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NOVOS ESTUDOS DO LETRAMENTO E MULTILETRAMENTOS:

RevLet – Revista Virtual de Letras, v. 05, nº 01, jan./jul, 2013
ISSN: 2176-9125

 Duas tendências ou teorias:

a) NOVOS  ESTUDOS  DO LETRAMENTO - NLS

CATEGORIAS   Localização espaço-temporal

Final de 1970, início de 1980; América do Sul (Brasil), América
do Norte (Estados Unidos); Europa (Reino Unido)

Obras seminais:

Scribner; Cole (1981), Scollon; Scollon (1981), Heath (1983), Street (1984); Freire (anos 1970)

Conceitos-chave:
 
-Etnografia;
-Contexto social (local, situado);
-Letramento Autônomo X Letramento Ideológico
-Prática de Letramento (contexto, cultura, crença, identidade) e Evento de Letramento.
_____________
b) MULTILETRAMENTOS

CATEGORIAS   Localização espaço-temporal

Metade da década de 1990; América do Norte (Estados Unidos);
Europa (Reino Unido) e Oceania (Austrália)
 
Obras seminais:New London Group (1996)
 
 Conceitos-chave:
 
-Currículo responsivo; Ensino;
-Diversidade linguística e cultural; Tecnologia;
-Letramento (monomodal) X Multiletramentos (multimodal,
multicultural e multilinguístico);
-Design;
-Enquadramento pedagógico: Experienciamento, Conceitualização, Análise e Aplicação.
______________________________

NEW LITERACY STUDIES AND MULTILITERACIES:
DIVERGENCES AND CONFLUENCES
Raquel Bevilaqua 1
Mestre em Estudos Linguísticos
Universidade Federal de Santa Maria
(raquel@ufsm.br)
 
RESUMO: O letramento tem sido pesquisado por muitas e diferentes teorias e teóricos por
décadas. No entanto, mais recentemente, o foco desses estudos tem mudado da mente do
indivíduo para a prática social na qual os indivíduos participam. Esse novo foco tem sido
denominado de ‘virada social’ (GEE, 2000a) ou ‘virada sociocultural’ (LANKSHEAR, 1999), e
isso representa um novo paradigma em termos de estudos do letramento. Sob esse novo
paradigma, dois campos teóricos parecem emergir: os Novos Estudos do Letramento e os
Multiletramentos. Este artigo tem por objetivo realizar um estudo comparativo entre esses
dois campos teóricos uma vez que eles sugerem perspectivas diferentes para lidar com o
letramento.  Para  esse  fim,  uma  revisão  da  literatura  sobre  ambos  foi  realizada  e  os
resultados sugerem que, apesar de eles terem designações e objetos de estudo diferentes,
eles compartilham as mesmas acepções teóricas e filosóficas.
Palavras-chave:  Novos  estudos  do  Letramento;  Multiletramentos;  Confluências  e
divergências
 
ABSTRACT: Literacy has been researched by many and different theories and scholars for
decades. However, more recently, the focus of these studies has shifted from the mind of the
individual  strictly  to  the  social  practice  in  which  individuals  take  part.  This  new  focus  has
been  called  ‘social  turn’  (GEE,  2000a)  or  ‘sociocultural  turn’  (LANKSHEAR,  1999),  and  it
represents  a  new  paradigm  in  terms  of  literacy  studies.  Under  this  new  paradigm,  two
theoretical fields seem to emerge: the New Literacy Studies and Multiliteracies.  This paper
aims at making a comparative study between these two theoretical fields once they suggest
different  perspectives  to  deal  with  the  literacy  itself.  For  this  purpose,  a  literature  review
about  them  was  accomplished and  the  results  show  that even  though  they  have different
designations  and  objects  of  study,  they  share  the  same  theoretical  and  philosophical
assumptions.
Keywords: New Literacy Studies; Multiliteracies; Confluences and Divergences
 
 
Introdução
 
Nas  últimas  décadas,  têm  sido  vastos  e  bastante  diversificados  as
discussões e os estudos sobre o letramento tanto em âmbito internacional (STREET,
2012, 2003, 1995; CAZDEN, C; COPE, B.; FAIRCLOUGH, N.; GEE, J.P. et al., 1996;
LEMKE,  1998,  2006;  UNSWORTH,  2001;  GEE,  2009,  2000a;b;  COPE,  B.;
KALANTZIS, M., 2000; HAMILTON, 2002; KRESS, 2003; LANKSHEAR ; KNOBEL,
                                                             
