Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A BELA CORCEL

Quando a pequena Estrela nasceu, todos na fazenda ficaram admirados com a grande beleza da pequena égua, pela sua cor creme e os pelos muito brilhosos e sedosos.
Era difícil imaginar como uma égua pangaré, tão feia como Mariposa, tinha ficado prenha de uma potranca tão garbosa.
Estrela passava os dias com a mãe, em um pasto separado só para as duas, e vinha gente de todo lugar para apreciar sua formosura e porte.
Ela trotava de um lado para o outro, para que todos pudessem admirá-la. Enquanto a mãe, só a olhava de longe, e ficava feliz pela sua cria.
Em meio a tanta admiração, ela já não gostava da sua mãe próximo a ela, porque ela queria ser a detentora única de todos os olhares, e achava que a mãe poderia está atrapalhando sua aparição, prejudicando seu desempenho e admiração que todos demonstravam por ela. Enfim, poderia encobrir seu estrelato.
Logo pela manhã, quando notava que as pessoas começavam a chegar, para lhe venerar, ela logo se afastava da mãe, e quando Mariposa tentava se aproximar dela, ela pedia que a mesma se afastasse, pois era o seu momento de glória, e ela poderia atrapalhar o seu brilho.
Estrela então, passava todo o dia desfilando, e ignorava completamente a mãe, que ficava quietinha em um cantinho da cerca, para não ser notada. E de lá, ela apreciava a filha em toda a sua plenitude.
Logo que a potranca desmamou, retiraram a velha pangaré do local, e deixaram só a linda Estrela, com todo aquele lugar somente para ela. E a pequena, se achava uma grande celebridade. O fato da mãe não está mais próximo a ela, não a incomodava, afinal, ela era o motivo para a presença daquelas pessoas ali.
Um dia, chegaram alguns homens estranhos, abriram a cerca, laçaram a potra, e a colocaram em uma traseira de caminhão.
Estrela se desesperou, não estava entendendo nada, não queria ir, eles a estavam machucando. Ela começou a gritar pela mãe, pedindo socorro, sem sucesso.
Enfim, eles a levaram para um estábulo, cheio de novos cavalos, que a encaravam, e a desprezavam com o olhar. E a colocaram em uma cocheira sozinha.
Estrela tentou falar com os outros animais, mas todos a ignoravam. A noite estava fria e solitária, e ela chorava inconsolada, até que ouviu uma voz, musicalizada:
– O que houve pequena? - Era um pequeno Bem-te-vi, que sobrevoava próximo a estrebaria.
Estrela assustou-se, até que avistou o pássaro, então, acalmou-se, e respondeu:
– Oi!! Estou assustada. Esse lugar é estranho, fechado, todos me ignoram, e nem sei onde estou. - E arregalou seus lindos e grandes olhos azulados, cheios de temor.
– Hum!!! - retrucou o pássaro. E continuou:
– Você está em um estábulo, os cavalos vêm para cá para se tornarem corredores. Todos aqui querem ser estrelas, por isso, te ignoram. Afinal, você vai ser mais uma para disputar a fama com eles. Eu até acho que ouvi falarem de você, uma bela potranca, que havia nascido nas proximidades, e que teria o porte de corredora, por isso, teu dono te vendeu, para que se torne um cavalo de corridas. Algo mais? - E a olhou bastante sério. E a potra ainda amedrontada, respondeu:
– Eu nunca corri. E como é seu nome? Quem vai cuidar de mim aqui? Cadê minha mãe? Preciso muito dela.
O pássaro a olhou, balançou a cabeça, e disse:
– Minha cara amiga, aqui você está sozinha. E sobre cuidar de você, logo os humanos vão vir para te ensinar a correr e tudo mais, e se ganhar alguma corrida, ficará famosa. E meu nome é Xavier. Agora, posso ir? Esclarecemos tudo? - E Xavier, sempre agoniado, já ia saindo voando, quado Estrela gritou:
 – Não, por favor Xavier, não me deixe. Estou muito amedrontada. Fique comigo, eu te peço. Só hoje! Está muito escuro, e ninguém parece me apreciar neste lugar.
Xavier pensou, olhou para a pequena, e respondeu:
– Você parece realmente assustada menina. Como se chama?
– Estrela!! - respondeu com a voz trêmula, quase querendo chorar. Xavier a olhou, e continuou:
– Sinto muito querida, não posso ficar com você, preciso voltar para minha casa, mas amanhã, com certeza voltarei para te rever, e aí poderemos conversar mais. Agora tenho que ir! Boa noite!! E acostume-se, pois vida de celebridade é assim: sozinha.
E Xavier voou.
Os olhos de Estrela estavam marejados de lágrimas. Encolhida no canto de sua pequena prisão, ela relembrava a mãe, sempre tão doce e atenciosa. E ficava imaginando, em que lugar ela estaria, pois nunca sentira tanta falta dela. A solidão, o medo e a tristeza invadiram totalmente seu ser. Se ela soubesse que seria afastada da sua genitora tão nova, ela teria a curtido mais.
