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VOCÊ TEME A MORTE E A EXTINÇÃO DE NOSSA ESPÉCIE? POR QUÊ?

Reflexões sobre assuntos que normalmente evitamos encarar.
*Por Antônio F. Bispo
  Diante dos acontecimentos recentes, a pergunta acima poderia não ser muito apropriada, pois causa desconforto e pode ferir os sentimentos dos que já perderam entes queridos ou de todos que temem perde-los cedo ou tarde. A intenção desse post não é de aumentar a culpa ou a dor de quem quer que seja, mas de procurar um possível alivio por meio de indagações que nos recusamos fazer quando tudo estar bem ou de fatos que insistimos em negar mesmo estando bem diante de nossos olhos.
  Inventamos a religião justamente para isso: para mentirmos a nós mesmos, criando centenas de versões alternativas de realidades paralelas para evitarmos encarar aquilo que a todos nós ocorrerá, cedo ou tarde.
   Inventamos os diferentes tipos de céus projetando nestes a extensão do nosso gozo terreno ou como a projeção de uma felicidade que nunca tivemos e fabricamos os diferentes tipos de infernos para colocar nestes locais todos os nossos desafetos, os que realmente nos feriram de alguma forma ou todos quantos  que discordam de nossas “verdades”.
  Entre tantas espécies de que habitam esse planeta, a arte de criarmos fantasias e a ela nos inserirmos parece ser uma patente registra do animal homo sapiens. Somos mestres nestas artes e com isso aumentamos o nosso próprio sofrimento e o sofrimento alheio. Perdemos a maior parte de nossas vidas em projeções futuras surreais, evitando encarar fatos reais, e quando esses já se tornam inevitáveis, o medo do que vem depois e o remorso de uma vida mal vivida é o que mais nos perturba.
  Por mais curta que a vida seja, um escravo da religião poderá perder os melhores dias de suas vidas sofrendo com ameaças de demônios imaginários, e na hora da morte esse medo poderá aumentar com receio de que o seu deus fiel, justo que nunca erra, se confunda e o lance em um tormento eterno apesar de uma vida inteira de servidão desta pobre criatura. O céu é tão real, tão lindo, tão maravilho e tão verdadeiro, que a maior parte dos que neles acreditam temem deixar essa “vida dura” para conhece-lo e nele habitar. Prova que não há certeza alguma, apenas uma falsa esperança nutrida coletivamente, uma mentira que contamos a nós mesmos para parecermos melhores que tantos outros.
  A morte certa é um desses fatos inevitáveis que evitamos pensar. Cedo ou tarde ela levará um a um de nós ou a todos nós de uma só vez de uma forma ou de outra. Não irá nos levar para um inferno eterno ou para um paraíso fictício, até por que a morte é apenas um estado (não uma pessoa), assim como estar vivo também é. Apenas seremos “transportados” para a inexistência física até sermos esquecidos totalmente como se nunca tivéssemos existidos, ou até sermos “imortalizados” pelas diferentes versões narrativas que a nosso respeito se farão. Mas toda a nossa saga quanto as versões que desta se farão, são efêmeras se comparadas outras coisas nesse imenso universo. Tudo é apenas partículas de poeira na vastidão do cosmo.
  Outro fato altamente provável de acontecimento a curto ou longo prazo é a extinção de nossa civilização ou até de nossa espécie por inteiro. Possa ser que sejamos substituídos por outro tipo de humano mais avançados ou retrógrados que nós mesmos, ou possa ser que simplesmente sumamos sem deixar vestígio algum a depender do tamanho ou do tipo de situação que enfrentarmos.
 Possa ser que nos próximos 50 anos entraremos na fase dos meta-humanos, possuindo corpos indestrutíveis cuja consciência possa ser armazenada ou transferida para qualquer outro corpo fazendo com que nós mesmos venhamos decidir quando e como nos desligarmos, após já  cansados da vida, ou possa ser que entremos em uma nova idade das trevas, onde zumbis religiosos contaminarão a tudo e a todos, caçando, perseguindo e matando todos quantos não se submeta a um inútil dogma religioso qualquer como um dia já foi. Algumas coisas só dependem de ação e reação. E a suplantação do avanço tecnológico pela estupidez do fanatismo religioso só depende da inércia dos que ainda não foram contaminados pelos mais mortais dos vírus: a fé cega a um deus imaginário e a subserviência total a líderes religiosos autoritários!
   Por outro lado, há várias maneiras de sermos eliminados quem nem nos damos conta. De um meteoro gigantesco ou até por um vírus microscópico. Pelo simples aumento ou diminuição de temperatura (repentina) em nosso planeta, tudo isso poderia pôr um fim a nossa espécie e a todo o nosso esplendor como “criaturas extremamente inteligentes”. Esses são apenas alguns exemplos.
