Lembranças dos Tempos de Estudante
Muitas vezes me pergunto se isso ocorre somente à minoria com alguma dificuldade, ou se é comum a todos: fatos do presente em imagens, sons, sabores, toques, cheiros, ou sabores funcionarem como máquinas do tempo e transportarem ao passado, de maneira tão intensa, num bis à determinada experiência.
Terça-feira, 03 de dezembro de 2024, levado pelo primogênito, belo coroa quase sexagenário, assisti ao filme “Ainda estou aqui”, que narra a trajetória de Eunice Paiva, que tem a vida drasticamente alterada, pelo desaparecimento de seu marido, Rubens Paiva, ex-deputado federal, cassado em 1964 e desaparecido no início de 1971, após ter sido convocado a prestar esclarecimentos, aos militares operadores da repressão.
O filme, como máquina do tempo, transportou-me para uma outra terça feira, 31 de março de 1964, Volta Redonda, estado do Rio de Janeiro, quando vivia numa república de estudantes universitários, que faziam o curso específico de engenharia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.
No caminho para as salas de aulas teóricas, no período das manhãs, interrompíamos o percurso feito de bicicleta e entrávamos num bar muito simples, para tomarmos o café da manhã, pingado sempre e, poucas vezes, mas muito festejado, com sanduíche de mortadela.
Senhor Joaquim Manoel, o proprietário do bar, enquanto preparava os sanduíches informou em voz alta: os militares acabam de chegar à Guanabara (estado depois fundido com o estado do Rio de Janeiro), para destituir Jango do governo. Vocês, paraenses e os cearenses, que sempre vem tomar café da manhã e aos sábados a noite, uma pinga e discutir política é bom se preocupar e “fechar o bico”.
Enquanto o amigo paraense, que também deixara a terra natal para vir em busca de melhor formação universitária, e eu caminhávamos para escola, comentei: outra vez, mais uma vez, golpe militar na história dessa república cansada de interrupções no seu curso.
Em 1889, o primeiro golpe no imperador Dom Pedro II. Marechal Deodoro da Fonseca, o parteiro da República, que a proclamou em 15 de novembro.
Em 03 de novembro de1891, o segundo golpe, o primeiro Presidente da República do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca, destituiu o Congresso e instaurou estado de sítio.
23 de novembro de 1891, o terceiro golpe, quando o almirante Custódio de Melo e sua esquadra exige a renúncia do marechal Deodoro da Fonseca, para que assuma o vice-presidente, marechal Floriano Peixoto.
O quarto golpe foi orquestrado por Getúlio Vargas e iniciado por movimentação das forças armadas do Rio Grande do Sul, complementado com as movimentações das forças de Minas e Paraíba, que se dirigiram para o Rio de Janeiro, para depor o presidente Washington Luís.
Antes mesmo que as tropas governamentais enfrentassem as forças rebeldes, Exército e Marinha se anteciparam e formaram um triunvirato militar golpista, para governar o Brasil. Em novembro de 1930, além de impedir a posse do eleito Júlio Prestes, transferiram o poder para o governo provisório de Vargas.
Em novembro 1937, o quinto golpe, quando Getúlio Vargas, apoiado pelas Forças Armadas, já eleito em 1934, indiretamente pelo Congresso, após 8 anos no poder e sob a nova constituição de 1934, interrompeu o curso constitucionalista e democrático. Para continuar no poder, suspendeu a Constituição de 1934 e colocou todos os partidos políticos na ilegalidade. Inicia-se a ditadura Vargas que vai até 1945.
Já entrava na sala de aula, quando fui impedido por meu amigo, que me segurou pelo braço e, com muita propriedade, acrescentou: além desses cinco golpes, nesses 75 anos de claudicante caminhada republicana, ainda ocorreram algumas outras tentativas com revoltas militares, como as: 18 do Forte, Jacareacanga e Aragarças e, mais recentemente, com a renúncia de Jânio, quando impediram Jango de governar no presidencialismo, inventaram um parlamentarismo oportunista e Tancredo Neves assumiu o governo. Jango somente assumiu a presidência, porque o plebiscito escolheu o presidencialismo.
O curso que frequentávamos fazia parte de um projeto educacional do brevíssimo governo Jânio, denominado “UT – Universidade do Trabalho”. A ideia era criar cursos específicos em modalidade condizente com a região. Volta Redonda e a cidade vizinha Barra Mansa tinham grande atividade industrial metalúrgica. A UFRJ, participou desse projeto com a criação do “Curso de Engenharia Industrial Metalúrgica”.
O corpo docente, relacionado ao ensino teórico, todos, praticamente, eram professores militares do Exército Brasileiro. Eram professores do IME - Instituto Militar de Engenharia do Rio de Janeiro ou do corpo técnico de instituto de pesquisa ou tecnológico. Já, os relacionados a parte prática, a grande maioria, engenheiros das diversas especialidades da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional.
O corpo discente alunos transferidos a partir do terceiro ano dos cursos de engenharia das universidades, ou institutos de ensino federais brasileiros.
Nos dias seguintes àquela terça-feira 31 de março, durante as aulas, foi muito fácil observar nos oficiais do Exército, mas, acima de tudo, professores, expressões, ou ouvir manifestações: ora de descontentamento por mais uma vez, terem seus companheiros de armas, mas golpistas, prevalecido sob os legalistas; ora de preocupação, por saberem que muitos jovens, daquela geração, eram entusiastas com o pensamento e doutrina de Karl Marx bem como com Fidel Castro, pela libertação de Cuba da ditadura de Batista.
Finalmente, a chegada de mais um, do mais que aguardado, sábado. Quando não se viajava para a casa de uma tia na “Cidade Maravilhosa”, para um banho de mar, assistir ao futebol tricolor, se jogasse, e ir a uma tertúlia dançante no domingo, e resolver alguma coisa na segunda (as aulas eram de terça a sábado), íamos no final da tarde, juntamente com os cearenses, ao bar do Sr. Joaquim Manoel, jogar conversa fora acompanhado da brasileirinha pinga. Era o preaquecimento, para as noites de sábado, que findavam com o raiar do sol.
Depois, passava no quarto da pensão onde residia Luís Xavier, assistente administrativo da CSN, solteiro, de mesmo modelo, e apanhava emprestado paletó, para formar terno, exigido para a entrada nos bailes dos clubes, que aconteciam todas as noites de sábados.
De volta ao 303 do Edifício Bandeirantes, um banho, uma boa escovada de dentes, vestir-se dentro do padrão exigido, uma penteada com preocupação de moldar um topete e, como não se era de ferro, vamos a dança, movimento prazeroso, maravilhoso vírus, que sempre contamina de alegria e esperança.
Como se a máquina do tempo me trouxesse de volta ao presente, ainda teria mais lembranças a acrescentar, mas como ninguém é de ferro, vamos deixar para registrá-las numa outra oportunidade.