XI - No Reino dos Miguéis

Miguel das Neves Alves estava de volta à ativa.

Curado plenamente e, para muitos um espanto.

Corria pelos cantos que não mais andaria, estava imprestável e impossibilitado de exercer funções simples.

Devido ao seu recolhimento sem visitas, não imaginava os comentários a seu respeito.

Ficou impressionado com tanta fofoca sobre ele.

Diziam que sofria castigo por questionar a religião e não ser freqüentador das missas.

Outrora, por vezes, era flagrado discutindo com o padre, porém eram discussões saudáveis que o próprio padre fazia questão de preservar.

Dizia o velho:

“Se não fosse por Miguel, não exercitaria meus argumentos, pois nessa cidadela todos me acatam incondicionalmente”.

“Se eu disser que madeira virou pedra, ninguém discute. Isso me chateia profundamente e me deixa sem argumentos à medida que o tempo passa”.

Em verdade, todos criam que o jovem Miguel era um extraviado para a vida.

Noites de bebedeira, suposto uso de substâncias entorpecentes, livros e mais livros de filosofia embaixo dos braços, tudo o que as mães não queriam para seus filhos era encontrado na figura de Miguel das Neves Alves.

Por vezes, foi impossibilitado por pais que não permitiam o namoro de suas filhas com um sujeito esquisito e de fala complicada.

Temiam, os pais, que ele tinha poderes de hipnotizar suas filhas, pois as encontravam quase sempre apaixonadas de uma maneira peculiar: escreviam poemas endereçados a ele, mudavam repentinamente o jeito caipira de falar, tomavam mais banhos, se cuidavam mais, pele, unhas, cabelo, tudo para ficar atraentes para o professor Miguel, que não via com bons olhos meninas na tenra idade, pós menarca, se apaixonando por ele.

Gostava de vaginas mais velhas e decididas.

Proclamava em seus discursos de boteco que menina nova chora demais.

Também enfatizava para seus amigos e colegas que, não gostaria de naquelas alturas da vida, encarnar o professor Humbert Humbert, personagem criada por Wladimir Nabokov em seu romance Lolita, que se apaixonara intensamente por uma ninfeta bela e que causava, dentro do coração de H. H., intensos desejos sexuais para um homem de meia idade, como estava escrito.

Apreciava incondicionalmente mulheres formadas que: “saibam rebolar bem em cima de uma cama quente e que tenham argumentos plausíveis diante de uma discussão, debate ou problemática”, enfatizava para os companheiros de seu cotidiano. Todos riam e concordavam e brindavam às mulheres.

Tinha alguns amigos de bar que sempre ficavam a ouví-lo.

Não diziam coisa com coisa, falas desconectadas, cuspe nos cantos da boca e cabelos despenteados, mas na hora de pagar a conta diziam perfeitamente:

“Pague você Miguel!”.

Era assim todo fim de tarde.

Miguel estava sentido uma enorme falta desses encontros.

Os seus companheiros de boteco também sentiam sua falta, sua presença deixava todos falantes, dispostos e cheios de alegria, pois Miguel também tinha em sua mente um bom acervo de piadas.

Sempre chegava com uma anedota nova que fazia todos rirem descontroladamente. Mesmo quando a piada era sem graça, Miguel possuía um jeito teatral de conduzir a estória, de modo que sempre ficava engraçada, fosse no meio ou no final sempre riam.

Paralelamente ao desenvolvimento da cidadela houve um fato inusitado no qual ninguém se apercebia, mas que de súbito ocasionou tremendo desconforto em toda a população da Cidade dos Miguéis.

Chegou um momento em que enormes quantidades de cachorros vagavam pelas ruas aos montes sem nenhum controle epidemiológico local.

Cachorros de todos os tamanhos, quase todos mestiços, os chamados vira-latas, eram encontrados por todos os lugares onde nossa limitada visão poderia alcançar.

