A RATOEIRA

Era uma vez um rato que vivia no sítio de seu Aldrovando. Vida despreocupada de rato da roça, com muitas locas para fazer seu ninho. Sabia de mil e um lugares para se esconder das perseguições que lhe faziam os gatos e outros inimigos. A vida era gostosa, com muita alimentação: espigas de milho no paiol, sacos de farelo no galpão, frutas no pomar, toicinho estendido no varal, a defumar, sobre o grande fogão de lenha na cozinha.

Ensinava suas proles a levar a vida que lhes era reservada, como bons roedores, todos fazendo parte da corrente da Vida, como elos imprescindíveis para a continuação da cadeia da Natureza. Já havia gerado centenas de descendentes, os quais se espalhavam pelo sítio, pelas fazendas e propriedades da região. Alguns haviam emigrado para a cidade. Eram ratos de esgoto, vivendo uma vida mais atribulada, sendo perseguidos e mortos.

Gordo, saudável, passava os dias na felicidade de alimentar-se, esquentar-se ao sol, alisar seus poucos fios de barba, correndo daqui pra lá, livre e independente. Mantinha amizade com todos os outros animais do sítio: freqüentava o galinheiro, onde era amigo do galo; corria pelo curral, em conversas com o boi, as vacas e os terneiros; gostava de conversar com o carneiro, pela sua sábia paciência.

Era um rato feliz. Rato da roça, sim, mas um rato alegre e tranqüilo. Até o dia em que deparou com algo terrível. Quase não acreditou, esfregou a barba e os olhos quando viu o dono do sítio colocando no paiol uma terrível armadilha, destinada à extinção da sua espécie. Justamente no paiol, o lugar que mais gostava de freqüentar, a fim de roer as espigas na busca do milho amarelo e gostoso.

Assustado, tratou de avisar em primeiro lugar à companheira, aos filhos e à parentalha toda.

— Tomem cuidado com a RATOEIRA, é uma armadilha mortal. Não se aproximem dela, passem longe. Não se deixem ser tentados pela isca, seja queijo, toicinho ou qualquer outro petisco.

Mas, mesmo tendo avisado a todos sobre a existência da perigosíssima arma de extermínio instalada no paiol, continuou muito preocupado. Foi tomar conselho com o galo.

— Estou preocupado demais, não sei o que fazer. A qualquer hora um de nós, ratos, pode cair na tentação e ser vítima da ratoeira.

— Cocorocó...! E o que é que você quer que eu faça? Não tenho nada com isso, não vou meter meu bico nessa máquina, que, aliás, nem está no galinheiro. Você que se fomente. — E saiu de perto do rato, que poderia causar suspeita uma amizade com um animal tão perigoso.

Desconsolado, o rato procurou conselho com o paciente carneiro. Contou-lhe da ameaça que estava sofrendo a sua espécie.

— Béeee...! O que você quer que eu faça? Não é assunto de minha alçada. Nunca vi essa tal de ratoeira, não tenho a mínima idéia do que seja. Problema seu, você que se vire.

Sem saber o que fazer para aliviar sua tensão, falou com o velho boi. Relatou-lhe com aflição a sua preocupação.

— Muuuú...! Não vê que tenho mais com que me preocupar? Ratoeira? Que é isso? Ora, rato, vê se enxerga, é problema seu. Me deixa meditar sobre MEUS problemas.

O rato se afastou de seus amigos, sentindo-se um verdadeiro pária. A ratoeira é muito mais do que uma ameaça à sua existência física: colocou-o do outro lado da existência, perdeu a amizade de seus velhos companheiros, nos quais pensava pudesse confiar.

Entretanto, um incidente veio alterar toda a situação. Uma cascavel foi apanhada pela ratoeira. Quem a descobriu, com o rabo preso na armadilha, foi dona Emerenciana, a mulher do sitiante. Na tentativa de matar a cobra, aproximou-se demais e foi picada pela mortal serpente.

Saindo do paiol gritando, deu alguns passos e caiu desmaiada no quintal. Seu Aldrovando correu em seu socorro, levou-a para dentro de casa e deitou-a na cama. Mandou chamar, incontinente, Zuleica, a velha benzedeira que tratava de todos os males na região.

Entre benzeduras, poções, simpatias e rezas, dona Emerenciana foi melhorando. Mas o apetite não voltava. Com o fim de reanimar a paciente, a bruxa recomendou ao marido que desse à mulher caldo de frango, engrossado com fubá.

— É tiro e queda! Quando mais erado for o frango, mais forte o caldo.

Seu Aldrovando não teve dúvidas. Foi ao galinheiro e escolheu a ave mais forte, mais gorda: o galo. Naquela tarde, dona Emerenciana tomou o caldo grosso e forte.

Mas a mulher não reanimava, nem depois de uma semana de caldos de galo, frangos e galinhas. Tentando, por todos os meios, dar a melhor alimentação para a esposa, o sitiante mandou matar o carneiro. Forneceu alimento forte durante algumas semanas, mas a fraqueza da mulher prevalecia.

Um mês depois da picada mortal, a fatalidade abateu-se sobre a família: Dona Emerenciana morreu, quieta como um passarinho, sem dizer um ai.

O sitiante era muito conhecido, tinha parentes e amigos espalhados por toda a região, os quais compareceram, em grande número, ao velório. Era tanta gente, tanta gente, que Aldrovando se viu na contingência de alimentar todo o mundo. Que fazer? Mandou providenciar um churrasco, para o qual foi sacrificado o velho boi.

Do alto do espigão do paiol, o rato chiava baixinho, lamentando a perda de seus amigos, sacrificados para tentar salvar a mulher que fora picada pela cascavel, todos vítimas da ratoeira.

Antonio Roque Gobbo =

Belo Horizonte, 23 de agosto de 2002

Conto # 174- da Série Milistórias

Antonio Roque Gobbo
Enviado por Antonio Roque Gobbo em 26/04/2014
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