É enviada pela família para Barcelona e lá fica até meados de1972
Volta de Barcelona e a sua vida privada torna-se pública.
Estreia-se nesse ano no Scarlatti Bar a convite de Carlos Ferreira, então no aus das noites Lisboetas. Continuou a dar que fazer à PIDE quando aceitou o convite para ser capa da revista O Século Ilustrado, acompanhada por Guida Scarlatti a saudosa Ruth Briden, factos que estão documentados.
Foi entrevistada pela Revista Plateia e o Correio da Manhã
E deu que falar…
Viajou bastante por esta Lisboa ainda então amordaçada, em viaturas especiais. Cliente assídua da ramona, bem como amigos e colegas, entravam e saiam das instalações do Governo Civil, como quem ia à Brasileira tomar um café em ambiente divertido.
Nesta fase, já não ficavam presos e sim de baixo de olho…veio o 25 de Abril e o tormento foi rasgado pelos cravos e pelo direito a ser quem era…
Persistente e corajosa, continuou a aparecer.
Participou em algumas galas organizadas pelo Carlos Castro e Maria Margarida.
Deu uma entrevista na Rádio VOX dirigida pelo António Cerzedelo e continuou a ser notícia.
Teve uma conversa privada com ela mesmo e decidiu: “quero ser como sou”… E invadiu os palcos da noite da capital.
Passou pelo Memorial, Tramps, Rocambol, Drogaria, Finalmnte, Folies, Acapulco, Cave Mundial, Sitio bar, onde a Sr.ª D. Ivone Silva fez questão de ser a madrinha da estreia do show, intitulado: Alcapone.
Actuou em algumas discotecas no Algarve e mais tarde, decidiu abrir o seu próprio bar.
O Bairro Alto em 1983 tinha na rua Rosa, no nº 159 uma placa dourada à porta com a inscrição: Gay Bar. Ao bar deu um nome sugeneres: Salto Alto e foi mais um palco na sua vida.
Dirigiu alguns espectáculos, com grandes artistas do travesti da época: Armando Duval,Fanny Star, Zázá, Valeria Vanini, Edit Piaf, Lídia Barlof, Xinita Xangai, Belle Dominique, Wanda Morelly, Zizi Mayer, entre outos.
De 1993 a 1997, fez parte da direcção da ILGA Portuguesa, com Gonçalo Dinis, Marita Ferreira,
Ana Nogueira, João Paulo entre os demais, onde defendeu os direitos dos homossexuais nas lutas de rua e em alguns festivais de Cinema Gay Lésbico de Lisboa.
Os anos passaram. Retirou-se do palco dos espectáculos, mas nunca se retirou do palco da vida. A dada altura, tal como no início da sua carreira, com o objectivo de divertimento aceitou o desafio da grande e actual referência do Transformismo Feminino Betty Santos e voltou a brincar do que é:
Uma grande artista.
Recomeçou os seus shows informalmente no Bar La Calle, seguiu-se o Pretty Charneca até subir ao palco num show elaborado que está em cena há cerca de dois meses nesta grande e referencial casa nocturna, a convite de Betty Santos e do MG na pessoa de Miguel Marques.
O MG homenageia hoje, a mulher, a artista, a referência, o transformismo no feminino, a arte, na pessoa de Helena Correia
Hoje sobe ao palco desta casa mais uma vez e sempre que subir a um qualquer palco, uma frase irá provocar.
É ela… A Helena Correia… Ela foi a primeira mulher a fazer transformismo neste País.
Helena Correia continua fiel à sua essência e continua nos dias de hoje a sussurrar entre a música e o microfone:
QUERO SER COMO SOU E NÃO PRETENDO MUDAR…
Senhoras e senhores, amigas e amigos, recebam com um forte aplauso… HC
Texto de Lú Moura