ENSAIO SOBRE A SABEDORIA – parte 2

-- Sim, meu bom homem, pode ir. Espero que realmente tenha aprendido uma lição... Espero que tudo que aprendeu aqui seja de grande valia para você e sua família... Espero que você ajude o seu filho a perceber as coisas que têm um valor realmente verdadeiro... Espero também que você, sempre que possível, diga a todas as pessoas que encontrar pelo caminho o seu erro e ajude-as a entenderem a importância do que é verdadeiro na vida... Vá em paz, olho para você e não vejo crime algum desde que o vi... Vejo apenas uma pessoa que não teve oportunidade alguma de saber as coisas que realmente têm importância... A culpa é mais dos seus pais do que qualquer outra pessoa... Porém, acredito que seus pais também não tiveram oportunidade de saber das coisas realmente verdadeiras e não puderam instruí-lo. Agora com essa nova lei dos cursos e vestibulares para ter uma autorização para se ter um filho, esse ciclo de má educação vai ser quebrado, teremos novas gerações de bons pais. Vá em paz, meu amigo... Vá às universidades, aos presídios, às escolas, aos hospitais, às praças públicas etc, e ensine a todos o que aprendeu com os seus erros; ajude as pessoas a não cometerem o mesmo erro que você... Volte aqui um dia, antes da minha partida para as montanhas... Traga o seu filho, pois eu gostaria de conhecê-lo... Não vejo maldade alguma em você... Vá em paz...

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Quando o rei termina de dizer tudo isso o motorista dá-lhe um forte abraço e diz muito emocionado:

-- Majestade! Nunca vou me esquecer do que fez por mim, em todos os dias de minha vida vou lembrar do senhor e vou me espelhar na sua sabedoria... – O motorista dá outro abraço de gratidão no homem que lhe salvou a vida e em pranto diz:

-- Que Jesus Cristo o ilumine, hoje, amanhã e sempre! Espero que o senhor seja cada vez mais sábio e justo com a graça de Deus todo poderoso!

Ao ouvir o motorista citar Cristo o rei faz uma cara de espanto e pergunta ao seu interlocutor que ainda está à sua frente se preparando para ir embora e ver o seu filho:

-- Você falou Cristo? Jesus Cristo? Você conhece a lenda Cristo, Jesus Cristo? O filho de um deus? Aquele que morreu para tirar o pecado do mundo? Você conhece essa lenda? O meu jardineiro do palácio me contou sobre ele. Contou-me ontem enquanto cuidávamos do jardim real. Eu gosto de rosas... Achei uma bonita lenda... Mas, como uma lenda poderia me tornar mais sábio e justo?

Dessa vez é o motorista que se assusta com a pergunta do monarca e diz em seguida:

-- O senhor deve estar se equivocando... Porque Cristo não é uma lenda como o Senhor acaba de dizer, ele é verdadeiro... Ele só é uma lenda para os tolos... Por que se referiu a ele como uma lenda? Não acredita nele como Senhor do Mundo, o Salvador? -- pergunta o motorista ao rei que está parado à sua frente e parecia estar confuso, mas logo ele responde:

-- Achei que Cristo fosse uma lenda muito nova ou pouco conhecida... Não a conhecia, ouvi falar dele ontem à tarde quando estava no meu jardim, podando as rosas que eu trouxe das montanhas... Ouvi o jardineiro falar sobre ele, em duas horas apenas demorou a narrativa sobre ele... Achei que tudo que ele havia me dito era uma lenda, achei a história fantástica demais... Não conhecia nada sobre ele... Então você acredita que realmente existe um deus, e que Cristo é o filho dele e que ele efetivamente veio ao mundo para libertar e salvar as pessoas do pecado? E tudo que ele disse é a verdade, a verdade verdadeira? “Sou o caminho, a verdade e a justiça”, é isso mesmo que ele disse, correto?

-- Não, ele disse “sou o caminho, a verdade e a vida”; e eu não tenho a menor dúvida a esse respeito: sou batizado e crismado na Igreja Católica Apostólica Romana, sei que só Jesus é o Senhor dos Senhores, sei que só ele pode salvar o mundo, nenhum outro pode salvar ninguém! Só ele é digno de ser seguido!

