SEU NOME É LEGIÃO!

Aos que se sentem sozinhos numa multidão de iguais

*Por Antônio F. Bispo

-Comente aí, vai...!

-Fulano, você ainda não falou o que pensa sobre isso!

-Beltrana, você precisa vir à público e dizer o que acha dessa fala!

-Se posicione mulher! Você precisa escolher um lado. Sua falta de decisão é um risco à democracia (socialismo, liberdade religiosa, direita, esquerda, etc).

-Por sua falta de posição o mundo está do jeito que está...

...

Quando vejo citações insistentes como estas nos perfis de grandes influenciadores e artistas, penso logo em duas possibilidades: a primeira é a de que ali está uma pessoa sem cérebro, sem opinião própria, um real seguidor (no sentido literal da palavra), que não fará ou dirá nada sobre qualquer coisa até que o seu “mestre” se manifeste; a segunda é de que aquela exigência parte de alguém medíocre, mexeriqueiro, mentalmente perturbado e que deseja apenas mais um objeto (pessoa, motivo) para extravasar sua ira irracional, por isso ocultam suas reais intenções fingindo lutar por uma boa causa.

Odiar por odiar é o que algumas pessoas fazem de melhor na vida e a química corporal produzida nesse processo, comumente é confundida com “agir de deus”, “desejo de justiça”, “gesto patriota” ou “capacidade de enxergar o que é melhor para a nossa nação”.

Bem verdade é que também há vários outros motivos para que estes comentários venham a surgir e um deles é justamente fazer parecer notório e confiável o dono do canal (ou fala). Supõe-se que quantos mais pessoas perguntam ou pedem comentários a determinado comunicador, mais competente e verídico este seja.

Perfis fakes ou pessoas pagas podem ser usadas quando esse objetivo precisa ser alcançado no intuito de tornar o influenciador célebre ou mais rico.

Sendo esse último menos comum (será?) e o segundo mais sutil e difícil de ser notado, vamos nos atentar ao primeiro, à ausência de personalidade ou a perca (proposital) desta para agradar a um certo nicho de pessoa ou mercado. Pessoas fazem isso, empresas também o fazem, quando o intuito é vender por vender ou produzir por produzir.

Criar ou manter-se numa bolha é a forma mais confortável que uma pessoa comum encontra para manter-se em sua zona de conforto.

Destruir reputações, criar contendas e procurar tretas desnecessárias é a forma mais corajosa que um covarde arranja para maquiar sua própria fraqueza ou falta de conteúdo.

Potencialmente usada para monetizar, essa é a formula perfeita para construir um exército de abobalhados que farão tudo o que o guru disser se conseguirem formatar um inimigo em comum. Se não tiver inventa. Baixaria não é problema pra boa parte das pessoas.

Já dizia um famoso apresentador de TV:

- Se é de sacanagem que o povo gosta, então é sacanagem que daremos a eles!

Infelizmente, essa uma das mais duras realidade que somos obrigados a constatar: o mercado produz aquilo que o público deseja consumir.

Isso não quer dizer que não possamos muda-lo ou pelo menos plantar as sementes para que outros no futuro o façam.

O caminho da sabedoria quase sempre é solitário e exaustivo.

Por sua vez, no caminhão da malandragem sempre há companhias diversas e numerosas, afinal, safadeza, traição e corrupção são coisas que não dá pra se fazer sozinho. A cumplicidade acompanha os de pouco caráter. Ao flagrar, revelar-se-á os outros.

No processo de construções dos grandes ídolos sociais dos tempos presente, os valores básicos da moralidade podem ser confundidos e os defeitos passam a ser vistos como se fossem virtudes, principalmente há lucro fama e poder como recompensa. Alguém passa a ser “virtuoso” ou “célebre” não pela bem feitoria ou sabedoria expressa, mas pela quantidade visualizações, curtidas e comentários obtido por meio de uma publicação.

