O hábito do pensamento

NARRATIVAS CONCORRENTES

Você já passou por uma conversa acalorada em que você apresenta uma narrativa e a pessoa com quem você está conversando discorda de você apenas apresentando uma narrativa alternativa? Daí você repete a sua narrativa e a pessoa repete a narrativa dela? Dependendo do envolvimento no tema este ciclo pode se dar diversas vezes com pequenas alterações na maneira com que cada narrativa está sendo contada. Gosto muito de expor minhas ideias (tanto que escrevo todo dia) e gosto de ouvir posições diferentes. Então é bem comum eu entrar neste ciclo, às vezes longo, de mútua repetição de narrativas diferentes e incompatíveis, ambas disputando a legitimidade, mas nem sempre isto é fácil ou prazeroso.

DEBATES APAIXONADOS

Tais debates às vezes são um pouco perigosos, quando porventura os tenho com alguém sem muita intimidade é comum a pessoa ficar extremamente violenta. Debatendo direitos humanos uma pessoa já me ameaçou de porrada; debatendo economia com a namorada de uma amiga, enquanto esperávamos sua namorada concluir seus exames ela gritou um xingamento no meio de um hospital. Alguns exemplos mais amenos foram com o Renato e com o Antônio, discussões sobre a existência objetiva da matemática, qual a ética mais apropriada ou qual o sistema econômico que melhor explica o mundo em que vivemos. Mas, sem dúvida, o momento em que mais vivi isto foi com uma ex namorada, em relação à nossa vida conjugal eu apresentava uma narrativa e ela apresentava outra, diversas e diversas vezes ficávamos nos repetindo. Até determinado ponto o ciclo é informativo (uma vez que contar a mesma coisa com uma abordagem ligeiramente diferente é didático). Mas por que ficamos nos repetindo até a exaustão? A explicação que ofereço veio a partir da leitura de dois autores.

CHARLES DUHIGG e DANIEL KAHNEMAN

Creio que Charles Duhigg não tinha esta intenção e nem se deu conta, mas no livro ‘O poder do hábito’ ele revoluciona o sentido de ‘hábito’: é tudo aquilo que conseguimos fazer sem esforço. Curiosamente, esta característica é comum ao que Daniel Kahneman chama de sistema um (o sistema intuitivo). Duhigg fala de hábitos, Kahneman de pensamento. Neste ensaio percebo que esta situação que me intriga pode ser explicada recorrendo a estes dois autores. Mas antes, uma pequena digressão, como se dá um debate em que nos esforçamos para entender a narrativa do interlocutor? Quando depreendemos esforço cognitivo usamos o que Kahneman chama de sistema dois.

DEPREENDENDO ESFORÇO EM ENTENDER/CRIAR UMA NARRATIVA

Em um debate em que usamos o sistema dois (o minucioso, aquele em empregamos esforço) para entender o que uma pessoa está falando, precisamos nos concentrar, entender o que a pessoa está dizendo: qual o contexto, quais são os pontos mais relevantes e como se conectam, o que a pessoa porventura deixou passar. Isto em linhas gerais, não há um algoritmo que descreva como é o esforço em entender a narrativa alheia. Entretanto, o mérito do que a outra pessoa está dizendo deve ser examinado. O que, em se tratando de uma narrativa estranha, pode ser extremamente difícil. Para ficar em um dos exemplos que citei, o Antônio passou anos entendendo as relações econômicas a partir de uma perspectiva marxista.

APENAS RECORRER À PRÓPRIA NARRATIVA É MAIS FÁCIL

O Antônio usualmente faz um grande esforço para entender o que as outras pessoas falam ou o que ele lê. Mas o mais fácil (e cada um de nós cai no que é mais fácil às vezes) é nem entrar no mérito do que a outra pessoa está falando. Para entender uma explicação liberal, por mais que ela seja simples, Antônio precisa fazer um esforço extremo para não recorrer à narrativa alternativa a qual está acostumado (marxista). E o pior, para algumas pessoas a reação ante uma narrativa é de raiva, como se uma narrativa fosse um ataque pessoal.