  Isso seria tão normal quanto o sol que se levanta e se põe todas as manhas, pois já aconteceu com centenas de outras espécies de animais e plantas que até se torna impossível o registro exato dos tais. Várias civilizações humanas também já tombaram nos últimos milênios e pouco ou nada sabemos destas, sendo algumas destas retratadas na maioria dos casos como apenas um mito popular.
  A falta de reflexão sobre pontos essenciais sobre nós mesmo, sobre a sociedade e sobre o mundo pode gerar desespero. O desespero faz com que qualquer problema, ainda que pequeno, pareça ser intransponível, mas nem sempre é de fato. Inclusive o contágio e a morte certa por uma doença viral podem ser evitados com um pouco de bom senso. O desespero também atrai todos os tipos de charlatões que aparecem sempre para vender soluções inúteis por preços astronômicos.
     Entre bilhões de espécies habitando simultaneamente esse planeta, estamos nós aqui em um corpo tão frágil e tão vulnerável, e com uma brevidade de tempo tão ínfima que mal pode ser comparado a um piscar de olhos em relação a duração de tantos outros corpos nesse vasto universo.
  E o que esperar nessas condições? Apenas aproveitar a brevidade da vida da melhor forma possível.
    Em primeiro plano, o que tem feito com que nossa espécie possa ter tido uma vida mais prolongada foi a formação de uma sociedade civil organizada.  Em segundo e terceiro podem estar o desenvolvimento da fala e da escrita. Por meio destas conquistas, todos os outros mecanismos humanos construídos têm feito com que a nossa vida tenha uma duração maior ou menor, a depender do local, da época e do “deus governante” de um povo.
  As leis, os tratados e a diversidade nos ramos e apetrechos científicos tem feito com que a nossa vida além de prolongada, que tenhamos um pouco mais de paz (ou de guerra), que nos faça viver em busca de algo (ainda que girando em círculos) e que alguns poucos de nós tenhamos um vida longa e prazerosa, diferente de tantas outras espécies que passam maior parte de suas existências buscando uma presa ou evitando ser feito uma.  Uma vida que vale a pena ser vivida é privilégio de alguns poucos que usam a mente e corpo em constante equilíbrio. Alguns apenas vegetam até a hora da morte e acham que estão vivos.
  Um fato que tentamos negar com veemência é que desde o dia que nascemos, a única certeza que temos é que morreremos, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, independente dos “fracassos” e “sucessos” que tivemos na vida. Entre o nascer e o morrer, tudo é possibilidade pois a única coisa certa que temos é a morte!
  Possa ser que cresçamos, possa ser que casemos, possa ser que tenhamos filhos, possa ser que tenhamos uma vida bem sucedida, possa ser que isso, aquilo ou aquilo outro... só a morte é uma certeza para todos.
 Mesmo assim, nos apegamos a tudo e a todos como se fossemos viver para sempre  e eles também fazem o mesmo conosco. Então na hora de nossa partida, aquilo que poderia ser encarado como um “sou grato pelo tempo que vivi” ou “somos gratos pelo tempo que vivestes”, esse momento com muita frequência se torna um dos momentos de maiores angustia na existência de muitos.
  Para os que creem em divindades, um eterno queixume para as divindades começa a surgir, podendo inclusive assumir a forma de uma mágoa infindável que irá consumir o fiel e torna-lo em um ser rancoroso por toda a vida, levando o tal a acreditar que a divindade venerada não cumprira a parte no acordo quanto deixara seu ente querido partir, ou ele mesmo, o devoto padecer de alguma moléstia.
  Sem perceber, os adeptos de algumas religiões agem como capangas de grandes chefões do crime, pois consideram que o apoiar e bajular o grande chefe irá poupá-los de um mal maior. Puro engano! A morte vem a todos, independente do dízimo que você pague, de quantas vezes vá a igreja, de sua formação acadêmica ou da fortuna que acumulastes.
  Como em um grande esquema de corrupção os que veneram os deuses, nos círculos que frequentam, passam a vida enganando-se, pagando as divindades para obter privilégios especiais em relação aos demais. Dízimos, oferendas diversas, idas frequentes as igrejas e penitencias diárias são alguns dos métodos que os fieis usam para obter privilégios especiais diante dos demais. Mas quando a morte chega, percebe que tudo isso fora inútil. Não há privilégios algum, apenas estados avançados ou não de consciência na hora de encarar certos fatos. A menos que você pague um bom plano de saúde, você ou seu parente poderá receber um tratamento especial, vindo de “humanos falhos e pecadores” na hora de maior aflição. De resto, os deuses farão de ti um indigente qualquer na hora da morte e tua revolta com ele será grande.