1  Doutoranda em Linguística Aplicada.
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2011, 2007; JEWITT, 2008) quanto em âmbito nacional (SOARES, 2004; KLEIMAN,
2010, 2009, 2007; ROJO, 2009, 2008; MOITA-LOPES, 2010; MOTTA-ROTH, 2011).
Quando nos debruçamos, inicialmente, sobre esses estudos, somos interpelados por
uma série de concepções teóricas e conceitos que, tomados indistintamente, podem
levar-nos  a  pensar  que  os  estudos  sobre  o  letramento  ora  se  constituem  como
concepções  teóricas  bastante  distintas  entre  si,  ora  parecem  fazer  parte  de  uma
mesma  e  única  teoria.  É  a  partir  dessa  aparente  polarização 2   que  concebo,
inicialmente,  os  Novos  Estudos  do  Letramento  (doravante  NLS  –  New  Literacy
Studies) e os Multiletramentos. Duas denominações que sugerem tratar-se de duas
teorias distintas, mas cujas concepções teóricas, como veremos, apresentam  mais
pontos  em  comum.  Diante  dessas  considerações,  os  objetivos  deste  texto  são
compreender  melhor  as  fronteiras  entre  esses  dois  campos  e  verificar  em  que
medida esses dois campos inter-relacionam-se.
O  corpus  de  trabalho  é  constituído  por  quatro  artigos  provenientes  de
periódicos internacionais, seis obras internacionais (publicadas a partir de 2000), um
artigo fruto de uma palestra sobre a relação entre os NLS e a Multimodalidade, e um
artigo publicado em uma página pessoal de um dos teóricos de ambas as teorias.
Esses  textos  foram  delimitados  pelas  seguintes  palavras-chave:  New  Literacy
Studies, Literacy e Multiliteracies. O presente artigo é, guardadas as proporções de
espaço, tempo e finalidade, uma revisão da literatura sobre ambas as perspectivas
supracitadas.
A  metodologia  de  trabalho  constitui-se  em  investigar  as  seguintes
informações referentes aos dois campos teóricos aqui considerados: a) localização
espaço-temporal;  b)  obras  seminais;  e  c)  conceitos-chave.  Por  meio  dessas
informações,  busco  compreender  as  fronteiras  entre  ambos  os  campos  teóricos  e
ensejar uma comparação crítica entre essas três categorias (a,b,c) para verificar em
que  medida  essas  campos  teóricos  estão  relacionados.  Dessa  comparação,
proponho um quadro-síntese sobre as teorias e suas possíveis implicações para o
ensino.
                                                             
2   O  termo  ‘polarização’  é  por mim  empregado  para  designar  posições  teóricas  distintas  quanto  ao
entendimento e tratamento das diferentes teorias que tratam dos letramentos. Dionísio (2007), por um
lado,  e  Jewitt  (2008)  por  outro,  podem  representar  essa  polarização.  Enquanto  aquela  agrupa
conceitos teóricos de ambas as teorias indistintamente, sugerindo que se trata de uma teoria única,
esta traça uma linha divisória entre três campos distintos identificados por ela, quais sejam: os Novos
Estudos do Letramento, os Multiletramentos e a Multimodalidade.
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Este  artigo  está  organizado  em  três  seções:  esta  introdução,  uma
segunda seção em que realizo o levantamento e as relações entre as informações
mencionadas;  e  uma  terceira  seção,  em  que  proponho  o  quadro-síntese  sobre
ambas as teorias e discuto, brevemente, as contribuições pedagógicas dos NLS e
dos Multiletramentos.
 
Letramentos: novos, múltiplos, contemporâneos
 
Nesta  seção,  explicitarei  o  que  são  os  NLS  e  os  Multiletramentos,
identificando a) sua localização espaço-temporal, b) suas obras seminais e c) seus
conceitos-chave. Antes de me deter nos conceitos-chave, porém, buscarei situar os
dois  primeiros  pontos  acima.  Posteriormente,  identificarei  os  conceitos-chave  de
ambas as teorias, tecendo considerações entre eles a fim de melhor compreender
suas relações e suas fronteiras epistemológicas.
 
Situando os NLS e os Multiletramentos no tempo e espaço
 
Para  dar  início  a  esta  seção,  busco  situar,  temporal  e  espacialmente,
ambas as teorias, relacionando-as com suas denominações. A denominação Novos
Estudos do Letramento foi cunhada por Gee (1991 apud STREET, 2003) quando
da  observação  que  emergiam,  no  final  dos anos  1970 e  início  dos  anos  1980,  na
América do Sul (Brasil), América no Norte (Estados Unidos) e Europa (Reino Unido),
estudos  que  focavam  muito  mais  o  lado  social  do  letramento  do  que  seu  lado
cognitivo (STREET, 2003, p. 77). Logo, o atributo ‘novo’ está relacionado à ‘virada
social’ 3 .
Lankshear; Knobel (2011, p. 10-11), baseados em Gee (1996), reportam
obras seminais que originaram, ou foram originadas, a partir da virada sociocultural:
Scribner;  Cole  (1981),  em  “The  Psychology  of  Literacy”,  abordaram  estudos  de
Vygotsky e Luria sobre a cognição social, e também desenvolveram o conceito de
prática, sobre a qual discorrerei mais adiante, que viria a se tornar um termo-chave
para os NLS; Scollon; Scollon (1981), em “Narrative, Literacy and Face in Interethnic
                                                             