SE OFENDENDO COM UMA NARRATIVA

Tenho que admitir que já me comportei assim, certamente mais de uma vez. A que me lembro mais claramente foi em um almoço que minha chefe me pagou (na época eu fazia estágio) e ela defendeu o neoliberalismo. Discordei de tudo o que ela falou sem nem sequer entender o que ela falou. Ironicamente, atualmente minhas posições seriam identificadas como muito mais liberais do que aquelas que ela apresentou. Mas por que reagi daquela maneira? Por que motivo não me dei ao trabalho de dedicar atenção e esforço ao que ela dizia? Defendo que é por hábito, mas com ‘hábito’ conforme definido por Charles Duhigg.

HÁBITO

Eu pensava em hábito como aquelas práticas comuns. Acordo todo dia entre cinco e meia e seis meia e vou escrever, este é meu hábito. Como banana amassada com canela, aveia e sal: hábito. Vou para o trabalho a pé: hábito. Duhigg, entretanto, define hábito de maneira bem diferente: é aquilo que fazemos sem esforço, que é automatizado. A mera capacidade de andar sem esforço é um hábito. Você digita sem olhar o teclado? Então digitar é um hábito. Eu dirijo esporadicamente (menos de uma vez por semana). Não tem regra para a situação em que vou dirigir, mas para o Duhigg dirigir é um hábito, pois dirijo sem esforço. O hábito consiste em passar as marchas, olhar o retrovisor, dar seta, fazer controle de embreagem, tudo isto sem pensar. Eu dirijo com a mesma facilidade com que ando ou com que leio. Não preciso me concentrar em cada letra, formar palavras é um hábito tão forte que seria muito difícil eu ver “chiclete” e evitar associar com o significado ao qual ela se refere. Eu não conseguiria ver “chiclete” e ver apenas um amontoado de letras, o hábito é tão forte que penso logo em “goma de mascar”. Defendo que é este o mecanismo que explica por que o debate se dá como um diálogo de surdos, cada um apresenta sua narrativa sem conseguir de fato entrar no mérito da alternativa concorrente: hábito. Quando temos nossa própria narrativa, entender a outra é tão difícil como ver ‘chiclete’ e não ler ‘goma de mascar’. Podemos pensar em uma narrativa como um sistema de irrigação.

SISTEMA DE IRRIGAÇÃO / SISTEMA DE EXPLICAÇÃO

É como se uma narrativa fosse a irrigação de uma fazenda. Uma pessoa irriga pela superfície, coloca um enorme pivô por cima e fica girando ao redor da plantação e jogando água. Uma outra pessoa irriga por gotejamento, um encanamento que chega a cada planta e derrama a quantidade exata exata necessária para que cresça. Uma explicação é como o encanamento que leva a água da barragem (a causa) até a plantação (a consequência). A maneira com que isto acontece é a narrativa. Quando estou em um diálogo e apresento uma narrativa, gostaria que quem me ouve conferisse se a barragem foi feita no melhor lugar, se o sistema de irrigação que eu uso é o mais adequado. Idealmente ela vai fazer alguma crítica em relação à disposição dos canos ou mesmo vai me avisar que todo o sistema de irrigação é uma porcaria (por motivos relacionados a ele). Entretanto é usual que ao invés disto ela faça algo muito menos trabalhoso. Ela simplesmente me explica como é o sistema de irrigação que ela usa.