Estavam em todos os lugares, em todas as ruas, em todas as casas, na porta da prefeitura, na entrada da igreja, nos arredores da escola, perambulando dentro do cemitério, nas estradas próximas a cidadela, a caminho do grande rio e nos lugares mais inusitados que nossa mente possa imaginar.

Praticamente não havia uma família sequer que não possuísse uma espécie canina. A própria dona Maria das Neves, mãe de Miguel das Neves Alves possuía três fêmeas. Explicava que sempre sonhara em ter uma filha, mas o destino lhe mandou um belo menino e então, supria a falta de uma filha companheira adotando cachorras e tratando-as como se filhas fossem.

Muitos cães eram criados soltos, machos, fêmeas, cachorros velhos cheios de sarna, recheados de carrapatos, perdendo pêlos aos montes, gripados com uma tosse estrondosa e seca, outros com patas quebradas vagavam mancando pelas ruas tombando latões de lixo e revirando todo tipo de entulho que se acumulava nos terrenos baldios.

Havia filhotes às centenas causando estardalhaço, latindo sem cessar noites a fio.

Alguns cachorros tinham o estranho hábito de correr atrás de objetos em movimento, fossem bicicletas, carroças, carros e caminhões, todos estavam sujeitos a uma corrida contra os cachorros de rua.

Inúmeras vezes, a população presenciava indiferente à lutas ferozes por conquista de território, de modo que nas esquinas dos bares, por terem sempre alguma migalha jogada ao chão, observava-se batalhas épicas entre os mamíferos caninos quando um ou outro cachorro desavisado passava pelos limites previamente demarcados com suas urinas junto ao território de outro.

Com relativa freqüência, diversos assuntos, debates e discussões, piadas e pequenos casos, eram interrompidos pelos sinistros latidos e rosnadas das brigas de cachorros que preservavam seu terreno, seu espaço ou sua esquina.

Sentia-se ao vento um cheiro constante de pêlos molhados, aquele cheiro peculiar de cachorro sujo, cachorro que havia rolado literalmente na carniça ou qualquer tipo de dejeto que encontrasse para seu deleite.

Vezes a fio, presenciavam-se ataques de cães fila, pastores alemães e todo tipo de cachorro de grande porte sob os demais.

Havia mortes e muitos atropelamentos. Sempre se encontravam caninos esmagados por rodas de carros nos asfaltos.

Era como se houvessem explodido e, suas víceras expostas permaneciam ao leu por dias, até que de tanto serem pisoteados e novamente esmagados pelos veículos e novamente e novamente, se desintegravam no próprio asfalto, como se não precisassem ser removidos diariamente, carcaças, restos, víceras e dejetos de cachorros de rua. Ficava apenas, a mancha escura.

Algumas localidades dentro da cidadela possuíam verdadeiros focos de reprodução canina. Havia um bairro que tinha o pejorativo apelido de “vila dos cachorros” tamanha a quantidade de cães que por ali habitavam.

Devido a essa epidêmica proliferação, uma quantidade significativa de carrapatos vivia em perfeita harmonia entre cães e humanos.

Sempre se presenciava alguma pessoa a coçar discretamente seu corpo. O padre ancião se coçava, o delegado se coçava, o prefeito e toda a sua família se coçavam, a escola e seus alunos se coçavam, enfim, quem nascia por aquelas plagas tinha o nefasto hábito de se coçar sem perceber.

Parecia que todos tinham o mesmo tique nervoso, como uma doença psicossomática generalizada e unânime entre os habitantes do local. Fazia parte da paisagem urbana da pequena cidadela e ninguém se incomodava enfaticamente.

Há que se ressaltar que não havia reclamações junto ao poder público do município e aos órgãos de saúde estatal.

Parecia que tudo aquilo era normal, pois cresciam todos em meio ao grande contingente populacional canino e a vida seguia em meio a essa peculiar normalidade.

Marciano James
Enviado por Marciano James em 13/07/2009
Reeditado em 11/04/2012
Código do texto: T1696919
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