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A influência da mídia sobre a gramática

Particularmente, sou observador do emprego dos sinais de pontuação por parte da mídia. Costumo reler parágrafos ou mesmo matérias para analisar, muitas vezes,  certos procedimentos que parecem destoar do que recomendam as gramáticas da língua. Levo alguns textos para sala de aula, discuto com os alunos e procuro salientar o dinamismo da língua,  enfatizando que  os desvios de hoje  poderão fazer parte de futuras recomendações gramaticais.  É muitas vezes apenas  questão de tempo!  Afinal, é assim que se escrevem as gramáticas: observa-se o uso,  e, sob esse aspecto, a mídia impressa exerce significativa influência.

 Vamos a um pequeno exemplo.  Está escrito,  nas gramáticas da língua portuguesa,  que se separa o adjunto adverbial quando tem certa extensão e está deslocado do final do período. Pasquale e Ulisses, por exemplo, ensinam, em Gramática da língua portuguesa, que “quando são antepostos ou intercalados, os adjuntos adverbais devem ser obrigatoriamente separados por vírgulas” (p. 402). Registro, aqui, quatro excertos da mídia, cujas datas não anotei e nos quais  a referida regra é preterida:

 CINCO MESES ANTES ela dera à luz seu primeiro filho. (Veja)
 EM PIRAPORA as romarias não são novidade. (Folha de S. Paulo)
 A CADA SEMANA a lista mudava um pouco. (Veja)
 EM POUCO MAIS DE DEZ MESES ele leu alguns livros... (Veja)


Observe o leitor que os adjuntos destacados têm certa extensão, estão deslocados para o início do período e não foram virgulados. O que fazer? Corrigir Veja e a Folha? Penso que não. Trata-se de uma tendência da língua midiática escrita, que encontrará ressonância nas descrições gramaticais do futuro. É esperar para ver!

Há um outro aspecto que gostaria de comentar. Diz respeito às orações adjetivas explicativas e restritivas. Penso que, nesse tópico, a mídia está escrevendo, e com certa recorrência, uma regra de uso que talvez mereça atenção dos estudiosos.

Sabe-se que as orações restritivas, cuja característica é individualizar o antecedente, não se separam por vírgulas, enquanto que as explicativas, que acrescentam um detalhe, um pormenor do termo anterior, são virguladas. Nesse segundo caso, é como se o antecedente já estivesse suficientemente definido: o  que se explica, embora para o leitor nem sempre seja irrelevante, é algo inerente ao termo a que a  adjetiva faz referência. Tentemos exemplificar. Em “Os professores QUE SE ESPECIALIZARAM estão ministrando aulas mais atualizadas”, a oração em destaque insere o antecedente em um subgrupo. Vale dizer que nem todos os professores ampliaram estudos e que somente os que tomaram essa iniciativa estão logrando aulas mais atualizadas. Por outro lado, se redigíssemos “Os professores, QUE SE ESPECIALIZARAM,  estão ministrando aulas mais atualizadas”,  a mensagem seria outra. A oração seria explicativa e traduziria algo inerente ao termo anterior,ou seja, todos os professores se especializaram. Com as vírgulas, é como se no lugar de “professores” escrevêssemos os nomes de todos eles: João, Antônio, Pedro...  Nessa linha de raciocínio,  Rodolfo Ilari, em A linguística e o ensino da língua portuguesa,    escreve que “os nomes próprios típicos [...] são completamente autossuficientes para indicar indivíduos ou objetos; são naturalmente ‘expressões referenciais’; quando lhes apresentamos uma oração adjetiva, não obtemos uma identificação mais específica” (p. 21), ou seja, a oração adjetiva a eles referente tem valor explicativo e, pela tradição gramatical, é separada por vírgulas.

Acredito que, quanto a esse aspecto, a incidência de desvios na mídia, se houver, seja mínima, ou seja, nome próprio antecede oração explicativa  separável por vírgula. Observemos pequena amostra extraída de Veja,  1.990, de 10/01/2007: “Em menos de uma semana de namoro, o casal (referência ao jogador Ronaldo e Érika) embarcou em Paris, ONDE PASSOU O ANO-NOVO NO APARTAMENTO DELE, e de lá para Madri, ONDE ELE VOLTOU AOS TREINOS”.