3   No  campo  de  pesquisa  do  letramento,  ocorreu  o  que  Gee  (2000a)  denominou  de  ‘virada  social’,
também conhecida por ‘virada sociocultural’ (LANKSHEAR, 1999). A ‘virada social’ representou uma
mudança paradigmática: da mente do indivíduo, passou-se a considerar leitura e escrita a partir do
contexto das práticas sociais e culturais (históricas, políticas e econômicas).
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Communication”,  trabalharam  com  teorias  linguísticas  e  antropológicas  para
investigar  as  relações  entre  as  práticas  sociais,  visões  de  mundo,  oralidade  e
letramento;  Heath  (1983),  em  “Ways  with  Words:  Language,  Life  and  Work  in
Community  and  Classrooms”,  investigou  os  modos  como  o  letramento  está
imbricado  em  contextos  culturais,  empregando  a  metodologia  etnográfica
(explicitada logo abaixo) para sua pesquisa. Finalmente, Street (1984), que viria a se
tornar um dos representantes mais exponenciais do NLS, em “Literacy in Theory and
Practice”, desenvolveu um trabalho que estabeleceu a etnografia como  método de
pesquisa,  cuja  definição  será  explicitada  no  decorrer  deste  texto.  Segundo
Lankshear  (1999)  e  Lankshear;  Knobel  (2011,  p.  5),  os  trabalhos  de  Paulo  Freire
(como  a  “Pedagogia  do  Oprimido”,  publicada  nos  anos  70)  também  tiveram  um
grande efeito na constituição dos estudos do letramento. Freire, de acordo com os
autores  (idem),  denunciou  as  concepções  tecnicistas  do  letramento,  chamando  a
atenção da comunidade acadêmica para a necessidade de uma revisão sociocultural
da teoria.
Alguns anos após o surgimento dos NLS, mais especificamente em 1994,
na  cidade  estadunidense  de  Nova  Londres,  New  Hampshire,  renomados  teóricos,
sobretudo  da  Linguística  e  Educação,  oriundos  de  três  países  -  Estados  Unidos,
Grã-Bretanha e Austrália - reuniram-se a fim de debater os sérios problemas pelos
quais  o  sistema  de  ensino  anglo-saxão  estava  passando  (COPE;  KALANTZIS,
2000).  Esse  grupo  de  teóricos  tornou-se  mundialmente  famoso  pela
autodenominação  de  New  London  Group,  ou  Grupo  de  Nova  Londres.  Deste
encontro, resultou um documento denominado de “manifesto programático” (COPE;
KALANTZIZ, 2000, p. 164), construído a dez mãos 4  e cujos motes principais foram: a
crescente diversidade linguística e cultural presente nesses países (fruto de uma
economia globalizada) e a multiplicidade de canais e meios (modos semióticos)
de  comunicação  (resultado  das  novas  tecnologias).  Esses  dois  motes  foram
responsáveis  pelo  prefixo  multi,  da  denominação  Multiletramentos  (COPE;
KALANTZIS, 2000, 2009).
“A pedagogy of Multilietracies: Designing Social Futures” (1996) tornou-se
a obra seminal que, naquele momento, inauguraria a teoria dos Multiletramentos, ou
                                                             
4   Os  autores  do  texto,  segundo  Cope;  Kalantzis  (2000,  p.  3-4),  são:  CAZDEN,  C.;  COPE,  B.;
FAIRCLOUGH,  N.;  GEE,  P.;  KALANTZIS,  M.;  KRESS,  G.;  LUKE,  A.;  LUKE,  C.  MICHAELS,  S.;
NAKATA, M., identificados como New London Group. Esses mesmos autores apresentam seus textos
na obra organizada por Cope; Kalantzis em 2000.
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ainda,  a  pedagogia  dos  Multiletramentos,  como  também  é  conhecida,  voltada,
eminentemente,  a  um  currículo  responsivo  social  e  culturalmente  (COPE;
KALANTZIS, 2009). Diante dos motes principais do texto, os autores preocuparam-
se em realizar discussões acerca dos efeitos do contexto contemporâneo altamente
diversificado e crescentemente tecnologizado sobre a escola.
Diante dessas considerações iniciais, que visam a situar, no tempo e no
espaço, a origem de ambas as teorias, bem como identificar suas obras seminais,
passarei então à identificação e discussão de seus conceitos-chave.
 