E ouvindo isso com muita atenção o rei diz ao motorista:

-- Se tudo isso que ouvi ontem é verdade, se realmente acredita em Cristo eu lhe digo que és um miserável!

O motorista que até esse momento nutria uma admiração muito grande pelo rei acha agora que ele não era tão sábio como antes, pois ele não crê em Cristo e pergunta-lhe com desdém:

-- Sou miserável por ser cristão, por quê? Não entendi mesmo...

-- Agora não o vejo como inocente em relação à morte das crianças, na verdade, acredito que você é um ser desprezível!

O motorista olha para o rei perplexamente, pois esse rei acaba de lhe salvar a vida e disse-lhe há pouco que ele era inocente... Mas depois que lhe disse ser cristão, chamou-lhe de desprezível... Será que ele odiava a Cristo e por influência despreza seus seguidores? -- Pensou o motorista, o homem mais confuso do mundo nesse instante. Nisso o motorista ainda pergunta ao rei:

-- Você odeia a Cristo?

-- Não, claro que não... Eu o amo verdadeiramente, desde ontem, assim que o conheci mesmo acreditando ser uma lenda.

-- Por que insinuou que sou um miserável quando disse ser um cristão? Não entendo...

-- Você não está entendendo direito as coisas mesmo, percebi logo... – Diz o rei decepcionado e ainda pensativo, continua -- Meu tolo amigo, há uma grande diferença entre as atitudes que você teve e as atitudes de um verdadeiro cristão. O modo de agir é diferente se conhecemos ou não a Cristo... Pelas suas atitudes agiu como se não o conhecesse, ou pior ainda, agiu como se tudo que ele ensinou não valesse a pena, pois você ignorou tudo que ele ensinou... Não o vejo mais como um inocente. Como você o conhece então é culpado. A sua atitude foi bem pior que a de Pedro que o negou por três vezes... Com suas atitudes, o negou várias vezes. Desprezou-o verdadeiramente... Fez a missão dele ser inútil... Tudo o que ele fez, tudo o que ele ensinou, tudo o que ele pediu, tudo foi inútil para você...

O rei diz isso ao motorista que quando ouve suas palavras entra em pânico, pois sabia que o rei era muito sábio e talvez ele estivesse falando coisa séria e pensa que realmente poderia ser um ser desprezível.

Nesse momento o rei olha fixamente nos seus olhos e diz:

-- Se você, meu amigo infeliz, conhece a Cristo e o reconhece como um mestre não deveria ter tido essas atitudes tão “desespiritualizadas” ... Você disse há pouco “Só ele é digno de ser seguido!”, mas não o seguiu! Sua atitude não foi cristã... Uma pessoa cristã não daria tanto valor a um carro tão caro como você deu a esse carro cheirando a bebê; agiu muito errado quando o seu carro estava parado e esperava a sua cunhada e percebeu o revólver e pensou em tudo aquilo que me disse... Uma pessoa que conhece as palavras de Cristo jamais temeria a morte já que ele afirmou que a morte não existe; ele disse que todos dormem apenas, todos serão acordados no dia do Juízo Final.

-- O senhor não entende, majestade, tive muito medo de ficar sem o meu filho... Tive medo de nunca mais poder vê-lo novamente! -- diz o motorista assustado e chorando.