PERTINÊNCIA DA METÁFORA DO SISTEMA DE IRRIGAÇÃO

O que a metáfora evidencia é que já foi feito muito esforço para construir o próprio sistema de explicação. Uma narrativa é algo trabalhoso de se fazer. Inclusive à medida em que usamos determinada explicação a aprimoramos. Cada vez que usamos uma explicação identificamos os vazamentos e os contemos, trocamos o encanamento por calibre mais grosso para possibilitar um fluxo maior de água… O grande ponto é que muito esforço foi feito em prol de uma narrativa. Quando as narrativas são relativamente semelhantes, é possível reaproveitar uma parte do sistema de irrigação - de maneira que o aprendizado é mais fácil do que começar do zero. Entretanto, quando o sistema de irrigação está construído sob concreto, ele impede a construção de um novo sistema de irrigação: é cimentado pelo hábito. A explicação se torna tão habitual quanto a leitura. Evitar uma explicação pode ser tão difícil quanto ver ‘chiclete’ e deixar de pensar na goma de mascar. Tal como um sistema de irrigação, uma explicação demanda esforço para construí-lo, ela é cimentada pelo uso e demanda um grande esforço para substituí-la. Agora, por que vamos substituir uma narrativa já cimentada? Daniel Kahneman chama a atenção para duas maneiras através das quais construímos nossas crenças.

SISTEMA RÁPIDO E SISTEMA DEVAGAR

Segundo Kahneman há uma maneira extremamente trabalhosa de rever nossas narrativas, a análise cuidadosa de cada argumento, cada relação de causa e consequência, a análise entre a narrativa e aquilo sobre a qual ela trata… enfim, a análise racional. A racionalidade é tão trabalhosa que ela traz consequências fisiológicas: dilatação da pupila, aceleração do batimento cardíaco. Ao contrário da imagem que temos de nós mesmos, a nossa racionalidade é usada pontualmente. Usualmente usamos a intuição, ela é rápida, automatizada. Dito isto vou contar um caso que ocorreu comigo.

CONVERSÃO POR REPETIÇÃO

Eu estava na cozinha do trabalho conversando com três pessoas e comentei que estava usando um casaco que pertenceu ao meu recém falecido avô, comentei da saudade que sentia e que, neste momento, eu amaria ser religiosa, amaria acreditar que eu encontraria meu avô após a morte. As pessoas ao meu lado estavam sensibilizadas e viram a oportunidade de me ajudar. Então as três começaram a falar algo como “É só ter fé, você vai ver seu avô!”. O que me chamou a atenção é que não havia argumento racional possível, era mera repetição e aquela sensação de que todas acreditam. Este é um mecanismo de conversão a uma narrativa através do sistema um, o sistema intuitivo, emocional. O que leva a uma narrativa não é o seu mérito, mas a repetição e a credibilidade de quem a profere e a afetividade pelas pessoas que nos apresentam a narrativa. Isto não quer dizer, necessariamente, que aquilo que aprendemos através do sistema intuitivo esteja errado ou que aquilo que entendemos a partir do sistema lento esteja correto.

SISTEMA LENTO (RACIONAL) NÃO GARANTE PERTINÊNCIA DA NARRATIVA

O sistema lento não garante que os argumentos sejam consistentes (como podemos ter certeza de que não deixamos passar nenhum erro?), além disso, mesmo um discurso racional se assenta em bases muito frágeis. Daniel Kahneman chama o sistema rápido de intuitivo, o sistema lento de racional. O mero fato de estar usando o sistema intuitivo não quer dizer que ele não tenha sido construído com bases racionais. Uma explicação que se usa muito se torna automática, intuitiva. Aposto que Einstein explicaria a relatividade geral usando o sistema intuitivo. Por mais cuidado que tenhamos é impossível garantir que não tenha algum erro na cadeia de causa/consequência. Ou ainda, as informações a partir das quais estamos trabalhando podem ser falhas. Além disso, a racionalidade absoluta é impossível, o que é o tema da série de ensaios ‘O Todo Incognoscível’ (observação no final do ensaio). Somos muito menos racionais do que imaginamos, ainda assim a razão desempenha um papel importante em nossas vidas. Quem garante que as premissas são adequadas? E se forem, quem garante que as premissas das premissas são adequadas?