NLS e Multiletramentos: conceitos-chave
 
Por entender que a constituição de um campo teórico se dá, entre outros
fatores, pela delimitação de objeto e metodologia de estudos, observo que as teorias
dos  NLS  e  dos  Multiletramentos,  embora  concebam  o  letramento  a  partir  de  uma
perspectiva sociocultural como objeto de estudos, não apresentam enquadramentos
teórico-metodológicos  idênticos.  Isso  tem  efeitos  sobre  o  foco  de  suas  pesquisas,
seus resultados e sobre as implicações de ambas para o contexto educacional.
Street (2012, p. 5) postula que um dos conceitos-chave que identificam os
NLS  é  o  conceito  de  etnografia  enquanto  metodologia  de  pesquisa,  conforme
pudemos  depreender  de  suas  obras  seminais.  Como  campo  de  pesquisa,  a
etnografia  envolve  “enquadramento,  conceitualização,  condução,  interpretação,
escrita e relato associado com um estudo amplo, profundo e de longa duração de
um  grupo  social  ou  cultural”  (STREET,  2012,  p.  5).  Enquanto  metodologia,  a
etnografia  pode  ser  realizada  em  três  níveis  de  uma  escala  descritiva  (STREET,
2012,  p.  5):  no  nível  mais  alto,  o  pesquisador  assemelha-se  ao  antropólogo,  cujo
trabalho enquadra-se nos princípios metodológicos descritos por Street, mais acima;
no  nível  intermediário,  o  pesquisador  adota  uma  perspectiva  etnográfica,  cujo
enfoque não é tão abrangente quanto àquele realizado pelo antropólogo; por fim, na
base, o trabalho etnográfico do pesquisador corresponde ao uso de instrumentos da
etnografia.
Foi  por  meio  de  estudos  fundamentados,  metodologicamente,  na
etnografia (em diferentes níveis) que os NLS elaboraram concepções de letramento
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autônomo e letramento ideológico 5  (STREET, 2003, p. 77), também termos-chave
para  esse  campo  teórico.  O  letramento  autônomo  corresponde  a  um  modelo  de
letramento  que  desconsidera  o  contexto  social,  pois  está  centrado  no  ensino  de
aquisição  de  habilidades  e  fundamentado  em  noções  de  neutralidade  e
universalidade do conhecimento a ser transmitido. Segundo esse modelo, baseado
em  uma  visão  de  padrão  (padronização 6 ),  o  letramento,  por  si  mesmo,  ou  seja,
autonomamente,  é  capaz  de  produzir  efeitos  sobre  práticas  cognitivas  e  sociais,
sendo  desnecessário  considerar  as  condições  sociais,  culturais  e  econômicas
inerentes à vida social.
Para  desafiar  o  modelo  de  letramento  autônomo,  os  NLS  propõem  o
modelo de letramento ideológico, segundo o qual, na prática, o letramento varia de
um contexto a outro. Esse modelo compreende letramento como uma prática social
e  não  simplesmente  uma  habilidade  técnica  e  neutra  (STREET,  2003).  Segundo
Street  (idem,  p.  78),  o  modo  como  as  pessoas  se  relacionam  com  a  leitura  e  a
escrita  está  ‘enraizado’  na  representação  dessas  pessoas  sobre  o  conhecimento.
Por essa razão, o letramento não pode, como pressupõe o modelo autônomo, ser
‘dado’  aos  sujeitos;  ele  será,  conforme  demonstram  pesquisas  etnográficas  mais
recentes (STREET, 2012), reformulado, reapropriado diferentemente de acordo com
o  contexto  em  que  estiver  inserido  e  de  acordo  com  a  identidade  dos  sujeitos-
membros de uma comunidade.
Para Street (2003), o termo letramento, sob uma perspectiva ideológica,
apresenta-se  como  “problemático”  (idem,  p.  78)  enquanto  unidade  ou  objeto  de
estudo,  uma  vez  que  esse  termo  está  imbuído  de  pressuposições  ideológicas  e
políticas.  Por  essa  razão,  teóricos  dos  NLS  elaboram  os  termos  prática  de
letramento, cunhado por Street (1984), e evento de letramento, termo originado de
trabalhos  de  Heath  (1982  apud  STREET,  2012,  p.  7).  A  prática  de  letramento  é
mais abrangente do que o evento de letramento, encapsulando-o; é definida como
uma  concepção  cultural  mais  ampla  de  formas  de  pensar  e  realizar  a  leitura  e  a
escrita  em  contextos  culturais  (STREET,  2003,  p.  79).  Já  eventos  de  letramento
(HEATH, 1982 e BARTON; HAMILTON, 1998, apud STREET, 2003, p. 78) têm sido
definidos como qualquer ocasião em que a escrita desempenha papel fundamental
                                                             