-- Se seguisse os ensinamentos de Cristo, de quem você disse “Só ele é digno de ser seguido!“, acreditaria que mesmo morrendo veria o seu filho, pois Cristo falou sobre o Reino do Céu e que um dia todos aqueles que o seguissem lá viveriam eternamente com ele... Se você segue o que Cristo ensinou nunca teria essas atitudes que acabou de ter. Um cristão não se apega às coisas desse mundo; ele, em primeiro lugar, busca as coisas do alto, pois entende que Cristo tem razão quando disse para seus seguidores buscarem as coisas que têm realmente relevância e que as outras coisas seriam acrescentadas... Meu amigo, você se apegou demais a um sonho que não tinha nada a ver com as coisas do alto, com as coisas de Cristo... Você viveu para as coisas materiais e não ouviu os ensinamentos do seu mestre. Cristo disse certa vez: “por que me chamas de mestre se não fazes o que ensino?” Eu, meu amigo, digo-lhe que quando você estava dentro do seu carro, que cheirava a um bebê, e aquele garoto o assustou deveria estar preparado para tudo... Deveria saber que os assaltantes matam suas vítimas porque eles têm medo de morrer, medo de serem surpreendidos por suas vítimas. Se você tivesse se acalmado e se lembrasse de Cristo, teria mostrado ao “assaltante” que você não iria fazer mal algum a ele; teria ficado com suas mãos para o alto à mostra, para que ele não achasse que você teria a intenção de tentar matá-lo; deveria sair do carro sem puxar o freio de mão, para que o “seu inimigo” não achasse que você iria pegar algo para surpreendê-lo; deveria tê-lo acalmado, pois um cristão tem as mesmas virtudes de Cristo, seu mestre. Acredito que se você mostrasse muita calma naquela hora, sairia tudo bem! Mas um cristão nem teria um carro desses... Sinceramente não vejo refletido em você a imagem de Jesus. Seu mestre é outro; com certeza não é Jesus...

Quando o rei diz isso o motorista tenta contra argumentar:

-- Eu não queria morrer agora, queria curtir a vida, depois de tanto trabalho. Entenda isso.

-- É você que não consegue me entender, meu amigo... Para um cristão, morrer é lucro; para um cristão, que está livre da ignorância, pouco importa quando morrer, o que importa realmente é morrer em Cristo... Morrer é dormir para um cristão! Você deveria se preocupar em ir para esse “sono” praticando o que o Cristo ensinou... Isso sim... E “curtir” a vida eterna!

Ao dizer isso se aproxima do rei uma mulher com uma criança no colo e olhando-o com desdém e com ironia diz:

-- O senhor se acha tão sabidão assim como pode desprezar Cristo? O senhor também não se lembrou dele, lembrou-se dele só agora porque o motorista o citou... Não achou que ele era o filho de Deus, por que então? Para mim você o negou também! Assuma o seu erro!

-- Mulher, muita coisa que você disse é verdade... Realmente não citei Cristo logo no começo, porém, quando estava dando a minha palestra sobre sabedoria há pouco lá dentro do palácio, iria sim comentar aos repórteres sobre Cristo, mesmo achando que era uma lenda. Pensei que ninguém a conhecia e pretendia ensiná-la a todas pessoas. Eu não falei nada, pois na hora pensei numa ideia muito boa de revelar ao mundo sobre Cristo, mas como ia falar? Falar que, mesmo sendo uma lenda, seus ensinamentos são dignos de ser seguidos? Quem iria me dar ouvidos? Então pretendia instituir essa lenda como uma inspiração divina a ser ensinada nas escolas para as crianças. A ideia era dizer ao povo que esse deus havia entrado em contato comigo. Eu ia mentir para fazer o bem ao mundo, por esse motivo não citei Cristo na palestra. Mas amanhã mesmo eu iria convocar todos os sábios do reino para me ajudar a inventar um modo de fazer o povo conhecer essa novidade como uma inspiração divina. Esse era o plano... Entendia que Jesus poderia salvar o mundo com seus ensinamentos mesmo sendo um mito...

E tendo o rei dito isso, a mulher com a criança no colo, com uma certa ira diz ao rei:

-- Jesus e nem Deus precisam de suas mentiras e o senhor não o citou no começo... Acredito que o senhor não ia citá-lo, muito menos fazer essa lei de ensinar nas escolas para as crianças... Não ia, eu sei o porquê... Porque mesmo o senhor se achando muito sábio, não pode ver que ele realmente é o Filho de Deus e existe de verdade... Você o entregaria aos romanos!

-- Mulher, digo a você que não achei mesmo que ele era o filho de Deus e sim uma fábula, pois quando vi esse mundo, esse reino que estou a governar, não vi, em momento algum, pessoas que tivessem atitudes que lembrassem os ensinamentos dele. Quando pediram que eu julgasse esse caso para ser um exemplo a ser seguido pensei comigo mesmo: “se aquela lenda pudesse exercer alguma influência sobre esse povo essas pessoas seriam a melhor civilização do mundo” ... Porém, em momento algum enxerguei vestígios de Cristo no coração de vocês... A atitude de cada um me levou a crer que, realmente, Cristo só poderia ser uma lenda desconhecida... Pois, em momento algum alguém disse algo parecido com o que um cristão diria...

