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A vida são alegrias ou é alegrias?

Volta e meia,  temos alguma dificuldade na efetivação da concordância em sentenças como a que citei acima.

Espelho-me, em Dileta e Lúbia, em um livro bem conhecido e muito editado, o ‘Português Instrumental’, que durante anos – se é que ainda não continua –  foi suporte para as aulas de português, em diversos cursos de graduação.

Em frases estruturadas com sujeito + verbo ser  + predicativo, importa, inicialmente, ver a natureza semântica dos termos sujeito e predicativo.

Se ambos forem nomes personativos, a concordância pode ser feita com qualquer um deles. Assim:
                      O ator era (eram) muitas pessoas. (‘ator’ e ‘pessoa’ são personativos)

Se ambos forem não personativos, a concordância é também opcional entre o sujeito e o predicativo, como em:
                      A casa materna seria (seriam) as melhores lembranças. (‘casa’ e ‘lembranças’ são não personativos)

No caso de se ter personativo e não personativo (não necessariamente nessa ordem, claro!), a concordância é feita com o personativo:
                   O povo é as esperanças.
                   A esperança são os povos.
                   Clarinha é as alegrias da mãe.

Nem tudo é tão pacífico, assim, felizmente!  Contrariando nosso último exemplo, Celso Cunha cita a seguinte frase de Manuel Bandeira: “Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca” e escreve: “Não é rara [...] a concordância com o predicativo plural quando este representa partes do corpo da pessoa nomeada no sujeito”.

Na possibilidade de se ter personativo ou não personativo mais o pronome pessoal, a concordância é feita com o pronome pessoal:
                    O vencedor sois vós.
                    Vós sois o vencedor.
                    O Brasil somos nós.
                    Nós somos o Brasil.

Por outro lado, se, no sujeito ou no predicativo, ocorrer um pronome pessoal, a concordância será feita com o pronome pessoal, tal como em:
                    Nós somos a harmonia por aqui.
                    A harmonia és tu.
                    Os responsáveis somos nós.
                    O responsável és tu.
                    O culpado sois vós.

Por fim, caberia lembrar a situação em que sujeito e predicativo são pronomes pessoais, caso em que o pronome que funciona como sujeito comanda a concordância. Vejam:
                    Nós não somos eles.
                    Eles não são nós.
                    Vós não sois eles.
                    Eles não são vós.

Dileta e Lúbia resumem assim o que dissemos:

não personativo + não personativo = concordância facultativa
personativo + personativo = concordância facultativa
personativo + não personativo = concordância com o personativo
personativo + pronome pessoal = concordância com o pronome pessoal
não personativo + pronome pessoal = concordância com o pronome pessoal
pronome pessoal + pronome pessoal = concordância com o sujeito


‘Tudo é flores’ ou ‘tudo são flores?’  As gramáticas costumam explicar que, sendo  o sujeito um pronome indefinido ou demonstrativo, a concordância é feita com o predicativo, mas há a possibilidade de concordância com o sujeito.

Aplicando o que expusemos à frase acima, observa-se que se trata da situação ‘não personativo + não personativo’ (‘tudo’ e ‘flores’), caso em que a concordância é facultativa. Menos regras e mais facilidade, não?!

Voltemos ao título que encima o presente texto. Afinal, ‘A vida são alegrias’ ou ‘A vida é alegrias’? Dois termos não personativos denunciam que a concordância é facultativa.. Correto? Concordam? Eu preferiria o plural, que deve ser mesmo o uso dominante.


Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 02/10/2020
Reeditado em 02/10/2020
Código do texto: T7077885
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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