5   Antes  de  me  deter  sobre  suas  definições,  esclareço  que  letramento,  conforme  depreendo  das
leituras realizadas sobre os NLS, refere-se a práticas de leitura e escrita envoltas em prática sociais.
6   Impossível  não  notar  a  relação  entre  essa  concepção  e  o  old  capitalism,  referendado  por  Gee
(2000a), em que práticas de homogeneização de sujeitos e práticas sociais vigoravam.
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nos  processos  interativos  e  interpretativos  entre  os  participantes,  bem  como
atividades  em  que  o  letramento  tem  uma  função  passível  de  ser  observada;
correspondem,  ainda,  ao  momento  de  composição  de  um  dado  texto  (PAHL;
ROSWELL, 2012, p. 4-5).
Na  figura  abaixo,  busco  sintetizar  parte  dos  conceitos-chave  que
constituem os NLS discutidos até aqui.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Representação de prática e evento de letramento sob a perspectiva do Modelo Ideológico
 
A esfera externa é da ordem do ‘potencial’, do que poder vir a constituir
um evento, isto é, são as instâncias sociais, culturais, ideológicas e discursivas que
dão forma e materializam, no evento do letramento, os significados atribuídos ao uso
da leitura e escrita. A esfera interna é da ordem da atualização e, portanto, conforme
definem os teóricos, é passível de ser observável; é o uso do letramento na instância
social.  Como  pano  de  fundo,  são  inerentes  ao  modelo  ideológico  de  letramento  o
contexto social e as dimensões culturais e ideológicas que o constituem.
Embora  letramento  seja  o  objeto  de  estudos  dos  NLS  e  dos
Multiletramentos,  este  apresenta  um  enquadramento  teórico  que  o  distingue
daquele.  Seu  foco  de  atenção  está  centrado  primordialmente  no  ensino  do
letramento,  ou  melhor  dizendo,  dos  multiletramentos.  Para  esse  fim,  os  teóricos
formulam  conceitos-chave  à  luz  das  profundas  mudanças  instauradas  pelo  ‘novo
capitalismo’ 7  e a ampla tecnologização que o acompanha.
                                                             
7   O  novo  capitalismo  (GEE,  2000a)  apresenta  mudanças  profundas  em  relação  às  relações  de
trabalho  na  nova  economia.  Essas  relações  preveem  o  sujeito  não  mais  como  mero  ‘reprodutor’,
Prática de letramento: cultura, identidade, Discurso,
conjunto de práticas sociais; concepções amplas de leitura
e escrita (STREET, 2012, p. 7), que norteiam a
constituição do evento.
Evento de letramento: a instância
de uso do letramento; é mediado
pela escrita (o texto é sua
materialização).
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O conceito de Design 8  de sentidos é o eixo estruturador de toda a teoria
dos  Multiletramentos,  pois  é  por  meio  desse  conceito  que  a  teoria  instanciará
concepções  de  construção  de  sentido,  interesse,  agenciamento  e
multimodalidade,  primordiais  para  o  ensino  requerido  na  contemporaneidade  e
explicitadas  no  decorrer  do  texto.  Segundo  Cope;  Kalantzis  (2009,  p.  175-6),  o
conceito  de  Design  fora  instituído  com  o  propósito  de  contrapor-se  a  concepções
tradicionais de ensino pautadas em uma visão estática e monomodal da linguagem
(foco  na  escrita).  Design  institui  uma  concepção  dinâmica  de  representação  (de
linguagem, de aprendizagem, de mundo), sendo definido como ato de construção de
sentido. Para os teóricos (idem), o conceito de Design apresenta uma dupla e feliz
coincidência de sentidos: estrutura (sistemas, formas e convenções de sentido) e ato
de  construção  de  sentido  (processo  criativo  pelo  qual  o  sujeito,  definido  como
meaning-maker, ou produtor de sentido, constrói e representa sentidos, passando a
agente,  designer  de  sentidos  e  não  simples  receptor  de  habilidades  e
competências).
Design,  então,  se  refere  ao  modo  como  as  pessoas  fazem  uso  de
recursos  de  significação  disponíveis  em  um  dado  momento  em  um  ambiente
específico de comunicação para realizar seus interesses (COPE; KALANTZIS, 2000,
p.  204).  Da  mesma  forma  como  são  teorizados  pelos  NLS,  os  sentidos  são
constituídos  por  dimensões  socioculturais  e  ideológicas,  que  variam  enormemente
de  um  contexto  a  outro.  Por  isso,  o  conceito  de  Design  é,  segundo  essa  teoria,
central  para  a  constituição  de  um  currículo  escolar  atualizado  com  as  novas
tendências sociais.
Antes  de  abordar  os  aspectos  constituintes  do  Design,  é  importante
mencionar  a  questão  da  multimodalidade,  que  se  refere  aos  múltiplos  e
diversificados  modos  semióticos  que,  em  concorrência  com  o  modo  escrito,
demandam atenção em uma sociedade altamente tecnologizada. A multimodalidade
representa  um  ponto  de  distanciamento  entre  as  teorias.  O  conceito  de  Design
compreende  que  os  sentidos  são  construídos  por  vários  e  diferentes  modos,  que
guardam entre si limites e ‘affordances’ (ou potencialidades) únicos. O modo escrito,
                                                                                                                                                                                             
