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Miloca e os diabinhos quíntuplos


Venho dos lados do rio Tingüi (quem sou eu para vir dos lados de Beja, como o poeta dos heterônimos) e deparo com Miloca, no terraço de um boteco próximo à maternidade, perdendo toda a sua grana de pensionista no caça-níquel. Meu Deus do céu! Ela está convencida de que ainda vai abiscoitar o acumulado (oitocentas pratas), mas quando retorna a casa deixa-o sempre mais gordo para um sortudo qualquer. Por duas vezes em cinco semanas o acumulado saiu para jogadores que ocuparam a máquina imediatamente depois dela. Quando me conta como deixou de ganhar por um triz verdadeiras fortunas com os diabinhos quíntuplos (não me perguntem o que é isso, para mim também é grego), em vez de permitir que chore suas mágoas no meu ombro recordo-lhe que Dostoiévski — a quem Miloca admira desde os tempos do ginásio — passou grande parte da existência na pindaíba justamente por causa do jogo. O exemplo sai pela culatra. Parece-lhe uma glória e tanto compartilhar esse traço com o romancista russo. Não tenho outra escolha senão ensaiar um contra-argumento pouco caridoso: por haver torrado no vinte-e-um o adiantamento de um editor, Dostoiévski viu-se obrigado a escrever às pressas nada menos que Crime e castigo, a mais bem-sucedida de suas obras. E Miloca, vai fazer o quê? Tomar umas e outras e dar uns tapas no mercuriano Águia Negra? Minha comparação também saiu pela culatra. Achou-me grosseiro a cinqüentona. Afinal, ela não é nenhuma Dostoiévski mas está redigindo uma cartilha para o núcleo bolivariano de Marechal Hermes, pergunte só ao professor Jacôbi se não levo jeito para as letras. De repente ficou braba. E que história é essa de tomar umas e outras?, perguntou-me com a voz pastosa e indignada dos biriteiros. E daí não parou mais, trazendo à tona, na frente dos outros, todo o meu passado de pinguço e de apostador no jogo do bicho. Foi mais longe: chamou-me de abstêmio, a palavra mais antipática do mundo. Para dizer tudo, levou uns quinze minutos soltando os bichos em cima de mim e coroou a inusitada performance enfiando o dedo (calma, pessoal) no meu copo de água tônica. "Porra, Miloca", disse eu, visivelmente contrariado. Mas ela já estava sorrindo. Tinha encontrado cinco reais em sua bolsa de cânhamo e voltara toda afobada para a máquina dos diabinhos quíntuplos. Puto dentro da roupa, pedi outra água tônica, engoli a vergonha e fiquei junto ao balcão, na butuca, torcendo contra ela.


[23.1.2008]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 23/01/2008
Código do texto: T829687

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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