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AO MESTRE PINGUIM

Danilo Andreato*


Hoje, 19 de fevereiro de 2009, recebi da minha irmã Katty mensagem SMS com uma triste notícia. Meu celular marcava exatamente 7h10 da manhã. Coincidência ou não, as aulas no Colégio Visão começavam às 7h10, ao menos na minha época. Confesso que minhas ideias estão meio turvas, na tentativa de escrever algo em homenagem a Pinguim. Figura humana fantástica e inteligentíssima, o velho Pingo, como costumávamos chamá-lo, foi um dos mais marcantes professores que tive no Visão, ao longo dos quase sete anos que lá estudei. Espirituoso, profissional e sábio. Um mestre, na amplitude da palavra. Não se limitava a ler os alunos pelas notas que alcançavam nas provas, mas pelo potencial inerente a cada um. Sim, um mestre.

Nascido Carlos Alberto – desconheço o sobrenome –, apelidaram-no “Pinguim” porque, na ocasião, recém-chegado do Paraná, contava aos amigos que em seu Estado de origem eram comuns semanas de frio intenso, ao contrário da sua nova casa, a Bahia. Seus amigos, incrédulos, tascaram-lhe o apelido. “Quem mora no frio só pode ser pinguim”, concluíram.

No início de agosto de 2008, estive em Feira de Santana para ministrar palestras na UEFS, em evento organizado pelo dedicado advogado Ruy Sandes Leal Jr., e na FAN, esta a cargo de uma entusiasmante turma de Psicologia. Intermediada por minha querida ex-professora Josenete, tive também a oportunidade de falar um pouco a alunos do Visão, para contar-lhes da experiência que vivi durante a trajetória de estudante secundarista a universitário. Foram três palestras no Visão, uma para cada grupo de estudantes do 1.º, 2.º e 3.º ano. Nessas palestras, falei algo que só me dei conta ali: Pinguim esteve presente em, no mínimo, três grandes momentos da minha vida: um no começo, outro  durante, e mais um ao encerramento da minha etapa, como aluno, naquele colégio.

O primeiro momento marcou o início da minha jornada no Visão. Era o ano de 1991. Ingressei lá na 7a série, com apenas 13 anos de idade (apesar de, na época, achar-me um homenzarrão). Em determinado dia, na aula do primeiro horário, lá estava Pinguim sentado à mesa conversando seriamente com a turma, pouco mais de 20 adolescentes, justamente quando entrei na sala e fui assim recepcionado por ele: “E você? Quer ser o quê no futuro?”. Até aí, tudo bem, porque é muito comum os mais novos ouvirem dos mais velhos esse tipo de pergunta. O diferencial veio depois. Lembro que pensei se responderia a verdade, mesmo com o risco de ser ridicularizado, ou se diria qualquer outra coisa. Optei pela sinceridade: “jogador de futebol”. Todos riram. Todos, exceto uma pessoa. Enquanto os meus colegas gargalhavam de mim, serenamente Pinguim fez os risos se calarem ao me perguntar com o característico tom grave da sua voz o que eu estava fazendo para ser jogador de futebol. Fiquei surpreso e sem reação. Primeiro porque o velho Pingo não menoscabou o meu sonho de então. Segundo porque, apesar de hoje ser óbvio, nunca havia pensado exatamente no percurso que precisaria fazer para me profissionalizar. A partir daí a minha vida mudou. Fiz testes em alguns times feirenses, joguei futebol amador na cidade. Sagrei-me vencedor em algumas competições, nenhuma delas expressiva, reconheço. Percebi que esse esporte profissional não seria para mim. Além de diversos fatores, talvez também por não ter o mesmo talento e dedicação que outros, como o são-paulino Jorge Wagner, colega de quando jogávamos no time da AABB de Feira, cuja brilhante carreira muito me orgulha pelo simples fato de tê-la acompanhado desde o início. Enfim, mudei de ideia, após ter, na metade do 1.º ano do ensino médio, abandonado os estudos. Voltei para o colégio, agora motivado.