-- O que diria um Cristão então? – Pergunta a mulher com o filho no colo e ainda com raiva do rei.

-- Citarei exemplos do que pessoas que conhecem a Cristo diriam na hora que o motorista acordou: “não podemos julgar esse homem, só Deus pode julgá-lo, pois só ele sabe o que se passa no coração desse homem”; ou “devemos perdoar esse homem, pois na mesma medida que o julgamos também seremos julgados”; e outras diriam ainda: “não cabe a um cristão julgar ninguém, cabe ao cristão saber o porquê do seu irmão ter feito algo de errado e ajudá-lo a não errar mais”; ainda outras pessoas diriam: “é claro que ninguém compra carros novos ou velhos para matar criancinhas, algo deve ter acontecido, vamos ver o que aconteceu e ajudar a sociedade de maneira tal que essas coisas não aconteçam novamente”; aí outro mais consciente da verdade cristã diria: “se acontecem essas coisas ainda é porque, nós, que somos cristãos não estamos fazendo as coisas certas, acho que estamos omissos, devemos ajudar as pessoas a entender a Cristo, ele nos confiou essa missão e o mundo não melhorou nada, e a culpa é toda de quem tem a verdade e não dá frutos para Cristo, deveríamos nos envergonharmos, pois temos culpa de muitas das coisas erradas do mundo; essas crianças aí, por exemplo, nós poderíamos tê-las ajudado e não o fizemos, nos furtamos dessa oportunidade, falhamos”. E outros se lembrando de outra passagem dos ensinamentos: “agora entendo o que o mestre quis dizer sobre os que se omitem irem para o inferno”.

E a mulher ouve isso tudo se envergonha, vira-se de costas e vai para casa, abre os evangelhos e começa a ler.

Nisso chega finalmente as autoridades responsáveis pela remoção dos corpos das crianças, levam os corpos e o povo não sai de perto do rei.

Nesse momento o mesmo repórter atento que sugeriu ao rei que julgasse o caso se aproxima dele e confessa-lhe:

-- Majestade, confesso que em momento algum pensei em Cristo, sinto-me muito mal, pois se dependesse de mim teria matado o motorista... Quando vi essas crianças, desse jeito, lembrei-me dos meus filhos que têm mais ao menos as idades desses que aqui morreram... Naquele momento, coloquei-me no lugar dos seus pais.

E escutando essas palavras do repórter o rei o interrompe:

-- Há pouco eu havia dito que não devemos nos pormos no lugar de ninguém, porém, agora, digo que esqueçam o que eu disse...

-- Não entendi... Há pouco o que o senhor disse era a mais sábia de todas as filosofias de todos os homens, digna de ser seguida! -- Diz o repórter atento e o rei responde:

-- Eu disse aquilo porque eu era um tolo... Seguia a muitas filosofias dos homens tolos, mas, agora, não sou mais um tolo... Agora eu digo que sempre que acontecer alguma coisa nós devemos na verdade nos pôr no lugar de Cristo e pensar qual seria a atitude dele; devemos em todas as situações de nossas vidas, fazermos as coisas em comunhão com seus ensinamentos... Eu digo isso porque nós, enquanto seres humanos somos todos falhos, somos influenciados pela emoção, pela falta de conhecimentos; e Jesus é o único que realmente é sábio e justo... Então a melhor maneira de se proceder é à maneira que Cristo ensinou... E, segundo o que o jardineiro do palácio real me ensinou Cristo veio à Terra por vários motivos e um deles é ser um exemplo de conduta; o Deus se fez em carne na pele do seu filho para nos ensinar a viver como ele acredita ser justo. Essa vinda do filho de Deus à Terra é um presente de Deus às pessoas. Não se inspirar em Cristo que veio como um presente de Deus, é não querer ser filho Dele. Negar Cristo é negar um presente de Deus, é negar um convite para sermos seus filhos... Pois o filho sempre quer agir como age o pai. Então o filho é como o Pai; age como Ele... Então devemos em todas as ocasiões de nossas vidas nós fazermos uma pergunta: “se Jesus estivesse aqui em meu lugar, o que ele faria?”, com a resposta dessa pergunta as pessoas, os filhos de Deus, fariam as coisas do modo que fazem os filhos de Deus. Mas as pessoas poderiam fazer a pergunta de outra maneira: “se Jesus estivesse aqui do meu lado e eu lhe contasse sobre o que eu vou fazer, o que ele me aconselharia a fazer?”, então com essa resposta é só fazer as coisas de modo que o filho de Deus faria e você será filho de Deus também. Mas é muito importante conhecer os ensinamentos de Cristo para poder se fazer essas perguntas.