O PAPEL DA RAZÃO

Se a racionalidade não garante a pertinência das conclusões, qual o papel da razão? A análise racional é um esforço para a consistência interna da narrativa (a análise racional pode achar pontos dentro de uma narrativa que contradizem um ao outro e excluí-los ou adaptá-los). Desta maneira é um esforço em conferir a coerência entre os fundamentos que está sendo dito e sua conclusão. A sistematização deste esforço deu origem à ciência, mas também à filosofia e à teologia. Embora algumas religiões defendam que temos acesso às divindades pela fé, foi necessário muita razão para chegar a esta conclusão. Embora existam profissionais em usar o sistema dois (racional), a razão está ao alcance de cada um de nós.

RAZÃO x AUTORIDADE

Nós mesmos, pessoas comuns, podemos usar a razão. Digamos que um médico nos prescreve um remédio para uma doença. Podemos usar a nossa razão para verificar se aquele remédio é apropriado checando os estudos que levaram à indicação daquele remédio. Um exemplo atual é a cloroquina, diversos médicos a receitaram para a COVID 19, será que esta causa (uso de cloroquina) leva a esta consequência (cura do CODIV)? A OMS diz que não há evidências de que o uso da droga ajuda na recuperação. Mas digamos que ainda assim não estou convencido. Posso eu mesmo ler os estudos e chegar à minha própria conclusão (embora neste caso a posição da OMS seja suficiente para mim). Desta maneira a razão e autoridade se excluem mutuamente. No exemplo acima a autoridade do médico foi insuficiente para que eu tome cloroquina, eu mesmo fiz minha investigação. Já a autoridade da OMS foi suficiente para que eu parasse de pesquisar. Se eu desconfiasse da OMS eu leria os estudos a respeito da Cloroquina e chegaria às minhas próprias conclusões antes de decidir por tomar (ou não) o remédio. A razão é limitada pela autoridade, a autoridade é limitada pela razão. Este é um dos motivos pelos quais me irrito quando me dizem que me falta legitimidade para conversar sobre determinado tema e que, portanto, eu deveria me calar.

ESCALADA PARA A MAIOR AUTORIDADE

O conhecimento disponível no mundo é tão extenso que é impossível alguém estudar, investigar, questionar tudo. Desta maneira, pessoas com domínio profundo em seu campo de atuação se fazem necessários. Entretanto, as informações estão extremamente acessíveis. Tenho acesso a canais de economia dos estados unidos e a canais de geopolítica da espanha, bem como acompanho um canal de história de um japonês e canais de filosofia da Polônia e dos EUA, tenho acesso a um profissional que fez mestrado, doutorado e pós-doutorado em glúteos, no instagram tenho acesso a outro profissional que é fisioterapeuta responsável por tratar profissionais que disputam o título mundial de levantamento olímpico. Quando uma instrutora da minha academia dá uma instrução divergente das instruções que vejo no youtube não tenho dúvida, sigo as do youtube. Curiosamente, depois de alguns anos vi que as orientações que eu sigo viraram padrão. Neste parágrafo ponderei entre uma autoridade menor (instrutor de academia com apenas graduação) para uma autoridade maior (fisioterapeuta de elite). Este recurso, apelar para a maior autoridade, se dá tanto mais quanto menos conheço do tema. Em temas que estudo muito me sinto autorizado para discordar mesmo de pessoas com pós doutorado e que trabalham nas maiores organizações do mudo.

