"Fazer dicionários sempre foi muito perigoso"
Ilustração: Capa do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea - Lisboa, Verbo, 2001 
SUMÁRIO
 

APRESENTAÇÃO

 Cara(o),

Já contamos histórias de dicionários, como estas:


     - O nascimento do Aurélio -  
     - Uma historinha familiar sobre dicionários - 

Pois bem, agora vamos falar sobre o "perigo que é fazer dicionário".

Vamos em frente!

 
"FAZER DICIONÁRIOS SEMPRE FOI MUITO PERIGOSO"

Como vimos contando, percebe-se o sacrifício pessoal a que se entrega um dicionarista. Antenor Nascentes, na 2a. edição do seu dicionário etimológico, consignou que recebeu tantas críticas e nenhum reconhecimento pela sua desmedida pesquisa e dedicação àquela obra que quase não mais a republica.
 

Capa do Dicionário Etimológico de Antenor Nascentes

Aurélio Buarque, no prefácio do Novo Dicionário Aurélio (Editora Nova Fronteira, 1975), menciona suas imensas dificuldades na construção da obra e diz que nem sempre o estrênuo trabalho do dicionarista é valorizado.

Para ilustrar esse fato, ele narra que os três responsáveis pela organização do Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa não puderam concluir a obra.

Durante  período em que trabalharam, de 1779 a 1793, um deles morreu e dois ficaram cegos, e a obra foi interrompida no primeiro volume, que terminou com a letra A, em azurrar (= zurrar, de zurro, a voz do burro). 
 
Pois bem. Por extrema infelicidade dos pobres lexicógrafos portugueses, “a piada estava madura, pronta para colher” e não tardou para o escritor Alexandre Herculano glosar, na lenda A Dama Pé-de-Cabra (do livro Lendas e Narrativas), o seguinte: 
 
“O onagro [uma espécie de jumento] fitou as orelhas e, em sinal de aprovação, começou a azurrar; começou por onde, às vezes, academias acabam.” 

Meus(minhas) caros(as), 

Vejam como está cheio de razão o prof. Cláudio Moreno, quando diz, parodiando Guimarães Rosa:  
 
― Fazer dicionário sempre foi muito perigoso.

“222 anos depois...”   
 
[José da Fonseca] “morreu de lentas e dolorosas enfermidades  contraídas nas vigílias da mais opressiva tarefa.” 
 

(RAMALHO ORTIGÃO, comentando  a morte de um dos lexicógrafos do Dicionário da Academia
 
Se podemos de alguma forma compensar a melancolia da nota acima, devemos registrar que, 222 anos depois, houve um “final feliz” para a infausta história do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. 
 
De fato, em 2001, após 12 anos de trabalho, coordenado por João Malaca Casteleiro, foi, finalmente, concluído Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, em dois volumes, 3.872 páginas, Editora Verbo, Portugal. 
 
Voltado para o idioma não só de Portugal, mas para o que é falado em oito países por 200 milhões de pessoas, o dicionário constitui um passeio pela língua portuguesa. Contém acepções de todas elas, 6 mil brasileirismos, inclusive. 

Referências

- Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa - Antenor Nascentes - Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1952
- Novo Dicionário Aurélio, Nova Fronteira, 1975
- Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea - Lisboa, Verbo, 2001
- A Dama Pé-de-Cabra. Alexandre Herculano. In Lendas e Narrativas - Bertrand - vol. 2 - Disponível aqui

 
ACGuima
Enviado por ACGuima em 02/12/2020
Reeditado em 04/12/2020
Código do texto: T7125725
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