Atento aos aspectos até aqui mencionados, acabo de ler na íntegra a revista Istoé, edição 1.994, de 31/01/2007, da qual, a meu juízo, emerge uma complementação à regra gramatical que prescreve a virgulação das orações adjetivas explicativas. Antes, vejamos o corpus coletado:

            “Como diretora do CEB, posto QUE OCUPA DESDE 1993, Vanda promove palestras e exposições sobre o Brasil e organiza aulas de português.” (p. 39)
“Quando ela própria sentiu os primeiros fogachos, as ondas de calor QUE TANTO INCOMODAM AS MULHERES NA MENOPAUSA, submeteu-se a sessões de terapia.”  (p. 64)
“... foi fundado por Giuliano Tavaroli, um ex-diretor  da empresa QUE ESTÁ PRESO DESDE SETEMBRO, ...”  (p. 73)
“... sócio de Luís Roberto Demarco, um ex-funcionário do Opportunity QUE MOVIMENTOU VÁRIAS PEÇAS NA LONGA GUERRA PELA BRASIL TELECOM.”  (p. 73)
“Mesmo na religião, área EM QUE O MAIS INSIGNIFICANTE DOS ATOS PODE TER IMPLICAÇÕES CÓSMICAS, algumas histórias são grandes e outras, pequenas.” (p. 79)
“... é tema de A conquista da honra, [...], filme de  Clint Eastwood QUE ESTREIA NO PAÍS NA SEXTA-FEIRA 2 e faz par com Cartas de Iwo Jima,[...]”  (p. 85)
“Continua ótimo o road movie Mar de rosas (Vídeofilmes), filme impregnado de humor pesado QUE A PAULISTA ANA CAROLINA DIRIGIU EM 1977.” (p. 89)
“Exemplo disso é Didi, o fã mirim PARA QUEM A SUA MÚSICA TEM O PODER DE INCENDIAR A CAIXA DE SOM – como mostra um desenho que ele fez ...” (p. 90)

Observem  os que tiveram paciência de me acompanhar até aqui que as orações grifadas são adjetivas explicativas e se encaixam na teorização que apresentamos anteriormente. Esperava-se que estivessem emolduradas por vírgulas, ressalvando-se, é evidente, a possibilidade de encerrarem período ou de alguma particularidade estilística na pontuação, como demonstra a último excerto, em que a cláusula adjetiva é seguida de travessão.

Observem, ainda, que em todos os exemplos a oração adjetiva explicativa encontra-se precedida de um aposto e, nessa situação, somos levados a concluir que a vírgula precede o aposto e não a oração adjetiva explicativa. Trata-se de uma construção muito comum na mídia. É só observar.

De nossa parte, numa despretensiosa contribuição, arriscamos formular: separam-se por vírgulas as orações adjetivas explicativas desde que não precedidas de aposto, pois, nesse caso,  o sinal de pontuação precede o aposto. Uma lição que vem da mídia!

Talvez coubesse pesquisar a literatura. Creio que haverá exemplos. Em Drummond, encontrei “Parou na ponte sobre o rio moroso,/ o rio QUE LÁ EMBAIXO POUCO SE IMPORTAVA COM ELE...”  É a mesma situação, não?


Fechava Istoé, satisfeito com a singela descoberta, e vejo que, à página 83, a tradutora  de Time registra: “...diz Theresa Glannon, professora de direito da Temple University, QUE ANALISA AS MUDANÇAS NO PANORAMA LEGAL.” Aleatoriamente, colho em Istoé 1.946  “O drama de Taíza Thomsen, Miss Brasil 2002, QUE ACABOU VIRANDO DANÇARINA DE STRIP-TEASE EM LONDRES”.  Como se vê, há, em ambos os casos,  o aposto e a vírgula após ele. Cabe observar, entretanto, que, nas duas situações,  o aposto  tem certa extensão (professora de direito da Temple University e Miss Brasil 2002),  situação que me leva a reformular a regra anteriormente proposta:  após o aposto de certa extensão (exemplos não faltam no corpus de Istoé  1.994), é facultativa a vírgula quando este precede uma oração adjetiva explicativa. Parece  um caminho.  É continuar observando...

Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa, em 27/02/2007.




Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 29/09/2018
Reeditado em 29/09/2018
Código do texto: T6463247
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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