como no filme ‘Tempos Modernos’, mas como produtor, sujeito pensante, conhecedor do processo de
produção,  participativo  da  cultura  da  corporação,  pois  tais  características  agregam  valor  aos
produtos, tornando-os, em última instância, mais atraentes e competitivos.
8  Em falta de um termo melhor em português, mantenho o original.
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bastante enfatizado pelos NLS 9 , não é, portanto, suficiente para construir, por si só,
o Design.
De acordo com Cope; Kalantzis (2009, p. 175-6), o Design é constituído
por  três  aspectos:  Available  Designs  (recursos  culturais  e  contextuais  para  a
construção do sentido, incluindo modo 10 , gênero e D/discurso); Designing (processo
de  construção  e  recontextualização  da  representação  do  mundo  por  meio  dos
Available  Designs)  e  Redesigned  (o  mundo  transformado  em  novos  Available
Designs,  que  instanciam  novos  sentidos).  Os  autores  esclarecem  que  esses
elementos não constituem um arcabouço teórico estático para a prática de ensino;
pelo  contrário,  o  Design  representa  o  sentido  como  sempre  movente,  contra  as
noções inertes de aquisição e competência (COPE; KALANTZIS, 2009, p. 177).
A figura abaixo é busca representar o conceito de Design de acordo com
o que foi exposto:
Design de sentidos
 
                                                             
9  Nos textos lidos, não há referência à multimodalidade, exceto no texto recente de Street (2012), em
que o autor busca traçar as diferenças e similaridades entre os NLS e a teoria da Multimodalidade,
defendendo que ambas as teorias podem beneficiar-se ao buscarem complementar-se (idem, p. 7).
10  O modo corresponde às diferentes formas de representar o  sentido:  linguístico, visual, espacial,
gestual, etc. A teoria dos Multiletramentos tem chamado a atenção para a relevância de modos outros
que não o linguístico apenas quando da  prática de ensino (NEW LONDON GROUP, 1996, p. 80).
Neste sentido, ela compartilha muito do que a teoria da Multimodalidade tem investigado e proposto
(JEWITT, 2008).
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No  processo  de  Design  acima,  figuram  como  pano  de  fundo  a
criatividade, o dinamismo, a inovação, o interesse e a motivação do produtor de
sentido.  Essas  categorias  são  eminentemente  culturais  e  ideológicas,  pois  estão
relacionadas  com  diferentes  visões  de  mundo  de  diferentes  sujeitos em  diferentes
contextos. Essa visão do processo semiótico, definida como prospectiva por Cope;
Kalantzis  (2009,  p.  177),  coloca  a  reapropriação  criativa  do  mundo  no  centro  da
representação e, portanto, do processo de aprendizagem.
Em termos de aprendizagem, tanto o texto de 1996 (New London Group)
quanto o texto de 2009 11 , também atribuído ao New London Group, segmentam seu
teor em três momentos: o ‘Por quê’ da pedagogia dos Multiletramentos (os motes já
mencionados), o ‘O quê’ (baseado no conceito estruturador de Design) e o ‘Como’.
Em  relação  ao  terceiro  momento,  isto  é,  o  ‘Como’  da  pedagogia  dos
Multiletramentos,  os  autores  propõem  um  enquadramento  teórico  baseado  na
compreensão de uma pedagogia contemporânea (NEW LONDON GROUP, 1996, p.
85),  composto,  originalmente,  por  quatro  gestos  didáticos  (não  hierárquicos  nem
estanques): 1) Prática Situada; 2) Instrução Explícita; 3) Enquadramento Crítico; e 4)
Prática Transformada. Mais de uma década depois, devido a pressões de um forte
movimento  reacionário  na  Europa  e  Estados  Unidos,  denominado  de  ‘Back  to
Basics',  esses  elementos  são  renomeados  e  teoricamente  redefinidos  por  Cope;
Kalantzis (2009) (ROJO, 2012, p. 30).
O  primeiro  elemento,  ou  movimento  pedagógico,  é  denominado  de
Experienciamento,  denominado,  no  texto  seminal,  de  Prática  Situada  (COPE;
KALANTZIS,  2009,  p.  184-5).  Pelo  fato  de  a  cognição  humana  ser
socioculturalmente  situada  e  contextual,  essa  prática  representa  a  imersão  em
práticas  significativas  em  uma  comunidade  de  aprendizes,  considerando-se  as
necessidades  socioculturais  e  suas  identidades.  Leva  em  conta  aquilo  que  já  é
conhecido pelos aprendizes e aquilo que é novo.
O  segundo  elemento,  segundo  Cope;  Kalantzis  (2009,  p.  184-5)  é  a
Conceitualização (ou Instrução Explícita, no texto seminal), definida enquanto um
processo de conhecimento pelo qual os aprendizes se apropriam da teoria e de seus
                                                             
