Fim de tarde...

Impossível demais de entender,compreender a traduçāo do cheiro de uma "massa"...sim...aquela mistura de cimento,areia e água...pra mim ,filho do Pedro Bode, a "massa" ,aquela "massa"... cheirava a perfume...e espalhava pela casa quando ele passava...

Vê-lo chegar cansado,ligar o rádio no fim da trde,e ver seu sorriso bobo,meio de lado, e já encostando-se no alpendre com um copo de café na mão...nó...que saudade...que nó cortante...dói demais remoer o passado.

Minha mãe já adiantava a janta...e entoava cantigas ,enquanto ele descansava...eu ...pobre menino ficava a suspirar...com uma vontade imensa de seu cansaço aliviar...

Eu pensava que ele era de ferro,caboclo retado,seus braços me abraçavam sem me tocar...

Com suas mãos doces , olhar de ternura e satisfação... minha mãe preparava um feijão com arroz e macarrão, dos deuses. Meu pai deliciava-se a cada garfada...

Não sabia que ficaria minha vida toda sem provar aquela comida de novo e reviver aquela sensação de outrora...

Meu pai coçava o peito cabeludo,cruzava as pernas ... pegava a palha e preparava o cigarro... e todo o céu abria as cortinas para ele olhar...colocava os braços na nuca..espreguiçava e sorria ..como quem dizia...vida como esta minha, não deve existir...e não existia...faltava quase tudo,tínhamos quase nada...era só isso que nos preocupara...hoje, aprendi que o quase nada, era na verdade o nosso tudo...

Daniel Bode
Enviado por Daniel Bode em 16/10/2019
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