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A RAPOSINHA E O BEBÊ

Aqui, do alto do Cerrado, no Planalto Central, amanhece o dia todo nublado, embora continue com temperatura de 32 ºC, atípica para nossa região. A primavera chega em meio a um clima agreste.

Vento leste de 5 Km/h roça o meu rosto, arrefecendo o calor e a sudorese consequente, que causava certo desconforto, vai aos poucos se aplacando. Pego uma carona no dorso do meu amigo Luft e num piscar de olhos, estamos em Onirópolis, ao centro do Parque das Maravilhas.

Lá embaixo, ainda não são sete horas e Seo Odlano se despede de sua raposa de estimação dizendo-lhe que cuide bem do júnior que está a dormir no berço.

                                        *   *   *

Certo dia, há algum tempo atrás, quando retornava para casa, Rosalinda buchuda, à espera do filho que lhes nasceria, contava nos dedos os meses, semanas e dias que faltavam para a chegada de seu primogênito. Preparara um delicioso guisado com a caça que o marido lhe trouxera há cinco dias. No meio do caminho, ele encontrou uma linda raposinha com dificuldade de locomoção dado a uma armadilha que quase lhe amputara uma das patas. Um sentimento de pena e compaixão o move a pegar o indefeso animal em sem tuntum e o leva pra casa para tratá-lo até que este pudesse se cuidar sozinho. Daí ele o devolveria para a mata, seu natural habitat.

Passadas três semanas, Fox (assim a chamou) ficou completamente curada e, por mais que o Odlano tentasse, ela não quis mais voltar para a selva. Lambia as mãos de seu redentor e nada fazia com que ela se afastasse de casa. De comum acordo, Odlano e Rosalinda acolheram Fox em seu lar. Qual um cão de guarda, a raposinha toda prosa, monta guarda dia e noite em atitude de gratidão. Em troca, tinha casa, comida e carinho. E foi assim a partir dali.

Finalmente, o dia tão esperado é chegado e um misto de alegria, prazer, felicidade, desgosto e desespero toma conta de Odlano. O Júnior chega saudável, pesando 4 Kg, medindo 50 cm de comprimento e um berreiro só. Rosalinda, mal tempo tem de abraçar seu filho, sorrir para ele e desejar todas as bênçãos do Altíssimo sobre ele. Olha para o esposo nevoso que está sem entender o que está acontecendo. Este sente suas mãos cada vez mais frias, enquanto seu sangue lhe foge das veias. Ofegante fala-lhe com certa dificuldade:

_ Od, meu bem! Esperamos juntos este grande dia e nem posso festejar contigo. Eis aqui nosso filho. Não vou poder ouvi-lo me chamar de mãe nem vê-lo crescer, acompanhar cada seu progresso e tal. Cuida dele por mim. Sei que você vai fazer isso com carinho e muita dedicação. Procure uma moça que seja boa filha pra casar, pois certamente será uma boa mãe pro nosso filho! Te amo e sempre te amei. Estou partindo agora e...

Desesperado, ele vê sua esposa morrer após dar à luz a Odlano Filho, o qual é carinhosamente chamado de Júnior. O agricultor não quisera mais se casar, apesar do último conselho de sua amada ao partir. Passa a se dedicar à criação do Júnior, única lembrança viva dela que se fora no momento mais importante de sua vida, no qual se tornara pai. Uma realização mesclada de alegria, tristeza e desespero.

Fox, silente e atenta, processa tudo em sua mente canina, regouga em tristes uivos em condolência à dor que seu dono rumina no íntimo. O jovem pai decide tocar pra frente e seu foco dali em diante é trabalhar para manter a família sã, una e forte. Fox adota Júnior como a um bebê raposino. Fica aflita ao mínimo choramingo do menino. Uma cena doce de se ver. Odlano sempre sai pra roça ao romper da aurora, não antes de ter ordenhado as vacas, feito o café da manhã, ter dado a mamada do filho e todos os triviais rotineiros. Deixa seu rebento aos cuidados de Fox que atentamente ouve-o como se a entender tudo, dando três voltas em pé, em torno de si, pra cada advertência que seu dono lhe dá. E saí tranquilo pro roçado que dista apenas 200 metros de sua casa. Com o vento a favor, é capaz de ouvir o choro do bebê.

Seus vizinhos tentam alertá-lo, sem sucesso, do risco que ele corre em perder o seu filho por deixá-lo aos cuidados de uma simples raposa.

_ Cumpade Od, tome cuidado e se alerte, Ômi! Cê tá louco? Onde já se viu deixar uma raposa tomar conta do filho? Esse animá é uma besta-fera, Sôr! Basta se ver cum fome que ele vai papar seu bruguelo. Iscuta o que tô te dizeno! Quem avisa, amigo é!

_ Qualé, Cumpade Simeão. Tá-me preocupano sem razão. Fox é uma raposa domesticada e ela jamais trairia minha confiança. Boto fé nela. Cê tá-se preocupano à toa.

_ Vá lá, Cumpade! Depois num diga que num lhe avisei!

E era assim todo o santo dia, que Odlano não mais aguentava aquele lenga-lenga, mas, como todo sertanejo de mão calejada, não declina de sua autossuficiência. Certa tarde, ao retornar ao seu lar, Fox corre a se encontrar com ele, explodindo de alegria. O agropecuarista corre também ao seu encontro para lhe dar o costumeiro abraço de boas-vindas. A boca da raposinha ainda escorre sangue fresco ao redor dos lábios e um pouco na sua barba. O desespero lhe toma conta do ser e a vontade que tem é de esganar o pequeno animal domesticado que sai correndo e regougando em direção ao quarto da criança.

O jovem viúvo corre desesperado para seu quarto e ao chegar lá, encontra. ao lado do berço do filho, uma jiboia de 3 metros morta, com a cabeça estraçalhada por Fox que contentemente, de língua pra fora, ofega num misto de cansaço e alegria pelo dever de cuidadora cumprido. O pai antes aflito, agarra seu filho nos braços ainda a dormir. Dá-lhes incontáveis beijos, abraçando-o apertado e não pára de cheirá-lo. Chora agradecido a Deus por ter confiado em sua mascote e não ter dado ouvidos aos vizinhos. Reflete aliviado:  _ "Já pensou se não fosse a Fox?  Meu Pai Eterno! Melhor nem pensar.

                                        *   *   *

E assim, ainda em Onirópolis, diante de tão comoventes cenas, fico feliz de que aquela história não tenha terminado num final ainda mais triste e irresoluto com a morte do fiel animal, como o foi numa palestra motivacional que assisti recentemente. Luft, em vento reverso, dá a deixa de voltarmos. Monto em seu dorso, fecho os olhos e em um quarto de piscada de olho, cá estou, de volta à varanda do meu chalé. Punky e Marie, minhas fiéis escudeiras me rodeiam a lamber-me os pés em alegres boas-vindas. Como é bom poder respirar e contar até dez antes de agirmos e tomarmos decisões precipitadas, na maioria das vezes, sem chance de reversão! Vi também o poder ilimitado do amor capaz de transformar radicalmente qualquer um que o experimente. O amor tudo supera.

A vingança, como diz o dito popular, “é um prato que se come frio”.

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Alelos Esmeraldinus
Enviado por Alelos Esmeraldinus em 23/09/2019
Reeditado em 24/09/2019
Código do texto: T6751859
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alelos Esmeraldinus
Gama - Distrito Federal - Brasil, 94 anos
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Alelos Esmeraldinus