A noite foi longa, e Estrela só adormeceu quando o dia já estava raiando, sendo logo acordada por vozes e gritos de homens que entravam no local. Sem dar muita importância a ela, um homem grosseiro de chapéu entrou, a prendeu numa corda, apesar dela tentar fugir, o que o irritou mais ainda, e a levou sem muita conversa.
Logo chegaram em uma cerca, onde tinham outros homens, outro a pegou, e começou a treiná-la para correr.
Estrela tentou resistir, achou que assim, eles desistiriam e a mandariam de volta, para junto de sua mãe, mas não adiantou. O homem grande e forte, de botas, calça lisa e camisa quadriculada com um chapéu na cabeça e a barba por fazer, não parecia ligar muito para o que a potra queria, e sim para o seu serviço, que era treiná-la. E assim, continuou.
Logo Estrela entendeu que toda vez que errava ele ralhava com ela, e quando ela acertava, ele lhe dava um torrão de açúcar, uma gratificação pelo acerto.
O dia foi puxado, ela nunca tinha treinado, era tudo novidade, e muito desgastante. Depois ele a deixou ficar um tempo solta no cercado, e ela enfim, parou para descansar.
Parada em um canto da cerca, ela viu o quanto grande era o lugar, viu os pastos, e o sol ardendo lá no alto.
Uma voz a assustou, e ela virou-se para olhar. Era ele novamente, Xavier.
– E aí menina? Já se acostumou com tudo? - Ela o olhou, e só então notou o quanto ele era bonito e chamativo. E forçando um sorriso, ela disse:
– Estou tentando, mas aqui é muito triste, e ninguém parece se empolgar com a minha beleza. Todos me ignoram.
Xavier deu uma risada de deboche, e falou:
– Lógico que não minha amiga, aqui é um local de trabalho, só se visa o lucro. E para continuar aqui, tem que se destacar, correr como o vento, e vencer qualquer barreira. Não se engane, o mundo aqui é dos vencedores. Perdedores aqui, estão ferrados. Aqui o seu encanto não interessa, só o seu desempenho.
Estrela o olhou desconfiada, e perguntou:
– O que você quer dizer com ferrados? - Ela estava assustada, aquele mundo era muito diferente do qual ela estava acostumada.
Antes que Xavier respondesse, o homem laçou a potranca e a levou para os estábulos. Ela ainda tentou se soltar, mas não conseguiu, e Xavier apenas a olhava e batia as asas.
Os dias foram passando, e os treinos ficando cada dia mais puxados. À noite, apesar do medo e da solidão, e da falta de sua velha mãe, ela acabava sempre por adormecer, por causa do cansaço do dia.
Sempre que podia, Xavier aparecia e conversava um pouco com ela. E Estrela ficava mais e mais triste a cada dia.
Um dia, ela voltou a perguntar a Xavier, o que acontece com os cavalos que não conseguem se destacar nas corridas, e ele finalmente, apesar de tentar disfarçar, respondeu:
– Bem, se o cavalo não é um bom corredor, não dá lucro, ele tem dois destinos: ou é mandado para puxar carroças no campo ou vira sabão.
Estrela arregalou os olhos, apavorada. E falou:
– Você está brincando, não é?
Xavier balançou a cabeça na negativa, e resmungou:
– Infelizmente não! - E voou para imensidão do céu azul.
Um dia, quando a colocaram em um cercado mais distante, Estrela avistou um velho pangaré, cego de um olho, que comia a distância. Ele parecia tão doente, e era muito feio. Ela se aproximou e falou com ele:
– Oi senhor!!
O velho pangaré levantou a cabeça, e a olhou com dificuldade, e respondeu:
– Ah!! Oi garota!!! Tudo bem?
Estrela finalmente deu um pequeno sorriso, pois aquele era o primeiro cavalo que falava com ela, desde que tinha chegado naquele local. E falou empolgada:
– Poxa!! Estou tao feliz!! Nunca nenhum cavalo falou comigo desde que cheguei aqui, e amanhã vou estrear nas corridas, e queria compartilhar essa alegria com alguém.
Sabe, correr é muito gostoso, eu nunca imaginei até chegar aqui. Aprendi a gostar. O senhor não deve saber como é porque já está velho, e pela sua aparência, nunca deve ter corrido. Enfim, é bom poder falar com alguém como eu. Como se chama senhor? - ela o olhou carinhosamente, e seus olhos brilharam como a muito tempo já não costumava acontecer.
O pangaré deu uma risada rouca, e disse:
– Minha cara amiga, primeiramente, me chamo Radiante, e apesar do que você ver aqui, não sou velho. Sou jovem ainda, mas, como você iniciei cedo nas corridas, era um campeão. Todos me cercavam, me admiravam, eu era um astro. Pensei que a vida era aquilo, aplausos e elogios.
