Os galos e as galinhas, e o tatu, e a raposa.

Era uma vez...

Num reino distante, muito, muito distante, havia um galinheiro, onde viviam dezenas de galos e galinhas; e bem perto um buraco, onde vivia um tatu.

Num certo dia, passou pelas redondezas uma raposa, que, vendo os galos, as galinhas e o tatu, lambeu os beiços, a prelibar do prazer de devorar todos eles. O tatu, bicho cabreiro e de bom-senso, vendo-a, e reconhecendo-lhe o tipo, que se assemelhava a outros já do seu conhecimento, foi ter com os galos e as galinhas: "Há uma raposa nas vizinhanças, meus amigos. Ela irá se oferecer para nos proteger de criaturas más. Não acreditem em nenhuma palavra do que ela irá dizer. Ela, uma ladina, quer nos devorar." E os galos e as galinhas retrucaram: "Deixe de tolices, tatu. Você, que vive num buraco, nada sabe da vida. Vá cuidar da sua vida, tolo." E escorraçaram o tatu.

A raposa pensou em com quais palavras iria persuadir o tatu e aqueles galos e galinhas a deixarem-la entrar nas residências deles para que ela, então, lá dentro, os pudesse devorar. Foi até a casa do tatu, que, mal a vendo, protestou: "Vá-se embora, criatura má! Vá-se embora!" E o tatu arremessou-lhe terra e pedras, afugentando-a. Diante de tal revés, contrariada, a raposa foi até o galinheiro, e, com voz suave e cativante, apresentou-se aos galos e às galinhas: "Bom dia, queridos. Vocês vivem numa casa tão desguarnecida de segurança, que qualquer criatura maléfica pode invadi-la, e matar todos vocês. Vocês precisam de proteção. Eu, que já percorri meio mundo, sei dos perigos que vocês correm." E falou-lhes de suas experiências, de sua vida aventurosa, dos apuros que viveu, dos perigos que enfrentou e superou. Foi tão persuasiva, tão sedutora, que os galos e as galinhas abriram-lhe a porta do galinheiro.

Na manhã seguinte, logo que o Sol nasceu, o tatu saiu de sua casa, e deparou-se, assim que olhou para o galinheiro, com um cenário entristecedor: todo o chão do galinheiro juncado de penas e ossos e poças de sangue, e, num canto, deitada sobre um colchão de penas macias, a raposa, que exibia um ventre recheado, tranquilamente a palitar os dentes, a lamber os beiços, a sorrir embevecida, bobamente, como se vivesse no paraíso.

Ilustre Desconhecido
Enviado por Ilustre Desconhecido em 29/01/2025
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