E tendo dito tudo isso o rei se espanta com o que acaba de perceber e diz:

-- Prestem a atenção, todos vocês... Quero dizer-lhes algo muito importante!

Quando o rei diz isso todas as pessoas se preparam para escutar suas palavras e ele declara finalmente:

-- Nos últimos 2 000 anos, os homens fizeram muitas coisas, mas, porém, tudo o que a humanidade, criou, desenvolveu, imaginou, sonhou não serve para nada, se não servir para ajudar, entender, ensinar, divulgar (ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda criatura), ensinar sobre Jesus, a vida, a missão, os ensinamentos, o amor (amai-vos uns aos outros assim como eu os tenho amado), o sacrifício e ressurreição. Comunico a todos que não vou mais voltar às montanhas, não vou voltar a estudar o que disseram os grandes poetas, cientistas e filósofos ao longo dos tempos... Não vou mais procurar a verdade naquelas montanhas...

-- Vossa majestade irá nos governar? Viva! Viva! Longa vida ao rei... -- diz o repórter atento e o povo felicita “Viva! Viva! Longa vida ao rei...”

E o rei explica:

-- Eu não vou voltar às montanhas, porém, não vou governar também... Não quero governar nada, tenho coisas muito mais importantes a fazer...

-- Vai procurar a verdade em outro lugar ou em outros livros? O senhor comprará uma nova biblioteca particular, majestade? – Insistiu o repórter atento.

E o rei o responde:

-- Eu desprezo os livros, desprezo todas as coisas e a sabedoria deste mundo. Tudo aqui é frívolo, passageiro, ilusório e enganoso como uma miragem. Os sábios desse mundo são orgulhosos, porém a morte há de apagá-los... A imortalidade dos gênios desaparecerá com toda a terra. Eles são insensatos e seguem o caminho errado. Tomam a mentira pela verdade e o falho pela perfeição. Não trocarei o céu pela terra. Não quero compreendê-los; não quero a glória desse mundo; quero a glória do céu... Fiquei durante muito tempo procurando a verdade e agora a encontrei, na verdade a verdade me encontrou: a verdade é Cristo! Para evidenciar o meu completo desprezo por tudo aquilo que constitui a razão da vida terrena, recuso-me a governar. Não quero nada que possa ser diferente do que o Cristo me aconselharia a fazer! Eu renuncio ao meu reino terrestre; devotarei a minha vida ao reino do céu... Jamais trocarei um reino eterno por uma ilusão... Agora sim, me considero realmente sábio, pois a minha vida será baseada em Cristo. A sabedoria Dele será a minha vontade atuante sempre e sempre até o fim dos meus dias aqui nesse mundo. E a partir desse instante sairei na minha missão de evangelizar as pessoas que não conhecem a verdade.

E após um instante o rei diz ainda -- E acho importante ceder agora o poder ao senador mais velho até haver uma eleição democrática. -- E tendo dito isso o rei se aproxima do jardineiro do palácio e pede-lhe curvando-se diante dele: -- Você falou sobre o batismo... Tem algo que o impeça de que eu seja batizado por você, meu bom amigo?

O jardineiro prontamente o responde assim:

-- Sim, eu posso sim, vossa majestade... Vamos ao lago do jardim do palácio real. -- E, tendo dito isso, foram o rei, o jardineiro, os repórteres, os cientistas e todos que puderam entrar no imenso jardim real. Ao término do batismo o jardineiro diz ao rei:

-- Vossa majestade já está batizado... – E o rei nesse instante responde ao jardineiro:

-- Eu não sou rei, só Cristo é rei; só ele pode nos governar.

