Rapunzel

Lá do alto da torre, a menina olhava a rua. Sonhava ser pássaro. Voar com sua moto pelos ares da vida, num sonho infante de crescer. Aprisionada pela disputa de seus pais, ainda mais, com uma madrinha, dita tia, amorosa por demais neste mundo. Assim como a mãe da jovem do conto, que para livrá-la dos males do mundo, resolve privar o mundo de sua presença trancando numa torre, esta nova versão há uma isolação do mundo.

Há uma história para usurpar para si. Não houve um ventre. Um ciúme mordaz separa princesa e propensa mãe. E o príncipe salvador embainha a espada e cruza os braços. O mundo se curva diante da destronada, arfando ao solo, sem forças, nem defensores. As bruxas soltas pela rua.

O último canto ecoa como um grito de socorro na calada da meia-noite. O cantar perene, que enobrece o Príncipe do cavalo alado, se esvai, enquanto este assiste a tudo de sobre o muro, num profundo silêncio, quase patético, mais preocupado com aparências do que evidencias.

A bruxa má invade a torre, arrancando dos pais, as tranças douradas, que os liga a jovem. A possessão atinge seu limite. Não há mais correntes presas nos pés. Voa livre. Numa ânsia ácida de livrar-se do peso posto sobre os ombros, ataca como se fera ferida, com território invadido. Aquela sai de fininho na sua vassoura mágica e vara de condão á postos, se esvai por entre a selva.

Ciúmes e dinheiro são motivos fortes para um crime, mas vá saber o que acontece entre quatro paredes numa sociedade que só vive de aparências. As evidências indicam todas as setas numa só direção. Os demonstrativos de afeto em público, nem sempre condizem com a vida privada. Mesmo que uma pedra entre no sapato, mesmo que nem se perceba, com o tempo fere o pé, corroendo imperceptivelmente. Uma pessoa mesmo que de longe nos passa as premissas falaciosas dum engodo armado.

Quem vaga num deserto sem oásis, são os peritos, que trabalham no limite, sem reconhecimento e atacados por pessoas capazes de imaginar perfeição em qualquer crime. Neste Brasil desacreditado em todos os setores, ultimamente até no futebol e no Carnaval, quem prevalece é a imprensa, que massifica um caso isolado, e ai sim pressionam a opinião publica e as autoridades para soluções, que quase sempre paliativas.

Casos como o do garoto João Hélio, em que projetos brotaram no congresso nacional, diminuir idade penal, entre elas, que pararam numa gaveta qualquer de Brasília, para alegria das traças num mundo de ratazanas. Vários casos iguais já ocorreram neste país, sem voos pela janela, mas com crueldade igual, sem a mesma repercussão. Estamos ficando irracionais, achando que a humanidade está bem, quando estamos parecendo animais selvagens em savanas.

A liberdade e velocidade de informação impressa nos dias atuais nos fazem ver em tempo real, mesmo que ocorra uma morte em Bagdá ou Tuvalu. A comoção geral de uma nação de dimensões continentais como o Brasil, por uma morte em São Paulo, não é como dizem, uma ação humana, pois muitas mortes acontecem de minuto a minuto na nossa guerra do dia a dia, com problemas de saúde publica, segurança e no transito.

Não é fato isolado do fim do mundo ou terceiro, pois na Europa, também, ouve um caso semelhante, que comoveu o mundo, estrelas mundiais se envolveram no caso, para um desfecho patético. Mas por aqui a solução está no alto da torre, mas nem a Rapunzel nem as tranças estão no lugar.

J B Ziegler
Enviado por J B Ziegler em 21/04/2008
Reeditado em 22/04/2008
Código do texto: T956220
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