O "GERUNDISMO"

Procuro fugir dele que nem “o diabo da cruz”, como fala a voz popular. Cuido até na interlocução singela, coloquial, se não o GERÚNDIO VERBAL entra nas artérias e sai ditando normas e ritmos na linguagem mais simples e fazendo misérias dentro do texto literário, especialmente no poema. Aliás, é assim mesmo: a espontaneidade intuitiva traz as frases ou versos quase acabados, é só ter cuidado com os vícios de linguagem... Somente a prática do ofício de escriba permite que se possa sentir e corrigir os erros. E o leitor não perdoa aquilo que lhe fere os olhos ou ouvidos. Faze tu mesmo a experiência e te surpreenderás. Até mesmo as pessoas de baixa escolaridade não gostam de ouvir erros grosseiros. Em Poesia, o gerúndio é uma roda de carreta – rangendo, gemendo a sua própria natureza displicente e tardia – e, por essa lerdeza, sempre dá um “arrastar de lesma” no verso, principalmente se o verbo for polissilábico... No entanto, há uma exceção. Dá pra tolerar o seu uso quando ‘arredonda’ o verso; o poema ganha em andamento rítmico e pode vir a funcionar como figura de linguagem, criando e explorando a imagística... Neste caso, a carreta, com suas rotundas rodas, pode ser um “rancho sobre duas luas / tartarugando no vargedo”, como já me beneficiou o famigerado gerúndio num poema da vertente regionalista...

– Do livro A POESIA SEM SEGREDOS, 2012.

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