O segundo momento marcante se deu com o meu retorno ao Visão, quando busquei me dedicar ao máximo aos estudos, com a meta de aprender bastante e passar direto, pois no ano seguinte me submeteria ao vestibular. Estamos em 1997. No final da primeira unidade do 2.º ano, ao me entregar a prova e visivelmente chateado, bradou Pinguim: “o que foi isso, Dani!?”. Eu havia ficado com média três em Matemática. Isso mesmo. Três, apesar do meu esforço. Passei a me ocupar menos de algumas matérias, para focar os assuntos de Matemática e melhorar meu desempenho. Afinal, entre os meus objetivos estava o de ser aprovado sem ir para a recuperação. Agora eu tinha propósitos e sabia o que precisaria fazer para alcançá-los. Durante a entrega dos resultados da segunda unidade, Pinguim me chamou, com o seu timbre vocal peculiar: “Dani!”. Antes de passar a prova às minhas mãos, falou-me, com um satisfeito sorriso: “tá vendo que você pode, rapaz!”. Nove. Obtive nota nove na média da segunda unidade. Com aquelas palavras, Pinguim me fez perceber o mundo de possibilidades que poderiam se descortinar com o auxílio da dedicação e da força do acreditar em si mesmo. “Sim, eu posso”, pensei. Ao final do ano, após muito estudo, atingi a meta de ser aprovado, sem recuperação.

Em 1998, estava eu na condição de “terceiroanista” e com o objetivo de aprender ao máximo e ser aprovado no vestibular, ao final do ano, em Comunicação na UFBA. Para isso, teria que estudar bastante. Imprimi o mesmo ritmo de estudo do ano anterior, disciplinado e diário. A Pinguim, lembro que levava algumas dúvidas de assuntos que ele só nos ensinaria meses adiante e, creio que contente com o meu interesse, dava-me sempre atenção, com explicações precisas e fundamentais. No meio do ano a UEFS ofertou pela primeira vez vagas para o curso de Direito. Apesar de ter em mira o vestibular da UFBA, inscrevi-me, com os olhos direcionados a identificar minhas falhas, a ter um “raio-X” do que precisaria aperfeiçoar para chegar competitivo na disputa por um lugar em Comunicação, em Salvador. Prestei o vestibular para Direito. A UEFS divulgou o resultado às 16 horas de 24 de julho daquele ano, uma sexta-feira (data inesquecível, pois no domingo, 26, comemorei aniversário). Meu nome estava entre os aprovados. Em torno das 7h15 da manhã seguinte, dia letivo no Visão, ao passar pelo pátio do colégio em direção à sala em que estudava, ouvi meu nome ser pronunciado naquele timbre inconfundível: “Dani! Valeu, nêgo!”, disse-me Pinguim, encostado na porta de uma sala próxima ao bebedouro, ao fazer sinal de positivo com o polegar da mão direita, acompanhado de um largo sorriso. Ao seu modo, parabenizou-me pela aprovação. Levemente constrangido e muito contente, respondi-lhe com um efusivo “valeu, negão”. E continuei os meus passos. Deveria ter-lhe dado um forte abraço. Aquela foi a minha última semana como estudante secundarista, porque, dias depois, matriculei-me na UEFS. Este foi o terceiro momento.

Passados dez anos, procurei por Pinguim no colégio, em agosto de 2008, após a terceira palestra para os alunos do Visão. Encontrei-o na sala dos professores. Dessa vez, não deixei passar a oportunidade de lhe dizer a diferença que fez na minha vida, do mestre que foi, é, e sempre será. Relatei-lhe, pessoalmente e emocionado, tudo isso que está escrito aqui. E o abracei em agradecimento, temperado com os dez anos de atraso.

Lembrei desses fatos quando, minutos antes de entrar no carro para ir ao trabalho, li no meu celular sobre o falecimento de Pinguim nesta madrugada. Comecei o dia entristecido. Telefonei para minha irmã para confirmar a notícia, que me chegou mais ou menos no horário em que eu chegava às aulas no Visão. Certamente para amenizar o pesar que senti, liguei também para Bruno Caribé e Lucas Moura, cujas amizades são algumas das tantas e gratas heranças dos tempos de colégio.

Aquela voz grave se calou, mas não silenciaram as lições que pronunciou. Continua viva, presente em cada um que teve o privilégio de compartilhar da sabedoria e alegria desse grande homem que deixa saudades, professor de Matemática e da vida. A você, mestre Pinguim, minhas homenagens e eterna gratidão. E um forte abraço!

Curitiba, 19.FEV.2009.

*Danilo Andreato é mestrando em Direito (PUC/PR), especialista em Direito Criminal (UniCuritiba), especializado em Direitos Humanos pela Universidade Pablo de Olavide (Sevilha, Espanha), professor da pós-graduação em Direito Penal e Crime Organizado (FTC/EaD), diretor científico da Associação Baiana de Psicologia Jurídica (PSIJUR), assessor jurídico na Procuradoria da República no Paraná, ex-aluno do Colégio Visão (Feira de Santana/BA). Site: www.daniloandreato.com.br. Email: daniloandreato@hotmail.com.
Danilo Andreato
Enviado por Danilo Andreato em 19/02/2009
Reeditado em 28/06/2012
Código do texto: T1447708
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Sobre o autor
Danilo Andreato
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 41 anos
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Danilo Andreato