11  Embora escrito por apenas dois dos dez membros originais do New London Group, “Multiliteracies:
new  literacies,  new  learning”  é  um  texto  que,  segundo  Cope  and  Kalantzis  (2009),  revisita  as
proposições  do  artigo  seminal  e  possui  a  revisão  e  o  aval  de  membros  originais  do  New  London
Group (2009, p. 167).
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conceitos; demanda que os aprendizes sejam capazes de mover-se entre do mundo
experiencial para o conceitual – sistemático, científico.
A Análise, designada, nos textos da década de 1990 e início de 2000, de
Enquadramento Crítico, constitui o terceiro elemento (COPE; KALANTZIS, 2009, p.
184-5). Esse movimento envolve certo tipo de capacidade crítica, entendida de duas
formas:  análise  funcional,  baseada  em  processos  de  raciocínio,  inferências,
conclusões dedutivas e relações lógicas entre os elementos textuais; análise crítica,
baseada na avaliação da representação do mundo, interroga as razões e propósitos
que estão por trás de um sentido ou ação.
Por  fim,  o  quarto  elemento,  ou  movimento,  apresentado  por  Cope;
Kalantzis  (2009,  p.  185)  é  a  Aplicação  (anteriormente  denominada  de  Prática
Transformada).  Esta  é  dividida  em  aplicação  apropriada,  baseada  na  capacidade
de  os  aprendizes  realizarem  algo  de  forma  previsível  e  esperada;  e  aplicação
criativa, baseada na intervenção no  mundo  de forma que considere os interesses,
experiências  e  aspirações  dos  aprendizes,  causando  uma  transformação  na
realidade circundante.
Esses elementos referem-se ao enquadramento pedagógico e evidenciam
o  ponto  central  da  teoria  dos  Multiletramentos,  qual  seja,  a  preocupação  com  o
ensino na contemporaneidade. Esse núcleo-motivador da teoria o diferencia, em um
primeiro  momento,  dos  NLS,  cujo  foco  está na  compreensão  daquilo  que  sujeitos,
em  diferentes  contextos  (não  exclusivamente  o  escolar),  realizam  por  meio  de
práticas mediadas pela escrita, isto é, foco no estudo do letramento e não no seu
ensino (STREET, 2012) 12 .
Na próxima seção, apresento um quadro-síntese com os pontos que têm
se  mostrado  mais  relevantes  quando  da  relação  entre  ambas  as  teorias  e  teço
algumas considerações referentes às implicações pedagógicas.
 
                                                             
12  No entanto, os NLS têm buscado contribuir para as questões relativas ao ensino. Prova disso são
os textos em que Street e Lea (2006), Street (2010), Pahl e Rowsell (2012) se debruçam sobre as
questões pertinentes ao letramento em âmbito acadêmico e escolar à luz dos NLS bem como o texto
mais recente de Street (2012), em que o teórico busca evidenciar em que medida os NLS e a teoria
da  Multimodalidade  podem  complementar-se  para  atuação,  inclusive,  em  âmbito  escolar.  Como
esses textos não são parte do corpus revisado, não abordarei essas questões.
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Considerações finais
 