O ex-rei diz isso, dá um abraço no jardineiro e lhe agradece por ter ensinado-lhe a verdade e salvo a sua vida e diz ainda que ele havia perdido muito tempo tentando aprender a verdade através de filosofias inventadas por homens tolos.

Nisso o jardineiro fixa o olhar nos olhos do ex-rei e diz:

-- Não diga isso... Todos os gênios desse mundo, de certa maneira, ajudaram-no a tornar-se sábio o bastante para que o senhor pudesse reconhecer Cristo como a verdade. E, em verdade, digo-lhe que se o senhor não tivesse ido às montanhas e estudado os gênios desse mundo nunca entenderia a Cristo... O senhor seria igual a essas pessoas; talvez fosse até um péssimo rei... Portanto, meu querido irmão agradeça a eles... Pois mesmo que eu o ensinasse sobre Cristo, o senhor jamais poderia entendê-lo e aceitá-lo sem ter exercitado o seu cérebro; o senhor seria igual a esse povo ignorante... Esse povo que nem se lembra do nosso mestre... O senhor o chamaria de mestre, mas apenas com os lábios, não seguiria seus ensinamentos com o coração.

-- Sim, meu irmão, entendi tudo isso que você me disse e, aproveitando o próprio conselho que eu mesmo dei ao motorista, vou às universidades, aos presídios, às escolas, aos hospitais, às praças públicas etc. e ensinarei a todos o que eu puder; que, através de Cristo, ou seja, através dos ensinamentos dele, poderemos todos nos salvar da ignorância desse mundo e começar a viver em Cristo, nos prepararemos para um dia encontrá-lo e poder chamá-lo de Mestre, sem a preocupação de ouvir dele essa resposta: “por que você me chama de mestre se não faz aquilo que eu ensinei? ”.

E ao findar todas essas palavras o rei sai. Vai pregar a verdade que tanto procurou, e agora muito feliz por finalmente tê-la encontrado.

Ele sai pensando consigo próprio: “estudei com muitos mestres em livros e pessoalmente por oito dezenas de anos e foi numa conversa de duas horas com um simples jardineiro que eu encontrei a verdade” ...

E andando sozinho pensa novamente: “todas essas emissoras de TV estavam procurando alguém sábio para dar ao povo do mundo todo uma sabedoria... Mas que tolos são eles... Não sabiam que Deus já havia dado ao mundo alguém para ser seguido: Jesus!”.

Dá mais alguns passos e pensa mais: “Há dois mil anos, Deus olhou para a Terra e não viu nenhum justo e mandou seu filho para ser um presente ao povo, para ser exemplo de conduta a ser seguido e isso representava a nova aliança de Deus com o povo; do Pai com todas as pessoas que quisessem ser seus filhos... Mas, todas essas emissoras de TV do mundo todo viram que o mundo não tinha um justo; e resolveram procurar um sábio em quem o povo pudesse se espelhar... Queriam dar ao povo esse presente; queriam me dar ao povo de todo o mundo... Acreditavam que eu era sábio... Como puderam esquecer de Jesus e seu convite para sermos seus irmãos? Como puderam esquecer que ele é o único digno de ser seguido? Que tolos são os homens!”.

Dois meses após tudo isso acontecer àquela citada agência espacial que estava no dia da entrevista com uma máquina especial para filmar a aura do rei fez um relatório sobre suas descobertas, mas antes de divulgar o resultado disseram que aconteceram coisas muito estranhas com o aparelho de medir as luzes que saiam do pesquisado. O aparelho estava muito perto do ex-rei quando ele chegou próximo ao local onde estavam as crianças atropeladas. Tentaram tirar fotografias que revelariam o tamanho da aura quando ele estivesse filosofando, porém essas fotos sempre queimavam.

Parecia que havia muita luz em volta do rei, porém os cientistas responsáveis pelos estudos não enxergavam luz alguma. Essa máquina era programada para não deixar qualquer coisa desse mundo intervir.

