O Poder de Sedução da Distribuição de Honrarias

As sociedades vivem da adulação. Há uma troca permanente de prêmios, medalhas, honrarias. Há coquetéis, jantares e ajantarados, em que vem ‘a tona todo o ridículo da espécie humana.

Mesmo um bandido, quando já conseguiu acumular um outro tipo de medalha, o dinheiro, este outro símbolo majestoso de poder e autoridade, tenta ser admitido em sociedade, é o que é melhor do que uma honraria, uma comenda, ‘às vezes comprada com ouro, ou doações generosas a entidades diversas? Aqui, se incluem também, as grandes empresas, cuja busca desenfreada pelo lucro, e conseqüentes danos ao meio ambiente, ou ‘a saúde de alguns é, de alguma forma, atenuada mediante a criação de fundações, ou a concessão de verbas para pesquisa, ou prêmios para as artes.

As cerimônias onde se distribuem tais honrarias são vedadas para o povo, a arraia miúda, a mão de obra, os eleitores em geral, que, afinal, são o sustentáculo da pirâmide social. E ele as admira de longe.

Os desfiles carnavalescos começaram como uma sátira dessas cerimônias, em que os pobres e incultos vivedores das margens das sociedades pompescas se fantasiavam de príncipes, de lordes e marquesas que nunca foram, e assumiam a nobreza adulatória capaz de fabricar prêmios e medalhas.

A festa descontrolada virava entrudo, em que se podia fazer a nobreza ir por água abaixo com bombeadas de jatos líquidos que desfaziam as suas fantasias de papel.

Quando a festa acabava, mesmo de ressaca, o povão tinha que ir trabalhar. Afinal, quem ia fazer todas as coisas que os verdadeiros lordes precisavam? Preparar refeições, lavar e passar as elegantes roupas, manter seus palácios limpos e brilhantes. Engraxar os seus sapatos. Retocar as suas maquiagens. Carregar os seus embrulhos de goiabada.

Afinidades; Poema Antigo, veja em:

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