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DO GLAMOUR PANDÊMICO AO CONTRASTE DO MEIO

Desde que se iniciou a atual pandemia pela "Terra Brasilis" tenho tido um sentimento que me inquieta e que, na verdade, nem sei se vou conseguir manifestá-lo por inteiro em texto.
É que, às vezes, nos faltam palavras... à nossa indignação frente ao inacreditável.
Decerto que uma pandemia dessa monta, a protagonizada pelo novo coronavírus e que culmina em algumas formas graves de  COVID 19, assume uma configuração diferente num país como o nosso, tão diverso em tudo, o qual não vou qualificá-lo pormenorizadamente porque seria impossível fazê-lo com precisão.
Quero apenas instigar a observação e o pensamento em situações várias.
Vou  me basear no  #fiqueemcasa, uma "hashtag" cujo canal  linca o mundo todo numa proposta de prevenção do aumento súbito da velocidade de contato e propagação do vírus. Algo necessário dentro da administração da logística pandêmica.
E, obviamente, mesmo ficando em casa, todos nós precisamos nos reinventar no nosso "modus operandis" mais seguro e eficiente para o mínimo sustento da vida.
A situação é triste e bem diferenciada na tal tristeza e não seria diferente frente ao nosso cenário de miséria assustadora.
As comunidades, a exemplo, em crescente no nosso país, são a maior preocupação nesse contexto: pessoas que precisam do trabalho diário cujo ganho do dia banca a sobrevivência do mesmo dia; e que não dispõem de condições sociais propícias para a perfeita prevenção .
Mas a hashtag, a princípio, parece ignorar a tal realidade descortinada pela pandemia, a de total abandono social...que  não é novidade, é apenas a deflagração de algo que ninguém segura.
Porque se pudessem, segurariam as cortinas das barbaridades dos déficits.
A televisão então, se reinventa da mesmice há justos três meses:a #ficaemcasa virou produto de luxo...uma grife para poucos.
Cada famoso inventa a sua para chamar mais a atenção da audiência.
Tem famoso no vaso sanitário...na sua live #ficaemcasa.
Bacana. Criativo.
Curioso que os que gritavam por "abaixo privilégios" hoje também são os privilegiados que ficam em casa.
Os que não ficam também foram taxados de "anti-sociais " por parte de alguns das mídias que continuam a trabalhar normalmente sem uma redução significativas de proventos. Assim é mais fácil.
Enquanto uma faixa da população fica em casa a outra se desdobra para conseguir superar os nasceres e pores dos sóis. Um a um numa flagrante performance de heroísmo e coragem.
Afora a população das ruas cujo cenário social é crescentemente apocalíptico.
Nas telinhas tudo virou mídia dos heróis dos entretenimentos, desde os que ensinam com doutorado como se  lavar as mãos até o se fazer pão.
triste é sentir que a miséria social alicerça todas as tentativas dos furos de IBOPE.
A caridade, em muitas das vezes, mais parece maquiagem dos nítidos  interesses comerciais  futuros.
Todos viraram santos das boas causas e policiais  do comportamento alheio.
Enquanto isso, dia desses, ligo a televisão numa  tela que entra na audiência popular pelas manhãs, duma pauta ruim, tudo tirado e comentado das bobagens da internet, mas...dizem, ser dum jornalismo super preocupado e misericordioso com a situação social dramática  do nosso país; a de pessoas a margem da dignidade humana, que rogam por uma cesta básica, a de pessoas que passam crônica humilhação nos caixas dos bancos para uma ajuda mensal de sobrevivência, a de pessoas nos hospitais de campanha lutando pela vida, enfim tudo que já conhecemos.
E qual era a pauta que me surpreendeu? A da falta de senso, de empatia, o tal "simancol"  em falta total sobre o que acontece ao derredor.
Uma figura famosa, mostrando na programação da hora o  seu glamouroso e digno e merecido #FIQUEEMCASA no trabalho.
Um tipo de HOME OFFICE ecológico, de proventos milionários às surrealidades da vida dum povo destruído.
Nada contra o justo direito. Falo do contexto das dores das horas presentes.
Do contraste "industrial midíatico" que nos permeia nessa triste pandemia...e mostra uma doença pior que vírus!!
Uma mídia que tudo sabe e pouco agrega.
Ora, que maravilha.
Um período a ficar em casa, mais que correto, mas não possível na comunidade onde falta tudo, obviamente, onde é preciso se arriscar para minimamente sobreviver.
A mesma emissora que hoje, indignada,  mostra pessoas se alimentando de "comida limpa dos lixos" mostrou também um confortável #fiqueemcasa duma famosidade na sua fazenda, no seu "agronegócio particular", com produção de queijos do gado próprio feita pelos "colaboradores", com receita de doce de leite, de pães, e ainda com direito a rezar em nome da fé na sua catedral construída dentro da sua propriedade.
Tudo muito lindo, louvável, sossegado, merecido, digno...mas não , na minha opinião, algo para entrar nos locais da miséria, a  ser mostrado numa hora de desespero em que as pessoas esmolam por socorro social...em massa.
Pode soar como escárnio...esse contraste gritante de condições de lares...ficantes em casa.
E o mais curioso: Muitas  mostras do glamour que rendem Ibope e dinheiro justamente pela audiência dos que ,a despeito de estarem em casa com a televisão ligada no barraco...pouco ou quase nada têm nem para a alimentação do dia.
Aparatos "gourmets" e receitas cujos ingredientes não cabem nas situações de vida...da maioria. E se coubessem seria mais um caos nas já caótica situação da saúde pública cardiovascular!
Tempos de glamour de contrastes chocantes. Tempos de hipocrisia. Tempos de total falta de empatia social.
De pautas pseudo caridosas, vaidosas e pequenas; tempos de se encher linguiças na mídia com as tripas das dores da audiência anestesiada.
Fica aqui meu pensamento e a minha conclusão: Do glamour pandêmico ao nosso dramático contraste do meio, tudo por aqui, é perfeitamente explicável.
Basta querer olhar e entender as contradições que parasitam e que rendem fortunas sem nada devolver a quem realmente precisa.
#fiquemosemcasa...sim, mas que nunca percamos a noção do meio que provê as surrealidades que nos dizimam.
O novo vírus é só mais uma delas.
MAVI
Enviado por MAVI em 26/06/2020
Reeditado em 26/06/2020
Código do texto: T6988383
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
MAVI
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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