Depois os pesquisadores resolveram ficar bem longe para ver se conseguiriam terminar o trabalho e quando eles finalmente conseguiram ver a aura do entrevistado descobriram que ela não era tão grande como eles imaginavam e isso gerou uma dúvida, o que fazia com que as fotos queimassem se não era a intensidade da aura do rei? De onde vinha a luz que queimava as fotos? Só depois os pesquisadores descobriram que essa luz vinha do jardineiro; descobriram que a aura dele era mais de um milhão vezes maior que a do rei!

Os cientistas desses estudos, todos, mesmo sendo ateus, não tiveram dúvidas em afirmar que só um ser com a alma do tamanho de Deus, se ele existisse, poderia ter uma espiritualidade assim. E alguns dos cientistas que trabalhavam nas pesquisas se converteram ao cristianismo no mesmo instante.

Os cientistas vendo a sequência em que as fotos foram tiradas afirmaram que no momento em que o rei descobre que Cristo não era uma lenda e sim o maior presente que Deus deu aos seres humanos para ser um exemplo de conduta a ser seguido, a sua aura aumentou cem vezes. E quando o rei renunciou o seu reinado aumentou mais cem vezes a luminosidade de sua aura.

Os cientistas disseram que quando o rei foi batizado perceberam nas fotos uma luz intensa entrando nele e isso fez com que sua aura aumentasse milhares de vezes. E, quando o rei disse que sairia pelo mundo a pregar a verdade que acabou de aprender a sua aura quase que se igualava à do jardineiro; isso porque, segundo o próprio rei, a partir daquela data, não seria mais a sua cabeça que o governaria e sim Cristo. O rei disse que além de renunciar a tudo que ele tinha de bens materiais, renunciaria toda a sua própria sabedoria que aprendeu com as verdades dos tolos homens desse mundo.

E três meses depois que o rei deixou a vida de monarca todos os jornais publicaram em suas primeiras páginas que no dia em que houve o atropelamento e morte dos inocentes, o jardineiro visitou o velório das pequenas vítimas e conversou com os seus pais. Ele havia perguntado-lhes se eles queriam os filhos de volta e eles disseram que sim; mas que não poderiam tê-los mais. Disseram ao jardineiro que se eles pudessem tê-los de volta, fariam tudo bem diferente e que cuidariam direito deles. E quando eles acabaram de dizer isso o jardineiro sumiu diante de seus olhos. Eles ainda puderam ouvir um pedido do jardineiro: “daqui a noventa dias vocês poderão contar a todas as pessoas sobre mim”. E, quando a voz do jardineiro sumiu, e eles se abraçaram e ouviram vozes suaves, conhecidas, dizendo que estavam com fome. E todos choraram. As crianças, por estarem famintas; e as lágrimas dos pais eram de alegria. E eles pegaram as crianças e foram para casa alimentá-las e amá-las, dessa vez, de verdade.

E, terminando de contar esta história, o interno do Hospício Municipal coloca a cabeça novamente através do buraco do muro e pergunta para as pessoas que estão do lado de fora no ponto de ônibus:

-- Ei! ... Ei! ... Psiu! Você se acha sábio? Ei! ... Ei! ... Psiu! Você se acha justo?

Todos se entreolham e o interno diz para a vendedora de cachorros-quentes:

-- Você não seria uma boa governante; pois, para começar a história, a sua filhinha foi violentada e você nem quis escutá-la... Eu a ouvi comentar com uma amiga ontem, coitadinha dela! Ela disse que você não a escutaria... Se você não foi justa nem com a sua própria filha, como é que seria o seu governo? Mandaria matar todas as pessoas que não concordassem com a sua tirania? O mundo não precisa da sua injustiça... O mundo já tem um modelo de justiça para ser seguido...

E tendo ouvido isso do interno a vendedora de cachorros-quentes sai correndo, desesperada, gritando pelo nome da sua filha, esquecendo ou não dando mais importância alguma ao seu carrinho de cachorros-quentes.

E todas as pessoas que estavam no ponto de ônibus saíram envergonhados sem dizerem uma só palavra.

FIM

Isaias F. de Amorim

POETA ISAÍAS AMORIM
Enviado por POETA ISAÍAS AMORIM em 05/10/2009
Reeditado em 25/11/2015
Código do texto: T1849750
Classificação de conteúdo: seguro
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