MAIS DO QUE HUMANOS

O que nos faz humanos?

Um milhão de coisas, mas entre elas a percepção de o sermos, ou o conceito de Auto-Identidade como alguns gostam de lhe chamar.

Contudo, ao longo da história para alguns esta percepção parecia não ser suficiente. Para eles o conceito de humanidade deveria passar por factores, menos elaborados, mas, devido a essa simplicidade, sedutores para vastas camadas de toda a população.

Algo tão primário como a cor da pele deveria definir o limite entre os humanos e não humanos, sendo que a partir desta ideia todas as outras se submeteriam. Por exemplo, se um indivíduo era de cor negra, não era humano, seria inferior, não tendo a capacidade de raciocínio dos brancos. Apesar de por, não raras vezes, as capacidades mentais das raças não brancas superarem estas, tal não era admitido, porque indivíduos inferiores não podem aspirar a ter capacidades iguais ou superiores aos dominadores.

Claro que havia outras formas de peneirar a humanidade, como a origem social ou tribal, sendo que os próprios brancos tinham escravos brancos...

PARTE FINAL

E apesar de tudo, de todas as histórias, de todas as tragédias, todo o fervor que tornou o descendente dos macacos na espécie mais avançada do planeta, tal de nada adiantou.

Porque, não obstante todos os seus meios, o Homem Natural acabou por entrar em decadência irremediavelmente.

Há muito que a alimentação fora melhorada, que medicamentos poderosos, transplantes e incontáveis próteses tinham prolongado a vida humana muito para além do seu rumo natural.

Mas isso não foi o suficiente para a perpetuar indefinidamente.

A mesma natureza que tantos e tantos anos fora submetida acabou por submeter a raça humana.

Ao homem sucederia outra espécie, mais poderosa, mais adaptável.

Por fim, e apesar de todas as espantosas melhorias o corpo humano foi incapaz de suster o rumo da história.

E a maior das ironias é que o sucessor veio de onde menos se esperava.

Após várias guerras de invulgar violência, inúmeros surtos de fome e epidemias, bem como o colapso das atmosferas dos diferentes planetas por onde se espalhara a raça (devido à destruição das centrais energéticas que permitiam a sustentação da atmosfera criada, já que as originais tinham sido destruídas nos primeiros séculos do terceiro milénio), por fim ela acabou.

Restaram os mais adaptados, aqueles que resistiram a todos os flagelos, aqueles cujo organismo fora criado, tanto como mais uma forma de concepção, como para resistirem às duras condições dos primeiros séculos de exploração espacial, as meninas dos olhos dos geneticistas, a sua mais brilhante criação, e que por isso esconjurada quando a população natural se apercebeu que essas criações superavam o seu próprio modelo...A marca do umbigo foi apenas uma das mais belas desculpas para justificar a perseguição de que fomos alvo. O medo da própria humanidade poder ser substituída pelos seu sucedâneos foi tal que a perseguição empreendida contra nós não teve paralelo na história.

Ao fim de pouco tempo os poucos que sobreviveram e valendo-se das suas invulgares capacidades físicas, esconderam-se numa lua obscura, demasiado insignificante para ser notada pela grande civilização humana.

Entretanto os anos foram passando e enquanto a humanidade entrou no seu ocaso nós prosperámos na nossa “terra de ninguém”, adaptando-a mas nunca alterando a atmosfera, e o seu aspecto exterior, de forma que os “nossos pais” continuassem a pensar na nossa não existência. Por isso as cidades eram subterrâneas, de invulgar beleza, mas obscuras e escondidas.

Até que o dia finalmente chegou.

Por muitas centenas de anos que viva nunca me irei esquecer.

Foi numa manhã nebulosa, como todas as manhãs deste lugar, triste e lúgubre, onde o laranja das areias nada acrescentava à desolação que chegou uma enorme nave...com apenas um tripulante.

Ainda vestiu o fato, mas ao sair e ao verificar a inexistência de vida caiu esgotado, ficando deitado nas dunas, meio desengonçado, à espera da morte como nos contou mais tarde.

Descoberto por um dos vigias, foi levado ao hospital mais próximo e instalado dentro duma câmara onde os nossos médicos bombearam algum oxigénio guardado a quando do êxodo.

Mal acordou e quando nos avistou animou-se, levantando-se, mas esbarrando com o vidro que o impedia de respirar a nossa atmosfera venenosa.

Eu fazia parte do grupo que o observou, e por isso posso transmitir na primeira pessoa o horror do olhar deste homem mal compreendeu, um horror gradual, porque primeiro se recusou a acreditar. Numa primeira reacção ele disse-nos que o motivo do isolamento era injustificado, dado não ser portador de nenhum vírus que nos pudesse envenenar, mas quando foi informado daquela barreira ser para sua própria protecção não compreendeu, ficando a olhar-nos com uma expressão de pura incredulidade, por minutos que julguei serem eternos, até um de nós se apiedar dele, se chegar ao vidro levantar a roupa da barriga e lhe mostrar o umbigo.

Foi então que compreendeu.

Desanimado, sentou-se na cama e começou a falar.

Todos os centros humanos tinham progressivamente deixado de existir, até restar o dele, o último durante alguns anos, cada vez mais isolado, até que ele ficou só. Partiu então, à procura de vestígios. O seu percurso durava à tanto tempo que ele lhe perdera a conta. Adivinhando a catástrofe quis confirmá-la, e por isso visitou todos os centros que a memória da sua nave possuía. Desde a Terra, passando por Marte, à lua Europa, às inúmeras estações espaciais e aos planetas do espaço exterior. Todos vazios, com construções semi-abandonadas, vazias de oxigénio que demorariam milénios até desaparecerem. Numa das bibliotecas desse centro conhecera a existência desta lua estéril, só parando nela em desespero de causa, tal como parara noutras.

Ao ver-nos ainda acreditou, mas mal lhe mostramos o umbigo voltou ao seu pesadelo.

Animados pela perspectiva do fim da perseguição algumas milhares das nossas famílias partiram para a colonização desses centros. Afinal possuíamos ainda vestígios e saber suficientes da velha tecnologia e a enorme vantagem de respirarmos quase todo o tipo de atmosferas.

Fiquei eu e algumas centenas, velando pelo último homem.

Fui o que esteve mais tempo com ele, até ao seu fim, tendo conversas sem fim, onde o tema principal ia dar ao fim da raça que nos criara.

Através dele tentei compreender as motivações da perseguição, e, ao mesmo tempo mostrar-lhe a monstruosidade dela.

E ele compreendeu por fim, olhando-nos com a alma de quem compreendeu a sua tragédia e a nossa, olhando-nos como os sucessores, sucessores que o foram não porque se sobrepujaram ao criador, mas apenas porque este de certa forma se suicidara na sua enorme loucura evolucionista, porque se densificara esquecendo-se da inevitabilidade da sua própria morte.

Também nos olhou de uma forma estranha e perturbadora, que interpretei como sendo de uma humanidade desmesurada, olhando-nos como superiores a ele, não por motivos físicos, mas meramente espirituais, porque a perseguição nos dera uma invulgar sensibilidade, capaz de compreender o seu drama, perdoando a raça, e por isso nos tornando mais do que humanos.

Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 14/04/2011
Código do texto: T2908162
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2011. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.