O Corvo e a Tartaruga

O corvo e a coruja estavam lá, próximos, empoleirados em uma árvore, observando a lua.

- Coruja, tu que és tão sábia, poderia ajudar-me em um problema que vem me atormentando?

- Sábia? Por que me acha sábia?

- Bem, é de feitio das corujas serem muito inteligentes e sábias, vocês são o símbolo da própria deusa Atena, não é mesmo?

- E quem disse que sou uma coruja? Eu posso ser facilmente uma tartaruga.

O-de-asas-negras responde, meio atônito:

- Claro que és uma coruja, oras. Teu pai é uma coruja, tua mãe é uma coruja. O que você seria então? Sua aparência é exatamente como a da sua raça. Tartaruga? Tartarugas não têm asas, e tu sabes muito bem disso. Não há dúvidas de quem és.

- Esse seu erro, pobre corvo.

O corvo se mantém confuso, e a-de-asas-brancas continua.

- Acontece que não preciso ser como meus pais, nem ao menos como minha raça. Na verdade, não preciso me encaixar em nenhuma classificação taxonômica fichada até agora. Eu sou eu, e somente eu. Tartaruga ou coruja, não me torna mais lenta ou mais sábia...

...E você também não deveria tentar tanto se colocar em algum lugar pré-determinado. Sinta quem você é, antes de dizer.

Os olhos do corvo brilharam.

- Devo pedir desculpas por meu equívoco...

- Sem problemas, só queria que refletisse sobre isso.

- ...Entretanto, não podes negar uma coisa.

- Que seria?

- Sua sabedoria é tão grande, que resolveu meu problema sem que nem ao menos eu te apresentasse. Você não faz jus à sua raça. Você vai além. Obrigado.

A prateada abriu um leve sorriso. Ambos se entreolharam, e rapidamente viraram seus rostos, envergonhados.