A LEGITIMIDADE DA AUTORIDADE

Acompanhei um pouco uma excelente economista brasileira que trabalha na ONU. Em defesa do seu ponto de vista ela sempre repetia: desconsidere pessoas sem formação acadêmica, elas falam sem conhecimento de causa. Desta maneira apenas pessoas com a chancela instituições tem direito à fala, quanto mais prestigiosa a instituição, maior a legitimidade em falar de determinado assunto. A outra alternativa, defende ela, é cairmos nas redes de fake news. Ou seja, contra informações deliberadamente falsas e que causam confusão, a saída é ouvir apenas jornalistas (legitimidade proporcional à tradição do jornal) e doutores (legitimidade proporcional ao prestígio da universidade em que estudou). É claro que isto esbarra no problema do conhecimento que mais me interessa: a regressão ao infinito. Quando duas instituições prestigiosas (digamos, UNICAMP e UnB) divergirem, em qual vou confiar? Preciso de uma autoridade maior, seria o MEC (Ministério da Educação e Ciência)? E se o MEC divergir do ministério a educação de Portugal, em qual vou confiar? Na ONU? E quem legitima a ONU? Particularmente confio na ONU, no MEC, na UNICAMP e na UnB, se um cientista de alguma universidade recomendar um alimento devido a suas propriedades nutricionais vou dar preferência a este alimento. Entretanto, a fé que eu deposito nas autoridades é menor do que a fé que deposito na racionalidade. Apelar para a autoridade é usar o sistema um, intuitivo. Apelar para a razão, fazer um esforço para entender o que dizem e qual sua fundamentação, é o sistema dois, racional. Nunca é demais lembrar que a autoridade pode estar equivocada.

SEGUINDO AUTORIDADES CEGAMENTE

Se sempre confiássemos na autoridade no século XI defenderíamos as cruzadas, deveríamos defender que a “raça” ariana era superior (no contexto da Alemanha nazista de 1939), deveria defender que o agachamento só deve ir até o ponto em que o joelho chega na linha dos pés (há dez anos atrás em diversas academias de musculaçã), que tomar cloroquina pode combater corona vírus (caso fosse em algum médico que acredita nisto, mesmo após a OMS se posicioonar contra), que apenas imprimir dinheiro e direcioná-lo direitinho resolve problemas econômicos fundamentais (atualmente, 03/2021). O que nos leva ao problema, quando devemos apelar à autoridade para legitimar nossas crenças?

COMO DECIDIR PELO QUE ACREDITAMOS

Este assunto é minha paixão e é um dos principais temas que me fez me interessar por filosofia. Ao longo dos meus ensaios entro neste assunto diversas vezes. Qual a base do nosso conhecimento? Qual o critério para decidir por uma teoria em detrimento à outra? Será que aquilo que eu entendo é o mesmo que está escrito? Aquilo que está escrito tem um significado objetivo? Ou será que o conhecimento se dá de acordo com o contexto? Nos meus ensaios você verá sobretudo ideias minhas (só escrevo quando acho que acrescento algo original ao conteúdo). Mas adianto que os autores que mais aprecio são Karl Popper, David Hume, Daniel Kahneman, Nelson Goodman, Gustavo Gollo (meu pai), Jordan Ellenberg, Nassim Nicholas Taleb, atualmente estou lendo Mises e Douglas Hofstadter com bastante entusiasmo. Também tenho muito interesse por economia e percebo que diversos conceitos filosóficos podem ser tratados com muita clareza a partir de conceitos econômicos. Por exemplo, em um ensaio anterior fiz um paralelo entre o conceito de lastro de moeda e lastro do sentido. Curiosamente descobri (pesquisando sobre o tema) que foi o próprio David Hume quem inventou o conceito de lastro!!!!