  É comum sempre ouvir da boca de um devoto fiel, citações angustiosas largadas ao vento direcionadas ao objeto de sua fé por tê-lo decepcionado permitindo a moléstia de alguém (ou a sua própria), comprovando que eles “pagam” para obter favores especiais.
 Frases como: “por que deus?”, “por que senhor?”, “por que tu deixaste que isso viesse a acontecer”? “Tanto que eu oro, tanto que eu faço oferendas a ti, tanto que eu falo bem de ti e mesmo assim tu permitiste isso”?
 Desse modo, de revolta em revolta, em casos de morte de outrem, o que ficou vivo poderá em certos casos viver inclusive desejando se vingar do seu “santo protetor” por não ter realizado a proteção devidamente combinada (ou esperada).
   Uma das maiores mentiras subentendida que a crença nos deuses possibilita aos crédulos, é que se tu mantiveres em dias o seu relacionamento com eles, nada de ruim lhe sucederá, inclusive até mesmo poderás ser poupado da morte tu e os que tu estimas.
   Os cristãos por exemplo, apesar de dizer que acreditam na bíblia, conhecem e aceitam apenas os versículos de alto impacto, com falsas promessas, cuja crença numa proteção enganosa se fortaleça em alguns dias. Tais versículos de impacto representam menos de 1% de todo o conteúdo bíblico considerado sagrado. Como praticamente todas as linhas religiosas, o fiel cristão “pega” apenas a parte que lhe interessa, desconsidera todo o restante do “livro sagrado” e mesmo assim, diz acreditar em todo o conteúdo.
   Sendo a vida passageira e a morte inevitável, o que nos resta é vivermos cada dia da melhor forma possível, sem medo da morte e nem com o intuito de antecipá-la. Viver intensamente um dia após o outro é o bastante. Sem a antecipação de um inferno e sem tornar a vida de tantos outros em outro inferno pelo nosso modo de ser (descabido de regras).

   A vida é bela e terá o sentido que a ela dermos. Alguns, porém, a reduz em estados primitivos e animalesco como se o coito sexual ou a conquistas de “bens materiais” fosse o motivo primordial de nossas existências. Outros também de modo primitivo, se escondem atrás dos deuses, por eles vivem, por eles morrem e por eles matam e desse modo não apenas desperdiçam a própria vida, mas de todos quanto puderem. O medo, a luxuria e a ganancia são os impulsos que “dão sentido” a vida dos tais.
   Fica evidente nos momentos de encararmos a morte que apesar de uma vida inteira confessando um crença religiosa e a certeza no livramento divino em tempos difíceis, que a fé nas divindades é apenas uma mentira que contamos a nós mesmos ou que pagamos para que outros nos contem e no meio da ilusão coletiva não sejamos confrontados por aquilo que fere o nosso ego. O desejo de viver eternamente, triunfante, ao lado de um criador de tudo é a certeza que muitos professam, mas que em momentos de extremo caos social, fica evidente que para nada serve.
  Fica evidente e claro como o cristal, que em momentos de pandemias ou de fenômenos com efeito globais, a reunião de todos os deuses juntos nada podem fazer pela humanidade e que a fé coletiva de todas as religiões do planeta e a somatória de todos os deuses não tem valor algum, mas que um simples mortal com alguns anos de estudo, trancado em um laboratório, que após sucessivos erros, consegue achar a solução para um problema cujo o panteão dos seres celestiais não conseguira realizar e nem a fé de todos os crédulos juntos fora capaz de fazer.
   O medo da morte e do futuro é um dos mecanismos mais utilizados por todos quanto desejam um controle massivo dos seres. Quando todos sucumbem a isso, estar morto e estar vivo é apenas questão de perspectiva de quem os observa.
   Sozinhos viemos a esse mundo, e sozinhos certamente voltaremos. Para onde vamos, depende de qual versão paralela decidistes acreditar. Conhecer um pouco de nós mesmos, de nossa evolução como espécie e de vários outros organismos vivos nesse planeta, pode fazer com que essa ideia a ideia de que somos “seres superiores escolhidos por algum deus” faça menos sentido e passemos a viver o presente como seres animados vivendo em sociedade com ou sem propósitos,  respeitando e sendo respeitados.
  Quem sabe assim na hora da morte possamos partir sem tanta aflição, ou deixar que outros (em causas naturais) deixem essa vida sem sofrermos tantos.
  Tudo que é vivo um dia morre....
  Saúde e sanidade a todos!
Texto escrito em 10/4/20
*Antônio F. Bispo é graduando em jornalismo, Bacharel em Teologia, estudante de religiões e filosofia.

Ferreira Bispo
Enviado por Ferreira Bispo em 10/04/2020
Código do texto: T6912612
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ferreira Bispo
Cristinápolis - Sergipe - Brasil, 38 anos
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