O animal solitário
O nascimento é por si só, um ato de violência. Saímos de um local confortável rompendo o principal laço com a única pessoa que talvez, um dia nos amou verdadeiramente.
Ao depararmos com uma forte luz, ficamos cegos e com medo. Somos expulsos da Caverna de Platão e nos deparamos com um mito incômodo. Choramos.
Lançados em um mundo absurdo, sem nem sequer sabemos quem somos de onde viemos, para onde vamos. E então nos perguntamos, o que estamos fazendo aqui?
Encontrando seus semelhantes, o homem se depara com o seu eu social e ao mesmo tempo com o seu eu solitário.
Podemos supor, mas jamais entender o sofrimento e a dor física e moral do nosso próximo.
Talvez, aqueles que vivenciaram uma circunstância parecida cheguem mais perto de algum entendimento.
No leito de morte, a família e os amigos pensam que entendem a condição do moribundo.
A sua angústia, o seu medo ateu da morte seguida da sua não existência e da sua negação de Deus. A nadificação. O animal solitário em sua forma pura. Não, não pode ser verdade ou será que não deveria ser mentira?
Cavando entre carnes e vísceras, o homem do subsolo almeja o retorno a escuridão, seu único momento longe da solidão em comunhão com aquilo que o fez perceber que um dia não esteve só, naquele breve momento, antes do nascimento da tragédia chamada vida.