Sendo assim, até o profano pensa que apenas apontando o mal alheio se tornará automaticamente um justo, mesmo nunca optando pela prática do bem ou da justiça.

O hipócrita (principalmente o religioso) procurará expor com estardalhaço o defeito dos outros com o intuito de esconder aquilo que de igual ou pior tem feito ou deseja fazer, mas não tem coragem de assumir.

O esquizofrênico sempre verá demônios e males onde não existem. As soluções por ele apontadas serão surreais assim como suas causas. Forças cósmicas e conspirações diversas costumam povoar as narrativas dos que por essa linha se baseiam. Nada plausível, nada concreto, nada provável...A solução nunca virá e mesmo se viessem seriam interpretada pelos tais como sendo uma armadilha do suposto inimigo. Estes sempre adiam a própria vitória ou derrota do inimigo para que mais tempo possam passar nesse teatro bizarro, onde eles são atores da própria peça. Se o problema (imaginário) deixar de existir, esvair-se-á suas razões de viver e a vida simples, sem misticismo ou conspirações, já não teria sentido algum. Eles gostam de manter-se em constante estado de loucura e tentam por nesse nível quantos sejam possível para que a repetição da mentira pareça verdade aos seus próprios olhos.

Já o fanático (político ou religioso) demonizará por completo tudo aquilo que vier do outro não importa o que seja, ainda que seja um projeto eficaz de governo. Estes são capazes de tornar qualquer ambiente pacífico num verdadeiro inferno e de maquiarem o próprio lugar fétido que construíram com suas ideias e ações, transformando-o por meio de suas fábulas num lugar (pessoa, ideal) mais maravilhoso de todos. São capazes também de absorver e perdoar de forma instantânea inimigos de longas datas, deste que este agora professe sua fé ou opinião política. Apenas isso e nada mais. Se a pessoa era (ou ainda é) um crápula, um ser hediondo e pavoroso, isso não importa. Ao redimir-se publicamente ao adversário, esse “novo convertido” será agora uma nova criatura em um santo ou ideologia política qualquer.

A sanidade de uma pessoa morre toda vez que está “se converte” ou “nasce de novo” segundo o fanatismo político-religioso.

Comparo essa falta de personalidade própria de alguns seguidores de bolha, a um texto bíblico cujo personagem principal não tinha domínio do seu próprio corpo, fala e ações. Sendo fruto do querer de uma legião, ele fazia ou falava coisas perigosas que punha em risco sua própria segurança, bem como a de seus conterrâneos.

Com certeza, se você já esteve mais de 5 vezes em uma igreja evangélica (ou católica) já deve ter ouvido essa narrativa.

Trata-se do capítulo 5 do livro de Marcos. Conta-se lá a estória de um homem residente de Gadara que era vítima de possessão demoníaca (segundo a fé cristã). Centenas de demônios o atormentavam, o impelia à coisas ruins e o fazia sofrer.

A sociedade o temia devido a sua extrema força e hábitos bizarros. Era um ser excluso, por isso morava em cemitérios e comia todo tipo de porcaria, já que ninguém o queria por perto.

Quando Jesus desembarcou em sua cidade, ele o viu e foi à sua procura gritando, pedindo para que não o importunasse. Jesus perguntou qual era o nome dele e de pronto ele disse: SOMOS UMA LEGIÃO, POR QUE SOMOS MUITOS!

Após se apresentar, a suposta entidade pediu para que o cristo não a mandassem embora daquelas terras. Jesus então a pôs em uma manada de porcos e a fez precipitar-se de um penhasco ao mar, matando todos eles.

Depois desse feito, o homem foi liberto e jesus o mandou para casa anunciar as coisas que ali ocorrera.

....

CONTINUA...

Texto escrito em 12/10/22

*Antônio F. Bispo é graduando em jornalismo, Bacharel em Teologia, estudante de religiões e filosofia.

Ferreira Bispo
Enviado por Ferreira Bispo em 12/10/2022
Código do texto: T7625936
Classificação de conteúdo: seguro