Mais Lembranças dos Tempos de Estudante
Abril de 1964. O outono já se fazia presente. Manhãs, que convidavam esticar a noite de sono e sonhos em Volta Redonda, município do Rio de Janeiro, conhecido como “Cidade do Aço”, pelo fato de ter sido implantada, naquele município, a primeira siderúrgica, a CSN, - Companhia Siderúrgica Nacional.
Um projeto educacional do curtíssimo governo Jânio Quadros, denominado “UT – Universidade do Trabalho, tinha como objetivo criar cursos específicos em modalidade condizente com a região. Volta Redonda e a cidade vizinha Barra Mansa tinham grande atividade industrial metalúrgica. A UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro participou desse projeto, com a criação do “Curso de Engenharia Industrial Metalúrgica”.
O curso complementava a formação de estudantes de outros cursos de escolas de engenharia públicas, com os dois primeiros anos básicos realizados.
Fora transferido do 3º ano de Engenharia Civil da EEUP – Escola de Engenharia da Universidade do Pará. De mesma forma, muitos outros jovens de diversos estados brasileiros.
Vivia numa república de estudantes universitários, que faziam esse curso específico de engenharia metalúrgica da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. A república, em que morava, ficava num prédio de grande dimensão horizontal e com três andares e sem elevadores, “Edifício Bandeirantes”.
Para tomar conta diariamente dos acessos, por escada, pela única entrada do prédio “Bandeirantes” e levar os carrinhos de lixo para junto da rua, nos dias de coleta, tinha o prestativo e eficaz porteiro Simão, praticamente, analfabeto e fervoroso protestante.
Ainda não se passara nem uma semana do golpe e já fomos informados, que operadores da repressão viriam bisbilhotar nossos apartamentos, para identificar, livros, revistas e outras publicações julgadas, pelos mesmos, como subversivas e recolhê-las.
Tinha umas revistas sobre a economia chinesa, principalmente de propaganda sobre sua revolução agrícola. Revista com fotos lindíssimas e muito colorida, que a paranoia da repressão poderia julgar como subversiva. Tratei de desfazer-me. Mas, como somente tive o cuidado de livrar-me de ser identificado com as mesmas, sapequei-as no carrinho de lixo.
Simão, sempre atento a tudo que acontecia, curioso foi olhar o material descartado, provavelmente também achou lindo e, apesar de não ter condições para entendimento dos textos, levou para curtir as imagens e as guardava numa das quatro gavetas de sua mesa.
Não demorou muito, junto com a aurora, apareceram meia dúzia de militares do terceiro escalão hierárquico do Exército brasileiro. Avisaram que, antes de irmos para as aulas matinais, deixássemos as chaves nas respectivas fechaduras para que fizessem a inspeção.
Saí tranquilo, pois me desfizera do que julgara que poderia me comprometer.
Voltávamos somente nos finais de tarde. Almoçávamos no Centro, numa das pensões construídas para os funcionários solteiros da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional. Por lá, depois do almoço, “fazíamos uma hora” e depois já íamos para as aulas práticas, em sua maioria, nas dependências da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional.
Ao voltar, Simão me entregou e, além da chave, surpreendentemente, um comprovante simples do que haviam levado de nosso apartamento. Levaram somente duas publicações e ambas, minhas, dos outros três companheiros de apartamento e de beliches, não levaram nada. Uma apostila titulada “Laminação de Metais Não Ferrosos”, mas encapada com papel de cor vermelha e um livro de poemas clássicos de poeta chinês, com uma capa dura marrom escuro e titulado com letras estilizadas e em amarelo.
Antes de subir as escadas, Simão num tom amedrontado, contou-me que havia pego as revistas que tinha jogado no lixo e que elas, também, tinham sido recolhidas.
Como Simão não era estudante de escola, onde a grande maioria dos professores era militar do Exército, o único a ser chamado para questionamentos investigativos, foi o próprio. Assim que ele me contou, quando deveria comparecer, falei a um dos professores sobre o ocorrido e solicitei que interferisse, para que a investigação fosse bem tranquila e sem consequências.
Simão voltou da investigação e num tom de alívio confidenciou que estava tudo em ordem, mas que fora gentilmente convidado a passar informações, sobre reuniões e movimentações suspeitas, que acontecessem no prédio.
Apesar de no próximo 17 de julho ser, no baile de formatura da quarta turma, minha despedida da escola, da cidade, dos bailes, dos amigos e não ter condições de acompanhar o comportamento de Simão, tive a certeza de que continuou somente como porteiro do “Bandeirantes” e fiel a república e aos universitários.
Paralelamente, os espetáculos iniciais do “circo dos horrores”, continuavam com a ampla divulgação, pela cidade, de exposição do material subversivo aprendido e que seria feita, na Praça Brasil, se a memória não falha de 06 a 12 de junho.
Apesar de passar quase todos os dias por aquela praça, como permaneceria em Volta Redonda no final de semana, combinamos com um grupo ir, no sábado à tarde, olhar criticamente a exposição e expuséssemos, com gozações, a paranoia (ou estratégia de domínio) dos militares, com relação ao Brasil se tornar um país comunista.
Encontrei na exposição as revistas de propaganda da economia chinesa, o livro de poemas chineses e, pasmem, a apostila encapada com na cor vermelha.
Mas existiam outras pérolas que divertiram o grupo de universitários presente e, quiçá muitos outros que lá estiveram, para apreciar a obra inquisidora da repressão militar, a exposição de material subversivo apreendido e o convite a posterior destruição na fogueira do arbítrio, da violência e do despotismo.
Lá estava exposto como material subversivo romances como Dr. Jivago, Irmãos Karamazov, Crime e Castigo, Vidas Secas, outras publicações como Casa Grande e Senzala e, até as uma das revistas chinesas encontradas na gaveta da emsa do porteiro Simão.
Os comentários jocosos aconteciam em voz baixa, quase em segredo, mas as risadas tinham volume aumentado para expor ao ridículo e compensar a indignação.
Airton, cearense de sotaque marcante e mais ousado, pergunta, em voz alta e em bom tom ao recruta armado de fuzil, que tomava conta da exposição: não consegui encontrar “Chapeuzinho Vermelho”, vermelho viu? Está aí não? Aí o público todo que rodeava a exposição entregou-se ao riso.
O inocente recruta, esperou o coro de risadas permitir e respondeu: “a ordem que recebi é para não responder”. Solidários à posição indefesa e incômoda do recruta e tristes com aquele espetáculo proporcionado na praça de nome Brasil, abandonamos aquela posição de críticos e gozadores e, como t5odos os sábados que permanecíamos em Volta Redonda, fomos ao bar do Sr. Joaqum Manoel, para tomar umas pingas, conversar e esquecer.
E, como aquele provavelmente seria um dos últimos sábados em Volta Redonda, como estudante, depois desse encontro no bar das lamentações, como sempre, passar no Luís Xavier, apanhar o paletó emprestado, e ir ao Aeroporto Clube, ou ao Umuarama, trajado de acordo com o exigido, e dançar, uma das maiores expressões de vida...
A vida é movimento e, como música, tem ritmo, melodia e harmonia. A vida é dança. A dança da vida ...