CONCLUSÃO

Em uma conversa é usual depreendermos pouco esforço em entender a pessoa com quem conversamos. O usual é recorrermos à nossa própria narrativa. Os caminhos que levam de um ponto a outro estão concatenados conforme uma narrativa cristalizada pela experiência, ela é habitual. Às vezes é tão difícil entender uma outra pessoa como se deparar com algumas letras, tais como ‘c, h, i, c, l, e, t, e’ e não ler “chiclete”. Entender outra narrativa estranha (sobretudo quando já temos uma pronta) é extremamente difícil. Ao invés de entender em profundidade o que a pessoa ou texto quer dizer, o usual é recorrermos à nossa própria narrativa e descartar a narrativa alternativa sem fazer tanto esforço para ver qual é a mais pertinente. Na impossibilidade de examinar com cuidado todas as narrativas que se apresentam em nossas vidas recorremos ao sistema um (intuitivo). Através dele acreditamos naquilo que é dito mais vezes (repetição, sentimento de unanimidade) ou na autoridade de quem profere informação. Neste contexto há quem defenda que devemos ter como maior fonte de legitimidade a autoridade de quem apresenta a narrativa. Isto leva a um regresso ao infinito (qual é a autoridade última que devemos recorrer em busca de legitimidade). Além disso ficamos à mercê das instituições da época - o que nem sempre é de acordo com nossos valores. Assim defendo que a autoridade última a que devemos recorrer é a razão. Entretanto, haja visto que não há fórmula para o uso da razão na construção do conhecimento, o uso da razão também é um recurso limitado.

Obs em SISTEMA LENTO (RACIONAL) NÃO GARANTE PERTINÊNCIA DA NARRATIVA : É impossível analisar a causa da causa da causa de alguma coisa com todo o cuidado necessário (a explicação de terceira ordem). E caso consigamos fazer isto, ainda teríamos que explicar a causa de quarta ordem!

IDEIAS CENTRAIS DO TEXTO:

NARRATIVAS CONCORRENTES

A percepção de que em conversas é comum a existência de narrativas concorrentes, ao invés de uma análise profunda e esforçada de uma determinada narrativa.

SISTEMA DE IRRIGAÇÃO / SISTEMA DE EXPLICAÇÃO

A percepção de que um sistema explicativo demanda tanto esforço para ser criado como um sistema de irrigação. Muitas vezes os sistemas de explicação são incompatíveis, só é possível acreditar em um. O sistema é cimentado pelo hábito, assim é necessário muito esforço para deixar de usar um sistema explicativo (uma narração) com a qual estamos acostumados.

SISTEMA RÁPIDO/ SISTEMA LENTO

Sistema rápido é aquele cimentado pela prática, aquele dispensa qualquer esforço para ser usado. A escolha em uma crença através do sistema rápido se dá por empatia, por repetição e por autoridade. Sistema lento é aquele no qual dedicamos esforço, a escolha através do sistema lento se dá examinando a narrativa alternativa em seu próprio mérito.

RAZÃO x AUTORIDADE

Quanto mais usamos o sistema lento (aquele em que depreendemos esforço) menos usamos o sistema rápido (aquele em que a autoridade é um critério para decidirmos se aceitamos determinada narrativa).

LEGITIMIDADE DA AUTORIDADE

Optar por aceitar uma informação a partir da autoridade nos traz a um problema recorrente no estudo do conhecimento: a regressão ao infinito. Qual instituição dá legitimidade a uma pessoa (ex: UFRJ possui legitimidade auferida pelo MEC), qual instituição dá legitmidade ao MEC (digamos, a ONU dá legitimidade ao MEC). Quem dá legitimidade a ONU? Esta busca pode se dar infinitamente.

AUTORIDADE PODE ERRAR

Diversas autoridades já erram ao longo da história, desde países, religiões, até professores, médicos ou instrutores de musculação.

RACIONALIDADE É NECESSARIAMENTE LIMITADA

É impossível garantir através da racionalidade que determinada narrativa está correta. Primeiro porque, por mais que nos empenhemos, é impossível ter certeza de que não houve um equívoco em nosso pensamento. Da mesma maneira podemos avaliar a fundamentação com cuidado, mas necessariamente vamos esbarrar em premissas (que podem estar erradas).

Chico Acioli Gollo
Enviado por Chico Acioli Gollo em 15/03/2021
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