FOI ASSIM QUE VIMOS O BRASIL JOGAR...

Meu sogro gostava muito de futebol. Torcedor fanático do flamengo, eu o via em todos os jogos do campeonato carioca em frente a sua radiola ABC, à toda altura. Também naquela época as transmissões davam gosto se escutar.
Depois com a chegada da televisão, ele não perdia um jogo.  Quando o seu time vencia, havia festa e alegria. Por outro lado, se alguém quisesse brigar, falasse algo com ele no dia que o flamengo perdia.

Foi vendo aquela forma tão pura e sincera dele torcer pelo flamengo, que também virei flamenguista. Quando se aproximava uma copa do mundo, os ânimos se exaltavam.

Um dia, soubemos que a seleção brasileira viria jogar em Fortaleza, nos amistosos preparativos para uma copa do mundo. Brasil e Uruguai. Ele veio falar comigo, dizendo do sonho que tinha em ver nossa seleção jogar, ao vivo e a cores. Sua forma de pedir foi tão convincente, que resolvemos vir à Fortaleza com este objetivo.

Saímos de Mossoró pela manhã cedinho, Ele, meu cunhado e esposa, eu e minha esposa. Chegamos logo de manhã. Passeamos, fizemos compras e almoçamos numa peixada famosa lá na avenida,  de frente para o mar.

E finalmente por volta de 17 horas nos dirigimos para o estádio. Incrível, já havia filas. Os estacionamentos já estavam quase todos lotados e estacionamos já bem distante. Depois de mais de uma hora na fila, conseguimos adentrar no estádio castelão. A seleção não jogou bem. Fomos informados de que depois do jogo haveria um grande congestionamento, que demoraria por várias horas. Temendo ficarmos presos no mesmo, resolvemos sair antes do término do jogo. Aos quarenta minutos do segundo tempo, tentamos sair rapidamente. Quando já estávamos fora do estádio, ouvimos o grito de gol da multidão. Ouvimos pelo rádio de meu sogro. Gol de pênalti. Em seguida o jogo acabou e fomos obrigados a sair correndo, para nos livramos do maldito engarrafamento. Quando olhamos para o estádio, uma verdadeira multidão corria em nossa direção. Aumentamos mais ainda o ritmo de nossa carreira. Ao nos aproximarmos do local do nosso carro, o rádio do meu sogro caiu e se espatifou no chão. As mulheres reclamavam e choravam, meu cunhado com um palmo de língua de fora. Meu coração parecia um tambor...

Mas, graças a Deus, conseguimos nos livrar do congestionamento. Pegamos a rodovia e voltamos para Mossoró. Viagem muito cansativa, para quem já estava cansado. Entre Aracati e Mossoró, alta madrugada,  o silêncio no carro era grande. Todos dormiam.  Dei um cochilo e acordei com um barulho do carro correndo fora da estrada. As moitas de velame batiam no piso do carro e aquele barulho forte acordou todo mundo de sobressalto.  O medo foi muito grande. Voltei para o asfalto. Até o sono passou, mas minhas pernas tremiam. Chegamos em casa de madrugada, todos muito cansados. E meu sogro ainda reclamava que não vira o gol e que o seu rádio havia se quebrado todo. Enfim, fizemos uma viagem horrível.

No dia seguinte, soubemos pela TV que o congestionamento durou até quase de manhã.

A partir daquele dia, Affh!,  sempre achamos melhor vermos os jogos pela televisão mesmo.



(Obs. Meu sogro depois mandou consertar seu rádio, que voltou a funcionar normalmente. Quando ele faleceu, o dito cujo ficou com minha sogra que ainda o guarda com carinho)