Na  seção  anterior,  observei  que  os  NLS  e  os  Multiletramentos
apresentam  pontos  epistemológicos  divergentes  e  confluentes.  Em  termos  de
confluência, estarem inscritos na virada social do estudo do letramento talvez seja
ponto  de  encontro  original  entre  ambas  as  teorias.  O  letramento,  para  ambas,  é
constituído em práticas sociais e ideológicas e, por essa razão, não pode ser tomado
como um conjunto estático de habilidades e competências.
A proposição do modelo de letramento ideológico dos NLS desafiou, na
década  de 1980, a  visão  tradicional  sobre letramento.  Esse  modelo  de  letramento
combateu  práticas  de  ensino  então  pautadas  no  letramento  como  conjunto  de
habilidades  e  competências  a  ser,  universalmente,  transmitido  (letramento
autônomo),  chamando  a  atenção  para  as  questões  contextuais  diversificadas  em
que essas práticas ocorrem.
O  conceito  de  Design,  proposto  pela  pedagogia  dos  Multiletramentos,
está  ancorado  na  concepção  de  modelo  de  letramento  ideológico,  proposto  pelos
NLS, uma vez que enfatiza, entre outros elementos, a identidade do do produtor de
sentido, seu interesse e motivação na construção de sentidos. Esses elementos são
sempre  contextualmente  situados  e,  por  isso  mesmo,  altamente  diversificados  em
relação a outros contextos.
Para  o  ensino,  o  modelo  de  letramento  ideológico  oferece  uma  ampla
perspectiva  teórica  que  desloca  o  foco  de  atenção  centrado  em  habilidades  e
competências  individuais  para  a  pertinência  das  relações  sociais  e  do  contexto
cultural e ideológico a partir do qual sujeitos constroem sentidos. Na perspectiva dos
Multiletramentos,  a  cada  novo  processo  de  Design,  o  sujeito  produtor  de  sentido
mobiliza recursos de sentido disponíveis, aos quais acrescenta suas especificidades
e  peculiaridades  construídas  na  interação  social,  que  configuram  sua  identidade,
motivação  e  interesse,  resultando  sempre  em  um  novo  recurso  recriado,
transformado, nunca meramente reproduzido.
Abaixo,  proponho  um  quadro-síntese  com  os  pontos  já  discutidos  neste
texto. Sua função é possibilitar-nos visualizar limites e intersecções entre ambas as
teorias.
 
 
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CATEGORIAS  NOVOS  ESTUDOS  DO
LETRAMENTO - NLS
MULTILETRAMENTOS
 
Localização
espaço-temporal
Final de 1970, início de 1980;
América do Sul (Brasil), América
do Norte (Estados Unidos);
Europa (Reino Unido)
Metade da década de 1990;
América do Norte (Estados Unidos);
Europa (Reino Unido) e Oceania
(Austrália)
 
Obras seminais
Scribner; Cole (1981), Scollon;
Scollon (1981), Heath (1983),
Street (1984); Freire (anos
1970)
 
New London Group (1996)
 
 
 
 
Conceitos-chave
-Etnografia;
-Contexto social (local, situado);
-Letramento Autônomo X
Letramento Ideológico
-Prática de Letramento
(contexto, cultura, crença,
identidade) e Evento de
Letramento;
 
-Currículo responsivo; Ensino;
-Diversidade linguística e cultural;
Tecnologia;
-Letramento (monomodal) X
Multiletramentos (multimodal,
multicultural e multilinguístico);
-Design;
-Enquadramento pedagógico:
Experienciamento,
Conceitualização, Análise e
Aplicação.
Quadro-síntese das teorias
 
Em  termos  de  implicações  pedagógicas,  além  das  contribuições  das
teorias  dos  NLS  e  dos  Multiletramentos  elucidadas  acima,  observo  também  uma
ampliação  da  concepção  de  linguagem,  bastante  diversa  das  concepções
behavioristas e cognitivistas que vigoraram até a década de 1980. Essa concepção
de  linguagem,  fruto  da  ‘virada  social’  (GEE,  2000a),  é  pautada  na  base  social  e,
portanto,  é  ideológica,  estando  submetida  a  relações  de  poder;  é  aprendida
socioculturalmente;  é  altamente  diversificada  em  relação  aos  diferentes  modos  de
sua  representação  -  é  multimodal.  Nessa  perspectiva,  a  linguagem,  como  recurso
para  a  construção  de  sentido,  está  à  disposição do  produtor  de  sentido,  mediante
seu interesse, sempre constituído a partir de seu contexto de atuação.
Para finalizar este texto, concluo, com base nas questões discutidas, que
os  Novos  Estudos  do  Letramento  e  os  Multiletramentos  representam  dois  campos
teóricos  para  o  estudo  do  letramento  altamente  imbricados.  A  separação  não  é
estanque nem permanente; pelo contrário, ambas as teorias possuem mais pontos
convergentes do que divergentes. Se considerarmos a origem temporal de ambas, é
possível deduzirmos que os Multiletramentos emergiram no seio dos Novos Estudos
do Letramento, compartilhando, com este, o novo foco no social. Assim, a postura
que assumo enquanto linguista aplicada é de reflexão sobre aquilo que um campo
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teórico pode oferecer ao outro e como isso se reflete em ganhos epistemológicos e
de prática pedagógica para a compreensão e ensino dos múltiplos letramentos.
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Enviado por J B Pereira em 24/01/2014
Reeditado em 24/01/2014
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