ENTREVISTA DE DÁCIO G. MOURA, AUTOR DE “HAI-KAIS PARA PENSAR”, COM A JORNALISTA EDNA GUIMA DA REVISTA “MUNDO MENTAL”.
MM: A Revista “Mundo Mental” procura destacar trabalhos que contribuam para o aperfeiçoamento espiritual do ser humano. Alguns leitores de MM recomendaram entrevistá-lo. Você considera que o seu trabalho com Hai-Kais atende de algum modo a esse objetivo da Revista?
AUTOR: Espero que sim, pois minha proposta de hai-kais está inspirada em uma concepção de melhoria do ser humano e de uma nova cultura para a humanidade.
MM: Qual é essa concepção a que você se refere?
AUTOR: Como eu já disse um dia, minha formação cultural tem raízes em ideias e conceitos de uma ciência denominada Logosofia, desenvolvida pelo pensador argentino C.B. González Pecotche (1901-1963). Grande parte de meus hai-kais se inspiram nessa concepção.
MM: Você considera que seus hai-kais atendem as diretrizes comumente consideradas nessa área de produção literária?
AUTOR: Considero que, minimamente, sim. É possível que apresentem algumas diferenças. Muitos autores de hai-kais adotam estilos bem diversificados, com muitas diferenças em relação à proposta original de hai-kais, de raiz japonesa.
MM: Você considera que seus hai-kais podem ser vistos como uma obra literária?
AUTOR: Um hai-kai, por sua natureza, pode ser visto como uma “obra literária” de pequeno porte e o grande desafio é produzir algo que contenha uma essência significativa expressada num corpo mínimo. Um bom hai-kai infunde no leitor um pensamento ou um sentimento, uma reflexão ou uma recordação que lhe agrada, que ele sente ser interessante.
MM: Você considera que os seus hai-kais produzem esse efeito?
AUTOR: Suponho que isso não ocorre com todos os hai-kais que escrevo. Talvez uma parte deles produza esse resultado.
MM: Como você definiria os hai-kais, e os seus hai-kais, particularmente?
AUTOR: Procuro pensar nos hai-kais como flores pequenas, singelas, como as que vemos em campos e jardins, às vezes em pontos isolados. Não são flores grandes e vistosas. Exemplo de uma flor que pode representar um hai-kai é aquela denominada Érica, mostrada nessa figura.
Há coisas que não precisam ou não podem ser grandes para que existam e tenham significado. A felicidade, por exemplo, na própria concepção da Logosofia, é “algo que a vida nos outorga através de pequenas porções de bem”.
MM: Por que você fez um livro reunindo os seus hai-kais?
AUTOR: Bons hai-kais fazem sentido sozinhos, isolados. Outros, integrando um conjunto, como num livro, dentro de uma temática, podem promover um tipo de sinergia.
MM: Você disse que os seus hai-kais podem ser usados na escola para promover a reflexão do jovem. Como isso pode ser feito?
AUTOR: Os jovens precisam e gostam de participar de debates, abordando questões polêmicas. Os hai-kais, por apresentarem ideias muitas vezes incisivas em poucas palavras, podem ser interpretados de formas diferenciadas ou gerar dúvidas que mereceriam ser esclarecidas. Isso favorece o debate que pode ser orientado pelo professor na sala de aulas. Grupos pequenos de alunos podem selecionar alguns poucos hai-kais, como tarefa de casa ou na forma de um pequeno projeto, acrescentando questões e informações de pesquisas para propor como debate em classe. Essa atividade pode incentivar o exercício da análise crítica.
MM: Você já usou ou viu alguém usar hai-kais em atividades escolares?
AUTOR: Já usei e já vi outros professores usarem, produzindo grande estímulo nos alunos. Os alunos podem também ser orientados para produzir seus próprios hai-kais e para estudar hai-kais de autores famosos ou hai-kais em outros idiomas. Podem ser realizados concursos de hai-kais focalizando temas específicos. Fazer hai-kais estimula o treinamento da síntese.
Certa vez fizemos algo assim com alunos do ensino médio, abordando o tema “o vestibular”. Os alunos são muito criativos e sempre ocorrem ideias muito interessantes.
MM: Os hai-kais precisam ser temáticos ou abordar temas de livre escolha?
AUTOR: São várias formas. Às vezes hai-kais podem ser assim, flagrantes da vida diária:
Na rua, a colisão
A jovem e o velho
Ficaram amigos
Eu optei por fazer haikais abordando a natureza humana.
MM: Você considera que o hai-kai é uma forma de poema pouco conhecida no Brasil?
AUTOR: Acho que não é assim. A cantora Adriana Calcanhotto, em seu belo livro “Haicai do Brasil” (Edições de Janeiro, 2014, RJ), chega a afirmar: “o haicai é a forma poética mais praticada no Brasil; pratica-se mais haicai hoje do que soneto no século xix”.
Boas músicas / Fazem boas sínteses / São como hai-kais. (Eis um hai-kai).
MM: Você gostaria de comentar ou sugerir algo neste final de entrevista?
AUTOR: Seria interessante uma Revista criar uma seção de hai-kais, abordando temas que podem variar periodicamente, solicitando a contribuição dos leitores. Estimularia a produção de hai-kais.
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(Esta entrevista é ficcional e foi idealizada com o objetivo de destacar alguns conceitos relacionados à prática do haikai. A seguir: texto sobre Orientações para elaborar hai-kais).
Entrevista com Dácio Moura sobre Haikais