Mas, logo chegou um novo cavalo, e comecei a perder. Os treinos mais fortes e duros, foram me destruindo, não consegui melhorar.
Como já não conseguia mais ganhar as corridas, eles me mandaram para cá. Agora, puxo carroças. Bem, pelo menos estou vivo. Então, te desejo toda sorte do mundo minha querida, pois vai precisar bastante. - E acabando de falar, Radiante virou-se e saiu, sem dizer mais uma palavra.
Enquanto Estrela ficou entre chocada e preocupada. E a tristeza voltou a tomar conta dela. E de repente, veio a ideia, de que a única forma de não ter um final tao trágico, seria fugindo dali, e encontrando sua mãe, e assim, as duas voltariam a ser felizes. O problema era como fugir.
E Estrela gritou por Radiante, que já ia longe, mas escutou e retornou, perguntando:
– Que gritaria é essa garota? O que você quer?
Ao que ela respondeu:
– Senhor Radiante, não quero ter o mesmo futuro do senhor, e muito menos virar sabão, então, será que o senhor não pode me ajudar a fugir, assim, poderei procurar por minha mãe. Por favor!! - Os olhos dela tinham uma tristeza enorme, e aquilo mexeu com Radiante, que pensou um pouco e falou:
– Você me lembra algo, não sei bem o que. Eu não deveria ajudá-la, mas, vou. Nem sei bem o porque.
Agora afaste-se, vou tentar derrubar esta cerca, tenho que ser ligeiro, pois daqui a pouco eles voltaram para te pegar. - E Estrela se afastou, e Radiante começou a dar coices na cerca, até que conseguiu derrubar uma parte que estava mais deteriorada, e mandou Estrela sair e segui-lo. Os dois saíram correndo, Radiante finalmente conseguira voltar a correr novamente. Por alguns minutos, ele voltou a se sentir um campeão.
E eles correram, e correram, até que Radiante disse que já estavam salvos. E que agora, era hora de tomarem rumos diferentes. A pequena sorriu, e agradeceu a ele.
Só então, Radiante perguntou a Estrela, como encontraria a mãe dela, como ela se chamava. Ao que ela disse:
– Não, sei bem onde posso encontrá-la, mas não deve ser tão longe daqui, e ela se chama: Mariposa. E é uma pangaré…- Radiante a interrompeu, e continuou falando:
– Uma pangaré de cor castanha clara, com uma mancha branca entre os olhos que lembra uma mariposa. Não é?
Estrela ficou em choque, pois ele conhecia sua mãe, e isso a deixou feliz, e logo ela exclamou:
– Quer dizer que conhece minha mãe? Então, sabe onde posso encontrá-la, não é? - Ela abriu um imenso sorriso.
Radiante, a olhou com tristeza e falou:
– Sim, eu conheci sua mãe, então, você é a Estrela, que ela tanto admirava. Só que tenho duas coisas para te contar, querida.
O fato é que depois que tiraram você da sua mãe, ela ficou muito triste, desolada, e veio para cá passar seus últimos momentos, não resistiu de tanta saudade, e partiu tem algum tempo, para não mais retornar.
Estrela sentiu o chão abrir debaixo dos seus pés, parecia que o mundo tinha acabado para ela, pois nunca mais iria ver a mãe. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela ficou sem palavras. Nunca sentira tanto arrependimento, por não ter aproveitado mas a companhia de sua mãe, que tanto a amava, independente dela ser bonita ou feia, veloz ou lenta. A potranca entendeu que perdera o único amor verdadeiro de sua vida. E não tinha mais volta.
E Radiante olhando para ela com pesar, disse:
– Tem mais uma coisa que você não sabe minha garota. É que eu sou o seu pai. - e se aproximou dela para lhe dar consolo. A potra se assustou, mas sua tristeza e felicidade, se misturaram, pois agora, pelo menos ela teria uma companhia. E quem sabe, eles poderiam ser felizes, longe daquele lugar, soltos pelos campos verdejantes das montanhas.
E finalmente, Estrela entendeu que tudo na vida passa, e o que temos realmente de importante neste mundo, é manter por perto quem amamos, pois esse é o maior tesouro de nossas vidas, e o qual devemos cultivar e preservar em todos os dias de nossa breve passagem por esse mundo, pois quando se perde, não tem mais volta.
E Radiante, pensou, e resolveu viver na companhia da filha, e quem sabe criarem laços.
NOÉLIA NOBRE
Enviado por NOÉLIA NOBRE em 23/01/2019
Código do texto: T6557321
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Comentários

Sobre a autora
NOÉLIA NOBRE
Fortaleza - Ceará - Brasil, 51 anos
256 textos (6657 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/12/19 08:00)
NOÉLIA NOBRE