A NOITE DA CURA

Hoje eu quero ficar sozinho, por mais que algumas companhias possam me agradar, eu abro mão de todas elas para andar com os meus pensamentos, e eu sei que eles às vezes me afogam e tomam minha respiração, ainda assim, eu sinto que preciso disso: respirar sozinho mesmo que com dificuldade, vagar por becos e vielas escuros da cidade sem um lugar certo para chegar, tremer de frio com o vento demasiadamente gelado, levantar o pé um pouco mais alto para acompanhar o aclive da próxima calçada, procurar um atalho para desviar das vidas que estão paradas à frente em busca de também se curar, passar merthiolate nas feridas da alma para vê-las cicatrizar.

Que os meus olhos não desejem nem por um segundo provar do mesmo sono que infectou por inteiro a cidade; que a noite não se apresse em passar; que o relento me acolha e faça-se o meu lar; que a chuva sem culpa possa cair e levar pelo esgoto o que resta de um moleque danado que outrora existiu e que quando por fim a vida acordar, todas as fendas da alma eu tenha conseguido fechar fortalecido pela dor e pelo prazer de viver uma noite sozinho.